quinta-feira, 4 de junho de 2026

IA precisa ser "desarmada", diz papa em nova encíclica

"A IA não é neutra", diz Leão 14 ao pedir regulação global e criticar uso bélico e econômico da tecnologia. Em gesto inédito, pontífice também pediu perdão por papel da Igreja na escravidão.

O papa Leão 14 defendeu nesta segunda-feira (25/05) que a inteligência artificial (IA) precisa ser "desarmada" das lógicas que promovem "domínio, exclusão e morte". O apelo foi feito durante a apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, primeiro grande documento de seu pontificado dedicado ao impacto da tecnologia na dignidade humana.

Ao explicar o uso do termo "desarmamento", o pontífice afirmou que se trata de uma escolha deliberadamente forte, destinada a "despertar consciências" diante de uma revolução tecnológica que, segundo ele, pode ter consequências ainda mais profundas que as transformações históricas anteriores.

"Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros. Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar. Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano", escreveu.

"Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida. [...], IA é o ambiente em que estamos imersos e o poder com que temos de lidar. Por isso, não basta regulá-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora", acrescentou.

TECNOLOGIA E CONFLITOS

Leão 14 destacou que a IA já está transformando não apenas a vida cotidiana, mas também a forma como conflitos são conduzidos. Nesse contexto, disse sentir-se "responsável" por apresentar a visão da Igreja sobre o tema.

Dividida em cinco capítulos, Magnifica humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa", nem “um mal em si mesma". No entanto, ela "não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam". Ou seja: pode tanto ampliar a participação e a justiça quanto aumentar desigualdades, controle e exclusão.

O pontífice alertou, em especial, para o risco de concentração de poder nas mãos de poucos atores — como grandes empresas e plataformas digitais — que controlam dados, algoritmos e infraestrutura.

Ao traçar um paralelo com o debate sobre armamentos nucleares, o pontífice afirmou que a IA também precisa de limites claros. "Assim como a energia nuclear, deve estar a serviço de todos e do bem comum", disse.

Leão 14 insistiu que decisões tecnológicas não podem ser tomadas sem responsabilidade ética. Segundo ele, desenvolvimento e uso da IA devem ser acompanhados de regras, supervisão pública e mecanismos eficazes de proteção.

"O desenvolvimento e a utilização da IA no campo bélico devem estar sujeitos aos mais rigorosos compromissos éticos, no respeito pela dignidade humana e pela sacralidade da vida, evitando uma corrida ao armamento. [...] Por isso, não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis. Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável.

"A IA não retira ao conflito a sua intrínseca desumanidade: apenas o torna mais rápido e impessoal, baixando a fasquia do recurso à violência e transformando a defesa em previsão operacional, com as vítimas reduzidas a dados. Habituamo-nos, assim, à ideia de que a violência é inevitável e deve apenas ser otimizada".

O papa também pediu maior cooperação global: "Só juntos — quem projeta os sistemas e quem sofre suas consequências — poderemos construir um futuro para toda a humanidade, e não apenas para poucos privilegiados”.

DESINFORMAÇÃO, EXPLORAÇÃO E TRABALHO

Na encíclica, o líder da Igreja Católica também alertou para riscos concretos associados à IA, como manipulação da informação, violação de privacidade e reforço de preconceitos embutidos em algoritmos.

O documento menciona ainda novas formas de exploração, incluindo crimes contra menores facilitados por tecnologia e práticas próximas da "escravidão moderna" relacionadas à cadeia produtiva de sistemas digitais.

No mundo do trabalho, Leão 14 afirmou que a automação pode levar à desqualificação profissional e à vigilância excessiva dos trabalhadores, defendendo políticas de requalificação e proteção ao emprego.

O papa defendeu a criação de uma "ordem social justa na era digital", com leis adequadas e regras internacionais que garantam igualdade de acesso, proteção dos mais vulneráveis e combate à desinformação.

Para ele, o objetivo deve ser submeter o uso da tecnologia ao interesse público — e não apenas ao lucro.

PAPEL DA IGREJA E APELO FINAL

Apesar da crítica, Leão 14 ressaltou que a Igreja não pretende oferecer soluções técnicas. Seu papel, disse, é contribuir com uma visão ética e humanista em um momento de rápidas transformações.

"Cada pessoa é única e insubstituível", afirmou, ao destacar a importância de preservar a dignidade humana diante do avanço tecnológico.

O pontífice concluiu com um apelo à cooperação global: "Aprendamos a escutar uns aos outros, enfrentar com coragem os desafios do presente e construir uma sociedade mais humana e fraterna”.

