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sábado, 30 de maio de 2026

Primeira Guerra Mundial: Batalha de Verdun

Há 110 anos, ataque alemão contra franceses, iniciava um dos confrontos mais sangrentos da Primeira Guerra: mais de 300 mil mortos e nenhum vencedor. Embate virou sinônimo da irracionalidade da guerra. 

Soldados franceses nas trincheiras de Verdun 


Há exatos 110 anos, em 21 de fevereiro de 1916, um forte ataque abalava no início da manhã os fortes e trincheiras da pequena cidade francesa de Verdun. Os alemães levaram 300 vagões de munição e dispararam de todas as suas armas, durante horas. A 150 quilômetros de distância era possível escutar o estrondo dos canhões.

A ordem de atacar os franceses fora dada pelo chefe do Estado-Maior alemão, Erich von Falkenhayn. Ele queria pôr fim à guerra de posições que, desde setembro de 1914 – poucos meses após o início da Primeira Guerra Mundial –, se arrastava na frente ocidental entre a Bélgica e a França.

A intenção de Falkenhayn era romper o front e retornar à guerra de movimento, como explica o historiador Olaf Jessen, autor de um livro sobre a Batalha de Verdun publicado em alemão.

Mas em vez disso, alemães e franceses passariam os próximos dez meses travando uma luta feroz por cada vilarejo e cada colina.

PRESOS NO "INFERNO DE VERDUN"

O obus de cerco alemão "Bertha Gorda",
com alcance de mais de 9 mil metros


Dali em diante, a batalha tornaria‑se o símbolo de um massacre sem sentido. Durante a extenuante guerra de trincheiras, os soldados têm seus nervos consumidos por ratos, piolhos, frio e má alimentação. A morte é sua companheira constante, e o inimigo está, muitas vezes, a apenas 30 metros de distância.

A artilharia mais moderna deveria decidir a batalha – morteiros pesados, além de lança‑chamas e metralhadoras. Sobre os menos de 30 quilômetros quadrados de trincheiras chovem 26 milhões de granadas explosivas e 100 mil granadas de gás tóxico.

No verão, o odor pungente de cadáveres paira sobre o campo de batalha; partes de corpos em decomposição, arremessadas pela pressão das bombas, pendem dos galhos das árvores queimadas. No inverno, a água ou lama gelada alcança os soldados até os joelhos. As tropas enfrentam a fome e a sede, e bebem de poças de chuva nas quais, entre carcaças de cavalos, seus camaradas sangravam até morrer.

Ali, o ser humano era "mero material de guerra", observa Jessen. "Essa experiência desumana ficou gravada na memória coletiva com termos como 'moinho de sangue' e 'inferno de Verdun'."

O horror também transparece nas cartas de soldados a entes queridos.

"Verdun, uma palavra terrível! Incontáveis pessoas, jovens e cheias de esperança, tiveram de entregar aqui suas vidas; seus [ossos] agora apodrecem em algum lugar, entre posições, em valas comuns, em cemitérios", escreve o estudante de teologia Paul Boelicke, de 20 anos, à sua família. "O front oscila: hoje o inimigo está na colina, amanhã [seremos] nós; sempre há aqui um combate desesperado. Alguns, que ainda há pouco se alegravam com o sol quente, logo ouviam urros e choros se aproximando de algum lugar. Acabaram‑se todos os sonhos de paz e lar; o homem vira verme e procura o buraco mais profundo. Campos de bombardeio e de batalha onde nada se vê além de fumaça sufocante, gás, torrões de terra e trapos voando pelo ar, rodopiando selvagemente: isto é Verdun."

UMA BATALHA "ANORMALMENTE CRUEL"

A Batalha de Verdun deixou mais de 300 mil mortos e mais de 400 mil feridos.

No fim, em 18 de dezembro de 1916, passados dez meses e após incontáveis impactos de artilharia, a área parecia uma paisagem lunar.