PERDÃO POR PAPEL DA IGREJA NA ESCRAVIDÃO

Em sua encíclica, Leão 14 também fez um pedido histórico de desculpas pelo papel da Santa Sé em legitimar a escravidão e por não tê-la condenado durante séculos, classificando o histórico do Vaticano como uma "ferida na memória cristã".

Papados anteriores já pediram desculpas pelo envolvimento de cristãos no tráfico transatlântico de escravizados. Mas nenhum papa havia reconhecido publicamente, muito menos pedido perdão, pelo papel que papas do passado tiveram ao conceder autoridade explícita a soberanos europeus para subjugar e escravizar "infiéis".

Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão 14 tem em sua árvore genealógica tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.

Leão mencionou o tráfico de escravos em relação ao que chamou de novas formas de escravidão e colonialismo impulsionadas pela revolução digital.

Católicos negros norte-americanos, ativistas e acadêmicos há muito tempo pedem que a Santa Sé faça uma reparação por seu papel no comércio colonial de seres humanos, para além de pedidos genéricos de desculpas pelo envolvimento de cristãos individuais.

"É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a humilhação suportados por tantos, em contraste gritante com sua dignidade imensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor", escreveu Leão. "Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão."

Shannen Dee Williams, historiadora da Universidade de Dayton e autora de Subversive Habits ("Hábitos Subversivos"), livro de 2022 sobre a história das freiras católicas negras nos Estados Unidos, disse que o pedido de desculpas era um "passo monumental rumo ao tipo de revelação essencial da verdade e reparação que muitos católicos rezaram e trabalharam para testemunhar".

"A Igreja Católica nunca foi uma espectadora inocente na história da supremacia branca", disse Williams à agência Associated Press. "Católicos negros esperaram muito tempo para ouvir o Vaticano falar honestamente sobre os papéis centrais da Igreja no tráfico transatlântico de escravizados e na escravidão de bens móveis — e, por extensão, nos sistemas duradouros de racismo antinegro no mundo atual."

Uma série de diretrizes do Vaticano editadas no século 15 autorizou soberanos portugueses a conquistar a África e as Américas e a escravizar não cristãos.

Em 1452, por exemplo, o papa Nicolau 5º emitiu a bula papal Dum Diversas, que concedeu ao rei de Portugal e a seus sucessores o direito de "invadir, conquistar, combater e subjugar" e tomar todas as posses — inclusive terras — de "sarracenos, pagãos e outros infiéis e inimigos do nome de Cristo" em qualquer lugar.

A bula também deu aos portugueses permissão para "reduzir suas pessoas à escravidão perpétua".

Essa bula e outra emitida três anos depois, Romanus Pontifex, formaram a base da Doutrina da Descoberta, a teoria que legitimou a apropriação colonial de terras na África e nas Américas.

As autorizações de Nicolau 5º aos portugueses foram confirmadas ou renovadas pelo papa Calixto 3º em 1456, pelo papa Sisto 6 em 1481 e pelo papa Leão 10 em 1514, segundo o padre Christopher J. Kellerman, jesuíta e autor de All Oppression Shall Cease: A History of Slavery, Abolitionism, and the Catholic Church ("Toda opressão cessará: Uma história da escravidão, do abolicionismo e da Igreja Católica").

REIS ESPANHÓIS RECEBERAM DIREITOS SEMELHANTES PARA AS AMÉRICAS.

Em 2023, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta, mas nunca rescindiu, revogou ou rejeitou formalmente as próprias bulas. O Vaticano sustenta que uma bula posterior, Sublimis Deus, de 1537, reafirmou que os povos indígenas não deveriam ser privados de sua liberdade nem da posse de seus bens, nem escravizados.

Santa Sé demorou a condenar a escravidão, diz Leão

Em sua encíclica, Leão recordou que seu homônimo, o papa Leão 13, foi o primeiro papa a condenar explicitamente a escravidão, em 1888, muito depois de muitos países já a terem abolido.

Ao reconhecer as bulas papais do século 15, Leão escreveu em sua encíclica: "Já no início da era moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo a pedidos de soberanos, interveio várias vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de 'infiéis'."

Leão afirmou que não é possível julgar a moralidade dessas decisões com os padrões atuais. "No entanto, também não podemos negar ou minimizar o atraso com que tanto a sociedade quanto a Igreja passaram a denunciar o flagelo da escravidão", ressaltou.

O papa afirmou que a Igreja há muito tempo afirma a dignidade de todo ser humano como base de sua doutrina, "ainda que tenham sido necessários 18 séculos para que sua total incompatibilidade com a escravidão fosse explicitamente reconhecida".

"Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar distantes", disse.