"A batalha foi anormalmente cruel", diz Jessen. "Mesmo para os padrões da Primeira Guerra Mundial. Também os números de vítimas tão altos: que tantas pessoas tenham morrido em tão poucos quilômetros quadrados – isso não aconteceu em nenhum outro lugar naquela época."

No início, os alemães até lograram avançar, mas "depois os franceses reconquistaram quase todo o terreno que os alemães haviam conquistado durante meses com grandes perdas", afirma Jessen.

"Depois de 300 dias e 300 noites, o lado alemão estava praticamente de volta ao ponto em que a ofensiva havia começado, em 21 de fevereiro de 1916." Um dos motivos foi a longa permanência dos soldados alemães no front: "A moral de combate dos alemães estava arrasada pelo esgotamento."

O adversário de Falkenhayn, Philippe Pétain, o defensor de Verdun, adotou desde o início um sistema de rotação dos soldados. Ele envolveu literalmente toda a nação na batalha no leste da França. Quase todo soldado francês foi enviado às trincheiras diante de Verdun – mas pôde deixá‑las novamente após poucos dias, explica Jessen, para "evitar que o cansaço e a desmoralização surgissem tão rapidamente".

DEIXAR O INIMIGO "SANGRAR"

Como a estratégia ofensiva de Falkenhayn fracassou, ele foi deposto em 29 de agosto de 1916 como chefe do Estado-Maior alemão. No lugar dele, assumiu o general Paul von Hindenburg. Tropas alemãs já eram necessárias em outros lugares, especialmente na frente de batalha em Somme, onde tropas britânicas haviam iniciado uma ofensiva em junho de 1916 para aliviar os franceses em Verdun.

Finda a Batalha de Verdun, Falkenhayn ainda tentaria, anos mais tarde, atenuar sua inglória atuação e o fracasso das tropas alemãs. Em suas memórias, o oficial escreveu que pretendia fazer o exército francês "sangrar": "Se, para dois soldados alemães mortos, cinco franceses tivessem de sangrar, isso seria algo bom e promissor."

Para os veteranos sobreviventes, aquela declaração era uma "traição", relata Jessen. "Tiveram de ler que um de seus principais generais os via apenas como material humano", afirma.

PONTO DE VIRADA NA PRIMEIRA GUERRA

Segundo Jessen, apesar de não ter sido uma batalha decisiva, Verdun foi um "marco muito, muito importante na história da Primeira Guerra Mundial", "uma espécie de ponto de virada rumo à derrota alemã" que, além disso, "deslocou o equilíbrio de poder na Alemanha em direção a uma ditadura militar e acelerou a entrada dos Estados Unidos na guerra".

O confronto em Verdun também alimentou a chamada "lenda da punhalada nas costas" (em alemão: Dolchstosslegende), espalhada deliberadamente pelo comando militar – que para não admitir sua responsabilidade pelo fracasso alemão na Primeira Guerra propagou, a partir de 1918, a imagem de um exército invencível traído por social-democratas e judeus.

SÍMBOLO DA IRRACIONALIDADE DA GUERRA

Cruzes em frente ao Ossuário de Douaumont, inaugurado em 1932, 
lembra soldados desconhecidos mortos na Batalha de Verdun

Hoje, Verdun é para os alemães sinônimo da absoluta falta de sentido da guerra; já na França, a batalha é lembrada com um sentimento de união nacional e até de vitória — embora, na realidade, tenha sido um impasse militar pago com sofrimento desumano.

Em 1932, foi inaugurado na cidade um monumento onde repousam os ossos de inúmeros soldados desconhecidos. Desde 1967, o Memorial de Verdun lembra os mortos no confronto.

Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, o autor britânico H. G. Wells cunhou a frase "The war that will end war" ("A guerra que acabará com a guerra"). Mas se algum dos soldados franceses ou alemães que caíram em Verdun acreditava nisso, enganou‑se.

Mais de cem anos depois, voltam a surgir imagens de uma guerra estagnada na Europa — não em fotos históricas em preto e branco, mas em registros modernos da Ucrânia.