Durante uma visita a Camarões em 1985, o papa João Paulo 2º pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravos em nome dos cristãos que participaram dele, mas não em nome dos papas. Em uma visita à Ilha de Gorée, no Senegal, em 1992 — o maior centro de tráfico de escravos da África Ocidental —, ele denunciou a injustiça da escravidão e a chamou de "tragédia de uma civilização que se dizia cristã". Fonte: DW- 25 de maio de 2026


sábado, 30 de maio de 2026

Primeira Guerra Mundial: Batalha de Verdun

Há 110 anos, ataque alemão contra franceses, iniciava um dos confrontos mais sangrentos da Primeira Guerra: mais de 300 mil mortos e nenhum vencedor. Embate virou sinônimo da irracionalidade da guerra. 

Soldados franceses nas trincheiras de Verdun 


Há exatos 110 anos, em 21 de fevereiro de 1916, um forte ataque abalava no início da manhã os fortes e trincheiras da pequena cidade francesa de Verdun. Os alemães levaram 300 vagões de munição e dispararam de todas as suas armas, durante horas. A 150 quilômetros de distância era possível escutar o estrondo dos canhões.

A ordem de atacar os franceses fora dada pelo chefe do Estado-Maior alemão, Erich von Falkenhayn. Ele queria pôr fim à guerra de posições que, desde setembro de 1914 – poucos meses após o início da Primeira Guerra Mundial –, se arrastava na frente ocidental entre a Bélgica e a França.

A intenção de Falkenhayn era romper o front e retornar à guerra de movimento, como explica o historiador Olaf Jessen, autor de um livro sobre a Batalha de Verdun publicado em alemão.

Mas em vez disso, alemães e franceses passariam os próximos dez meses travando uma luta feroz por cada vilarejo e cada colina.

PRESOS NO "INFERNO DE VERDUN"

O obus de cerco alemão "Bertha Gorda",
com alcance de mais de 9 mil metros


Dali em diante, a batalha tornaria‑se o símbolo de um massacre sem sentido. Durante a extenuante guerra de trincheiras, os soldados têm seus nervos consumidos por ratos, piolhos, frio e má alimentação. A morte é sua companheira constante, e o inimigo está, muitas vezes, a apenas 30 metros de distância.

A artilharia mais moderna deveria decidir a batalha – morteiros pesados, além de lança‑chamas e metralhadoras. Sobre os menos de 30 quilômetros quadrados de trincheiras chovem 26 milhões de granadas explosivas e 100 mil granadas de gás tóxico.

No verão, o odor pungente de cadáveres paira sobre o campo de batalha; partes de corpos em decomposição, arremessadas pela pressão das bombas, pendem dos galhos das árvores queimadas. No inverno, a água ou lama gelada alcança os soldados até os joelhos. As tropas enfrentam a fome e a sede, e bebem de poças de chuva nas quais, entre carcaças de cavalos, seus camaradas sangravam até morrer.

Ali, o ser humano era "mero material de guerra", observa Jessen. "Essa experiência desumana ficou gravada na memória coletiva com termos como 'moinho de sangue' e 'inferno de Verdun'."

O horror também transparece nas cartas de soldados a entes queridos.

"Verdun, uma palavra terrível! Incontáveis pessoas, jovens e cheias de esperança, tiveram de entregar aqui suas vidas; seus [ossos] agora apodrecem em algum lugar, entre posições, em valas comuns, em cemitérios", escreve o estudante de teologia Paul Boelicke, de 20 anos, à sua família. "O front oscila: hoje o inimigo está na colina, amanhã [seremos] nós; sempre há aqui um combate desesperado. Alguns, que ainda há pouco se alegravam com o sol quente, logo ouviam urros e choros se aproximando de algum lugar. Acabaram‑se todos os sonhos de paz e lar; o homem vira verme e procura o buraco mais profundo. Campos de bombardeio e de batalha onde nada se vê além de fumaça sufocante, gás, torrões de terra e trapos voando pelo ar, rodopiando selvagemente: isto é Verdun."

UMA BATALHA "ANORMALMENTE CRUEL"

A Batalha de Verdun deixou mais de 300 mil mortos e mais de 400 mil feridos.

No fim, em 18 de dezembro de 1916, passados dez meses e após incontáveis impactos de artilharia, a área parecia uma paisagem lunar.

"A batalha foi anormalmente cruel", diz Jessen. "Mesmo para os padrões da Primeira Guerra Mundial. Também os números de vítimas tão altos: que tantas pessoas tenham morrido em tão poucos quilômetros quadrados – isso não aconteceu em nenhum outro lugar naquela época."

No início, os alemães até lograram avançar, mas "depois os franceses reconquistaram quase todo o terreno que os alemães haviam conquistado durante meses com grandes perdas", afirma Jessen.

"Depois de 300 dias e 300 noites, o lado alemão estava praticamente de volta ao ponto em que a ofensiva havia começado, em 21 de fevereiro de 1916." Um dos motivos foi a longa permanência dos soldados alemães no front: "A moral de combate dos alemães estava arrasada pelo esgotamento."