"Ao olhar imagens atuais do Donbass, veem-se grandes paralelos", diz Jessen.

Em Verdun, a insistência de alemães e franceses na vitória foi uma aposta levada às últimas consequências porque cada lado acreditava precisar dela para "compensar as perdas horrendas" em seus exércitos, enquanto apostava no "colapso psicológico e político do adversário".

"Isso lembra muito a situação na Ucrânia e na Rússia. Também ali, no momento, não vejo como romper [o impasse]", compara o historiador.

Antes inimigos mortais, Alemanha e França são hoje bons amigos. Jessen diz esperar que as pessoas aprendam com a história.

Fonte: DW- sábado, 21 de fevereiro de 2026

terça-feira, 12 de julho de 2022

Os milhares de mortos em Waterloo viraram adubo?

Mais de 53 mil soldados morreram na Batalha de Waterloo, mas estranhamente poucos restos foram encontrados até hoje. Segundo um arqueólogo britânico, os ossos podem ter sido transformados em fertilizante.

Numa das batalhas mais sangrentas em solo europeu, em 18 de junho de 1815, o exército francês comandado por Napoleão Bonaparte perdeu o confronto decisivo contra as tropas britânicas, comandadas pelo Duque de Wellington, e prussianas, lideradas pelo marechal Gebhard Leberecht von Blücher. No final, na pequena cidade de Waterloo, ao sul de Bruxelas, havia mais de 53 mil homens mortos.

Curiosamente, até hoje apenas alguns restos mortais foram encontrados em escavações. E não foram encontrados vestígios de valas comuns. Usando cartas, pinturas, artigos de jornal e relatos pessoais de escritores, poetas, pintores, diplomatas e espectadores da época, o arqueólogo britânico e professor Tony Pollard reconstruiu o que aconteceu nos dias e semanas após a Batalha de Waterloo.

De acordo com Pollard, apenas alguns dias depois do fim da batalha, já chegaram a Waterloo os primeiros curiosos e saqueadores. Testemunhas relataram que a população local roubou roupas e objetos pessoais antes de enterrar os mortos. "Muitos vieram para roubar os pertences dos mortos, alguns até roubaram dentes para fazer próteses, outros vieram apenas para observar o que havia acontecido", explica Pollard.

De acordo com o arqueólogo, vários negociantes de ossos estavam entre os saqueadores. "Os campos de batalha da Europa eram boas fontes de ossos", contou o diretor do Centro de Arqueologia do Campo de Batalha da Universidade de Glasgow ao Journal of Conflict Archaeology.

OSSOS ERAM USADOS PARA ADUBO NA AGRICULTURA

"Pelo menos três artigos de jornal da década de 1820 mencionam o recolhimento de ossos humanos de campos de batalha europeus para fazer fertilizante", diz Pollard. "Nas duas décadas que se seguiram à Batalha de Waterloo, os campos de batalha europeus forneceram um rico suprimento de material para ser transformado em farinha de ossos, que era usada como fertilizante antes da descoberta de superfosfatos na década de 1840."

Aparentemente, um procedimento semelhante aconteceu com os mortos da Batalha das Nações, perto de Leipzig, na Alemanha, em que uma aliança de tropas da Prússia, Áustria, Suécia e Rússia triunfou sobre Napoleão Bonaparte em 1813. Cerca de 92 mil dos cerca de 600 mil soldados envolvidos morreram.

Um jornal inglês noticiou em novembro de 1829 que um proprietário de terras escocês havia comprado um cargueiro inteiro carregado de ossos do campo de batalha de Leipzig para transformá-los em fertilizante.

ENORMES PILHAS DE CADÁVERES

Muitos ingleses em particular foram atraídos para o famoso campo de batalha onde Napoleão Bonaparte sofreu sua derrota esmagadora que levou à sua abdicação e ao fim do Império Francês. "Vivenciar seu Waterloo" ainda hoje é uma expressão sinônima de derrota total.