O adversário de Falkenhayn, Philippe Pétain, o defensor de Verdun, adotou desde o início um sistema de rotação dos soldados. Ele envolveu literalmente toda a nação na batalha no leste da França. Quase todo soldado francês foi enviado às trincheiras diante de Verdun – mas pôde deixá‑las novamente após poucos dias, explica Jessen, para "evitar que o cansaço e a desmoralização surgissem tão rapidamente".

DEIXAR O INIMIGO "SANGRAR"

Como a estratégia ofensiva de Falkenhayn fracassou, ele foi deposto em 29 de agosto de 1916 como chefe do Estado-Maior alemão. No lugar dele, assumiu o general Paul von Hindenburg. Tropas alemãs já eram necessárias em outros lugares, especialmente na frente de batalha em Somme, onde tropas britânicas haviam iniciado uma ofensiva em junho de 1916 para aliviar os franceses em Verdun.

Finda a Batalha de Verdun, Falkenhayn ainda tentaria, anos mais tarde, atenuar sua inglória atuação e o fracasso das tropas alemãs. Em suas memórias, o oficial escreveu que pretendia fazer o exército francês "sangrar": "Se, para dois soldados alemães mortos, cinco franceses tivessem de sangrar, isso seria algo bom e promissor."

Para os veteranos sobreviventes, aquela declaração era uma "traição", relata Jessen. "Tiveram de ler que um de seus principais generais os via apenas como material humano", afirma.

PONTO DE VIRADA NA PRIMEIRA GUERRA

Segundo Jessen, apesar de não ter sido uma batalha decisiva, Verdun foi um "marco muito, muito importante na história da Primeira Guerra Mundial", "uma espécie de ponto de virada rumo à derrota alemã" que, além disso, "deslocou o equilíbrio de poder na Alemanha em direção a uma ditadura militar e acelerou a entrada dos Estados Unidos na guerra".

O confronto em Verdun também alimentou a chamada "lenda da punhalada nas costas" (em alemão: Dolchstosslegende), espalhada deliberadamente pelo comando militar – que para não admitir sua responsabilidade pelo fracasso alemão na Primeira Guerra propagou, a partir de 1918, a imagem de um exército invencível traído por social-democratas e judeus.

SÍMBOLO DA IRRACIONALIDADE DA GUERRA

Cruzes em frente ao Ossuário de Douaumont, inaugurado em 1932, 
lembra soldados desconhecidos mortos na Batalha de Verdun

Hoje, Verdun é para os alemães sinônimo da absoluta falta de sentido da guerra; já na França, a batalha é lembrada com um sentimento de união nacional e até de vitória — embora, na realidade, tenha sido um impasse militar pago com sofrimento desumano.

Em 1932, foi inaugurado na cidade um monumento onde repousam os ossos de inúmeros soldados desconhecidos. Desde 1967, o Memorial de Verdun lembra os mortos no confronto.

Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, o autor britânico H. G. Wells cunhou a frase "The war that will end war" ("A guerra que acabará com a guerra"). Mas se algum dos soldados franceses ou alemães que caíram em Verdun acreditava nisso, enganou‑se.

Mais de cem anos depois, voltam a surgir imagens de uma guerra estagnada na Europa — não em fotos históricas em preto e branco, mas em registros modernos da Ucrânia.

"Ao olhar imagens atuais do Donbass, veem-se grandes paralelos", diz Jessen.

Em Verdun, a insistência de alemães e franceses na vitória foi uma aposta levada às últimas consequências porque cada lado acreditava precisar dela para "compensar as perdas horrendas" em seus exércitos, enquanto apostava no "colapso psicológico e político do adversário".

"Isso lembra muito a situação na Ucrânia e na Rússia. Também ali, no momento, não vejo como romper [o impasse]", compara o historiador.

Antes inimigos mortais, Alemanha e França são hoje bons amigos. Jessen diz esperar que as pessoas aprendam com a história.

Fonte: DW- sábado, 21 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Coronavírus: Situação da cidade de São Paulo até 28 de maio de 2026

 

Táxis autônomos já são realidade, e muitos têm levado caos às ruas

 Os testes de carros autônomos já vêm ganhando o mundo: antes restritos aos Estados Unidos, os táxis sem motorista já estão levando passageiros também em lugares como China, Emirados Árabes Unidos, Japão e Europa. Além disso, modelos particulares com capacidade de direção própria também já são oferecidos por marcas como BMW, Mercedes-Benz e Li Auto.

Com mais carros sem condutor rodando, a tecnologia avança e aperfeiçoa sua inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, as falhas vêm ficando mais evidentes e problemas simples, mas de potencial catastrófico, vão sendo flagrados em vídeos que circulam e viralizam nas redes sociais.

BAGUNÇA NOS EUA

Em Austin, Texas (EUA), um táxi autônomo da Waymo - subsidiária da Alphabet, dona do Google - viralizou ao 'bugar' no pior momento possível: a saída de ambulâncias para resgate de vítimas de um tiroteio em massa. O atentado, ocorrido no domingo passado (1º), deixou três mortos e 13 feridos até o momento.

Nas imagens, o Jaguar I-Pace adaptado usado pela empresa repentinamente para atravessado na rua, enquanto os socorristas aguardam passagem. Aparentemente "confuso", o carro tentava balizar para frente e para trás, sem sair do lugar de fato.

Um policial, então, se aproxima do veículo e aperta um botão que faz contato com um operador remoto da empresa. Em seguida, um motorista humano assume o comando remotamente e o carro se retira para um estacionamento ao lado.

No fim, os socorristas informaram que o atraso foi pequeno, sem prejuízo às vítimas. A solução, entretanto, só veio rápida porque os policiais de Austin tiveram um treinamento específico para lidar com tais veículos.

Caso mais grave aconteceu na cidade de São Francisco, na Califórnia (EUA): lá, os robotáxis já operam há mais tempo e alguns geraram grandes transtornos também em um momento crítico.

Ao longo de dezembro do ano passado, a cidade registrou cerca de 20 apagões, que geraram caos aos habitantes e acabaram impactando veículos de condução autônima.

Acontece que, sem energia, os supervisores remotos dos carros não conseguiam se conectar a eles. Sem a supervisão humana - obrigatório em intervalos de tempo -, os carros entravam em modo de segurança e simplesmente não saíam do lugar.

O caso foi para a Justiça, onde a Waymo se desculpou e admitiu quase 1.600 bloqueios de via causados pela parada dos carros em meio ao apagão. Na audiência, as autoridades questionaram até o impacto dos carros autônomos em grandes tragédias, como terremotos.

Lá, as forças policiais também são treinadas para remover tais veículos em caso de emergência. Os legisladores, entretanto, afirmaram que, com 1.600 paradas, foram perdidas inúmeras horas de trabalho em um momento crítico.

"Nossos socorristas não são assistentes de automóveis", afirmou um supervisor do serviço na sessão.

DE QUEM É A CULPA?

A questão de responsabilidade também vem sendo posta à prova com o aumento dos carros autônomos, incluindo casos de vítimas fatais (humanas e animais).

Via de regra, os estados e as cidades que permitem tais veículos submetem-nos a uma legislação sob medida.

No caso da Califórnia, por exemplo, as empresas devem possuir seguro que inclui terceiros para cada carro que circula. As câmeras e dispositivos de armazenamento de dados do carro também devem reter todo o histórico de corridas, a fim de conferência em caso de acidentes.

Quando acidentes ocorrem, a legislação diz, em linhas gerais, que haver uma análise se o carro operava em condições permitidas e cumprindo todos os resguardos de segurança.

Mesma coisa foi definida pela Suprema Corte da China: o 'STF chinês' determinou, no mês passado, que, se um carro com ADAS se envolver em um acidente, o condutor pode ser responsabilizado caso tenha descumprido a regra de atenção mínima para cada nível de automação. Fonte: UOL - 04/03/2026  

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Louco de Deus no Fim do Mundo

A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol

 "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso."

Assim se definiu o escritor espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.

O Vaticano havia proposto a Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar: abrir completamente suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse, acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta. Como responder que não?

Cercas entrou por aquelas portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas, sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe idosa e enferma.

O resultado foi o livro O Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com a crônica da viagem.

Cercas o define como um romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo".

O enigma do livro não é uma questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.

"Vivemos em um mundo sem Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante (ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao mundo.

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.

BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?

Javier Cercas: Não sei, duvido muito.

É claro que existem algumas coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se está na moda.

Cada país é diferente, e cada circunstância é distinta.

A Europa não é mais o centro do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo.

O centro do catolicismo, agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?

Eu quis basicamente me perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.

 Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos com isso?

E o que está acontecendo no Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.

BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?

Cercas: Nada substituiu a religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.

Nós nos esquecemos de um ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.

Isso é incrível. Na Idade Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo.

Durante séculos e séculos, a humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este grande relato cai.

Houve tentativas de substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.

Não existe um relato que substitua o relato de Deus, o relato da religião.

A condição pós-moderna consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.

Cada um busca a vida à sua maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na arte, na política, no consumo...

E, às vezes, muitas pessoas se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner [1929-2020].

Acredito que isso fica visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato, o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.

E é possível que muitas pessoas sintam falta dela.

BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.