Nos registros detalhados, descrições e pinturas feitas por escritores, poetas, pintores, diplomatas e espectadores do campo de batalha em Waterloo, as testemunhas relataram enormes montanhas de cadáveres que dificilmente poderiam ser manejados. Sempre que possível, os mortos eram enterrados em valas comuns ou em valas existentes no campo de batalha.

Muitas vezes, porém, os cadáveres eram queimados. A inglesa Charlotte Eaton relatou que as valas comuns cavadas não eram suficientes para todos os corpos: "As covas foram cavadas, mas seu conteúdo se projetava acima da superfície do solo", escreveu Eaton, que viveu em Bruxelas em 1815. "Esses montes pavorosos foram, portanto, cobertos com madeira e incendiados."

Pessoas sentadas em um campo assistindo a uma representação da Batalha de WaterlooPessoas sentadas em um campo assistindo a uma representação da Batalha de Waterloo

 O fato de que muitos cadáveres foram queimados em vez de enterrados também foi descrito pelo comerciante escocês James Ker, que visitou Waterloo imediatamente após a batalha: "No lado francês do campo, o fedor era tão forte que, em vez de enterrá-los, se julgou razoável queimar os mortos, homens e cavalos, por falta de tempo e de ajudantes."

AS VALAS COMUNS FORAM SAQUEADAS MAIS TARDE?

O arqueólogo Pollard acha improvável que ainda sejam encontradas valas comuns. "Apesar da liberdade artística e do exagero sobre o número de corpos nas valas comuns, os cadáveres foram claramente descartados em vários locais no campo de batalha, por isso é um tanto surpreendente que não haja registros confiáveis ​​da descoberta de uma vala comum", explica o arqueólogo.

As supostas valas comuns podem realmente ser bem localizadas com base em relatos e fotos de testemunhas oculares: supostamente a área ao redor de Hougoumont, uma área perto de La Haye Sainte e um areal em La Belle Alliance.

No entanto, esses lugares já foram extensivamente examinados por arqueólogos com escavações de teste e radar de penetração no solo, em vão. Não foram encontradas ali valas comuns ou locais de queima de corpos.

"No geral, as investigações não mostraram nenhuma evidência de covas, seja na forma de relíquias humanas, como ossos, seja de covas identificáveis", escreve Pollard. "Uma razão para essa falta de sepulturas pode ser a queima dos mortos, mas mesmo isso pode explicar apenas parcialmente as inúmeras relíquias que desapareceram."

Segundo o arqueólogo britânico, é bem possível que a população local tenha ajudado os  comerciantes de ossos. "Os moradores podem ter mostrado a localização das valas comuns aos compradores de ossos, já que muitos deles poderiam ter lembranças vívidas dos enterros ou até mesmo ter ajudado nas escavações."

Afinal, o comércio de ossos era um negócio lucrativo, pois havia um grande número deles nas valas comuns.

A PESQUISA CONTINUA

Do ponto de vista de hoje, no entanto, é muito surpreendente que uma perturbação tão irreverente da paz dos mortos tenha sido simplesmente aceita ou simplesmente silenciada. De acordo com Pollard, "em nenhum lugar dos registros foi comentada uma escavação em grande escala das valas comuns".

Provavelmente só haverá clareza quando as valas comuns descritas ou pelo menos vestígios delas forem encontrados. "Se restos humanos foram removidos na medida sugerida, em alguns casos ainda deve haver evidências arqueológicas das sepulturas de onde foram retirados", disse Pollard.

"Vamos retornar a Waterloo", anunciou o diretor do Centro de Arqueologia de Campos de Batalha da Universidade de Glasgow. Ele quer encontrar sepulturas com base em registros contemporâneos, com suas próprias escavações e medições do solo. Talvez isso traga certeza sobre o que realmente aconteceu com a dezenas de milhares de combatentes mortos em Waterloo. Fonte: Deutsche Welle – 09/7/2022