Cercas: Esse nó na garganta é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.

E tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.

É claro que foi um erro, pois a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.

 Ou seja, que a literatura, de alguma forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião.

E o meu caso não é uma exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como uma espécie de sacerdócio.

BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO "CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.

Parece que já havíamos superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão. Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que a usam como desculpa para seus projetos políticos.

Cercas: O constantinismo é a união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.

E a Igreja Católica de hoje — Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].

Outra questão é que outras igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios projetos políticos.

Isso é mortal, é catastrófico por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele precisa ser um contrapoder.

BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...

Cercas: É que um ponto elementar está esquecido.

Jesus Cristo era alguém perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.

"Eu não vim trazer a paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela escravidão.

Anda hoje é perigoso, é revolucionário dizer isso.

Jesus Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade.

Este é o verdadeiro cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.

É um cristianismo constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.

Em grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.

Existe uma frase de um grande escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês."

 Mas o que nós conhecemos é um cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.

 BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE QUE FRANCISCO ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO CLERICALISMO? DO SEU PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?

Cercas: E do ponto de vista de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um dos seus principais inimigos.

O clericalismo é a ideia de que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.

Francisco tinha uma imagem muito boa, era um homem com imagens literárias.

Ele havia sido professor de literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."

Não sou eu que digo isso, quem dizia era ele.

Sem ir muito longe, os abusos sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais, pode ter a tentação de abusar deles.

Neste sentido, sim, é claro que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este respeito.

BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?

Cercas: Sim, com certeza. Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.

Francisco entrou como um vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele fez isso, acredito que fez.

Este entrou de forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo de Cristo.

O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de dúvida.

O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.

Desde o primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos inovador.

Ele vem acalmar as águas. Vem unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito radical, dentro da própria Igreja.

E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.

Existe um ponto que sim, é verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.

Francisco falava em uma Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o fim do mundo.

É isso que fazem os missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão.

Porque não vão evangelizar como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.

Este homem tem uma particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.

BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ ENCONTROU O QUE ESPERAVA?

Cercas: Certamente, não.

Veja, o meu maior esforço para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.

Todo mundo está repleto de preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.

Nada do que eu esperava se realizou.

Tudo é surpreendente, desde o princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que quisesse, além de acompanhar o papa.

E isso segue até o final do livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.

Eu brinco muito com o livro. Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também era a crença do papa Francisco.

Por isso, é um livro humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os romances.

E, é claro, eu brinco com o fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que circulam sobre o Vaticano.

Todos estes mistérios são simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.

'Tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas

BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU NÃO?

 Cercas: Vejamos, não sei se você compreende.

Eu passei de ateu a ser agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".

Ou seja, da mesma forma que é impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo?

A verdade é que, seja você ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de verdade. Da minha mãe, por exemplo.

Na verdade, ela é a autêntica protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou com a dos missionários.

Ou seja, eu senti inveja da serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que eu nunca irei conseguir.

O livro tenta ser divertido. Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias, como a fé ou a relação com a razão.

A fé não é algo voluntário. Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter fé."

A fé ou você tem, ou não tem. Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo, embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.

Por isso, acredito realmente que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé autêntica).

BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO, ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?

Cercas: Obviamente, a Bíblia é um texto literário deslumbrante. É incontestável.

Mesmo que você não seja religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição literária.

No livro, de qualquer forma, destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.

Por um lado, é uma linguagem antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.

Jesus Cristo atraía pelos seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias.

Ele seduzia pelo seu posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.

 Mas também atraía pelo que dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de ouro.

A linguagem da Igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é hermética, não é atraente e ninguém a entende.

A literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem um grave problema linguístico.

Embora seja muito diferente de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu antecessor, segundo Javier Cercas

BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA, MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO A DEUS.

Ou quando você ouve, como você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu, de barba e tudo."

Cercas: Bem, eu cito o filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos crentes, ele deve a Bach."

E é verdade, você ouve o Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.

É claro que a Igreja Católica foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.

Às vezes, me pergunto, como ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com outra pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?

Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e poder contar?

Uma instituição que, além disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.

Basta pensar que, no centro desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.

É algo absolutamente incrível e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas, inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.

Por isso, é algo extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?

 BBC: VOCÊ CHEGOU À CONCLUSÃO DE QUE O EXTRAORDINÁRIO NÃO É O PAPA, MAS A IGREJA, QUE CONTINUA EXISTINDO 2 MIL ANOS DEPOIS, ENQUANTO IMPÉRIOS E REINADOS CAÍRAM. QUAL É O SUPERPODER DA IGREJA?

Cercas: Não sei. Se eu fosse crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.

Existe algo muito poderoso no cristianismo.

Cristo era um revolucionário social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se rebelou apenas socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.

Isso está no centro do cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.

O cristianismo diz que "você não vai morrer". É uma imensa promessa.

Esta rebelião tem enorme potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em seu ser."

É o que define os seres humanos. Queremos continuar sendo.

E o cristianismo oferece um caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata este livro.

A literatura, como a religião, é uma forma de transcendência, segundo Cercas

BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?

Cercas: Quando me fizeram a proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha mãe.

Minha mãe era uma mulher profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.

Ela não dizia isso porque fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo. Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.

Este livro trata de um louco sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.

Uma pergunta elementar e, por sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou não?

Neste livro, o aparente protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era meu pai em Anatomia de Um Instante.

Mas você tem toda a razão. Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.

Este é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.

E ao me investigar, investigo o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.

BBC: VOCÊ ACREDITA QUE FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?

Cercas: É que não sou crente. Este é o meu problema.

Além disso, a ressurreição da carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom.

Não acredito que exista Zoom no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas formas de transcendência.

Existe, por exemplo, uma lei que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.

Ou seja, agora que meus pais estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se transformaram nas minhas células.

Não se trata de imaginação, é um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.

O escritor espanhol Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."

Algo disso existe. Meus pais, de alguma forma, continuam vivendo em mim.

Quando me olho no espelho, vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha mãe.

Mas a literatura busca uma forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido há tantos séculos.

O que nós, seres humanos, não queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.

Precisarei aceitar, não há remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do que desaparecer para sempre.

Parece horrível, parece injusto, parece idiota. Não gosto.

A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol

Javier Cercas é o autor de O Louco de Deus no Fim do Mundo

"Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso."

Assim se definiu o escritor espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.

 O Vaticano havia proposto a Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar: abrir completamente suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse, acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta. Como responder que não?

Cercas entrou por aquelas portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas, sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe idosa e enferma.

O resultado foi o livro O Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com a crônica da viagem.

Cercas o define como um romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo".

O enigma do livro não é uma questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.

"Vivemos em um mundo sem Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante (ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao mundo.

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.

BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?

Javier Cercas: Não sei, duvido muito.

É claro que existem algumas coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se está na moda.

Cada país é diferente, e cada circunstância é distinta.

A Europa não é mais o centro do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo.

O centro do catolicismo, agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?

Eu quis basicamente me perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.

Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos com isso?

E o que está acontecendo no Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.

BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?

 Cercas: Nada substituiu a religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.

Nós nos esquecemos de um ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.

Isso é incrível. Na Idade Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo.

Durante séculos e séculos, a humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este grande relato cai.

Houve tentativas de substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.

Não existe um relato que substitua o relato de Deus, o relato da religião.

A condição pós-moderna consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.

Cada um busca a vida à sua maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na arte, na política, no consumo...

E, às vezes, muitas pessoas se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner [1929-2020].

Acredito que isso fica visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato, o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.

E é possível que muitas pessoas sintam falta dela.

BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.

Cercas: Esse nó na garganta é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.

E tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.

É claro que foi um erro, pois a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.

Ou seja, que a literatura, de alguma forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião.

E o meu caso não é uma exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como uma espécie de sacerdócio.

BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO "CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.

 Parece que já havíamos superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão. Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que a usam como desculpa para seus projetos políticos.

Cercas: O constantinismo é a união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.

E a Igreja Católica de hoje — Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].

Outra questão é que outras igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios projetos políticos.

Isso é mortal, é catastrófico por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele precisa ser um contrapoder.

BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...

Cercas: É que um ponto elementar está esquecido.

Jesus Cristo era alguém perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.

"Eu não vim trazer a paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela escravidão.

Anda hoje é perigoso, é revolucionário dizer isso.

Jesus Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade.

Este é o verdadeiro cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.

É um cristianismo constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.

Em grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.

Existe uma frase de um grande escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês."

Mas o que nós conhecemos é um cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.

Javier Cercas acompanhou o papa Francisco em uma viagem à Mongólia, em setembro de 2023

BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE QUE FRANCISCO ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO CLERICALISMO? DO SEU PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?

 Cercas: E do ponto de vista de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um dos seus principais inimigos.

O clericalismo é a ideia de que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.

Francisco tinha uma imagem muito boa, era um homem com imagens literárias.

Ele havia sido professor de literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."

Não sou eu que digo isso, quem dizia era ele.

Sem ir muito longe, os abusos sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais, pode ter a tentação de abusar deles.

Neste sentido, sim, é claro que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este respeito.

BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?

Cercas: Sim, com certeza. Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.

Francisco entrou como um vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele fez isso, acredito que fez.

Este entrou de forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo de Cristo.

O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de dúvida.

O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.

Desde o primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos inovador.

Ele vem acalmar as águas. Vem unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito radical, dentro da própria Igreja.

E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.

Existe um ponto que sim, é verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.

Francisco falava em uma Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o fim do mundo.

 É isso que fazem os missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão.

Porque não vão evangelizar como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.

Este homem tem uma particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.

BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ ENCONTROU O QUE ESPERAVA?

Cercas: Certamente, não.

Veja, o meu maior esforço para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.

Todo mundo está repleto de preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.

Nada do que eu esperava se realizou.

Tudo é surpreendente, desde o princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que quisesse, além de acompanhar o papa.

E isso segue até o final do livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.

Eu brinco muito com o livro. Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também era a crença do papa Francisco.

Por isso, é um livro humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os romances.

E, é claro, eu brinco com o fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que circulam sobre o Vaticano.

Todos estes mistérios são simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.

'Tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas

BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU NÃO?

Cercas: Vejamos, não sei se você compreende.

Eu passei de ateu a ser agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".

 Ou seja, da mesma forma que é impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo?

A verdade é que, seja você ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de verdade. Da minha mãe, por exemplo.

Na verdade, ela é a autêntica protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou com a dos missionários.

Ou seja, eu senti inveja da serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que eu nunca irei conseguir.

O livro tenta ser divertido. Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias, como a fé ou a relação com a razão.

A fé não é algo voluntário. Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter fé."

A fé ou você tem, ou não tem. Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo, embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.

Por isso, acredito realmente que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé autêntica).

BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO, ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?

Cercas: Obviamente, a Bíblia é um texto literário deslumbrante. É incontestável.

Mesmo que você não seja religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição literária.

No livro, de qualquer forma, destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.

Por um lado, é uma linguagem antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.

Jesus Cristo atraía pelos seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias.

Ele seduzia pelo seu posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.

Mas também atraía pelo que dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de ouro.

A linguagem da Igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é hermética, não é atraente e ninguém a entende.

 A literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem um grave problema linguístico.

Embora seja muito diferente de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu antecessor, segundo Javier Cercas

BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA, MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO A DEUS.

Ou quando você ouve, como você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu, de barba e tudo."

Cercas: Bem, eu cito o filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos crentes ele deve a Bach."

E é verdade, você ouve o Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.

É claro que a Igreja Católica foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.

Às vezes, me pergunto, como ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com outra pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?

Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e poder contar?

Uma instituição que, além disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.

Basta pensar que, no centro desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.

É algo absolutamente incrível e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas, inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.

Por isso, é algo extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?

BBC: VOCÊ CHEGOU À CONCLUSÃO DE QUE O EXTRAORDINÁRIO NÃO É O PAPA, MAS A IGREJA, QUE CONTINUA EXISTINDO 2 MIL ANOS DEPOIS, ENQUANTO IMPÉRIOS E REINADOS CAÍRAM. QUAL É O SUPERPODER DA IGREJA?

Cercas: Não sei. Se eu fosse crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.

Existe algo muito poderoso no cristianismo.

 Cristo era um revolucionário social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se rebelou apenas socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.

Isso está no centro do cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.

O cristianismo diz que "você não vai morrer". É uma imensa promessa.

Esta rebelião tem enorme potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em seu ser."

É o que define os seres humanos. Queremos continuar sendo.

E o cristianismo oferece um caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata este livro.

BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?

Cercas: Quando me fizeram a proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha mãe.

Minha mãe era uma mulher profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.

Ela não dizia isso porque fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo. Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.

Este livro trata de um louco sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.

Uma pergunta elementar e, por sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou não?

Neste livro, o aparente protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era meu pai em Anatomia de Um Instante.

Mas você tem toda a razão. Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.

Este é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.

E ao me investigar, investigo o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.

BBC: VOCÊ ACREDITA QUE FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?

Cercas: É que não sou crente. Este é o meu problema.

 Além disso, a ressurreição da carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom.

Não acredito que exista Zoom no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas formas de transcendência.

Existe, por exemplo, uma lei que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.

Ou seja, agora que meus pais estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se transformaram nas minhas células.

Não se trata de imaginação, é um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.

O escritor espanhol Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."

Algo disso existe. Meus pais, de alguma forma, continuam vivendo em mim.

Quando me olho no espelho, vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha mãe.

Mas a literatura busca uma forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido há tantos séculos.

O que nós, seres humanos, não queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.

Precisarei aceitar, não há remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do que desaparecer para sempre.

Parece horrível, parece injusto, parece idiota. Não gosto.

BBC News Mundo - 7 fevereiro 2026 – autor - Paula Rosas