quinta-feira, 1 de maio de 2025

30 de abril de 1945: O fim de Adolf Hitler

 Há 80 anos, o ditador nazista que comandou o Holocausto e mergulhou a Europa na Segunda Guerra tirava a própria vida no seu bunker em Berlim, escapando de ser julgado pelos inúmeros crimes que cometeu.

A última fotografia conhecida de Adolf Hitler, registrada em 28 de abril. em meio às ruínas da chancelaria do Reich, dois dias antes do suicídio do ditador

Berlim, 30 de abril de 1945: enquanto tropas soviéticas avançavam de maneira decisiva rumo ao coração da capital do 3° Reich, o líder nazista Adolf Hitler contemplava, em seu bunker subterrâneo, suas últimas horas antes de cometer suicídio.

Haviam se passado pouco mais de 12 anos desde sua ascensão ao poder e pouco mais de cinco anos da invasão da Polônia pelo regime nazista, que atirou a Europa na Segunda Guerra Mundial. Nessa altura, mais de 40 milhões de pessoas já haviam morrido no conflito, somente na Europa. Entre elas estavam 6 milhões de judeus, assassinados pela máquina do Holocausto comandada por Hitler.

Para entender como se desenrolaram os últimos dias de Hitler, é essencial situar o contexto da guerra naquela etapa decisiva. Até então, Berlim era alvo constante de bombardeios aéreos em larga escala realizados pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Mas, a partir de janeiro, a cidade passou a estar ao alcance direto da artilharia soviética.

"Quando começa 1945 há uma novidade assustadora dos nazistas que é a proximidade das frentes do exército vermelho", explica o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor emérito de Teoria da Guerra da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e titular de História Contemporânea da UFRJ, em entrevista à DW. "Hitler já sabia que era o fim."

Acompanhado de seus assessores mais próximos e de sua então amante Eva Braun, Hitler havia se instalado, em 16 de janeiro, no Führerbunker — um complexo de salas subterrâneas localizado sob a Chancelaria do Reich. Foi ali que o ditador passou seus últimos dias, ao lado de membros do regime, já isolado do mundo exterior.

"Na época, surge uma possibilidade cultivada pela propaganda nazista de que Hitler abandonaria Berlim e iria para um refúgio alpino”, explica o professor. "Entretanto, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, e Martin Bormann, chefe da chancelaria do Partido Nazista, fazem uma campanha muito forte contra essa ideia e apresentam a Hitler uma coisa meio catastrófica, mas grandiosa e teatral: o fim em Berlim."

28 DE ABRIL: UM TEATRO MACABRO

Para Silva, existe um fator-chave que acelera a percepção de um "fim da linha" de Hitler — a morte de Mussolini. Em 28 de abril de 1945, o ditador fascista que comandou a Itália de 1922 até 1943 foi capturado e fuzilado ao tentar fugir para a Suíça disfarçado de soldado alemão.

"Acho que o momento em que Hitler perde todas as esperanças de possa fazer algo para mudar o final da guerra é exatamente a morte de Mussolini da forma que foi", diz o historiador.


"As fotos da forma humilhante em que Mussolini aparece pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina apavoraram Hitler. Ele não queria ter um fim com aquele, tão pouco grandioso e teatral", completa.

A essa altura, Hitler já sabia que Berlim estava cercada. Os soviéticos haviam fechado o cerco e as rotas de fuga do bunker eram praticamente inviáveis, sob intenso fogo de artilharia. A percepção de que não havia saída possível se consolidava.

"Essa ideia do suicídio vai a partir do dia 28 de abril ser absolutamente dominante”, afirma Silva. "Então, ele começa a armar a sua própria morte que tem que ter esse aspecto teatral que ele tanto amava nesse sentido."

Segundo o historiador, Eva Braun também demonstrava consciência do desfecho iminente. Ela chegou a escrever uma carta a uma amiga em Munique, na qual incluía seu testamento, indicando como gostaria que seus bens fossem distribuídos.

29 DE ABRIL: OS ÚLTIMOS PASSOS DO LÍDER NAZISTA

Na madrugada de 29 de abril de 1945, Hitler realizou dois atos simbólicos que marcariam suas últimas horas: casou-se com Eva Braun, sua discreta companheira há 14 anos, e ditou seu testamento político.

O casamento foi realizado em uma cerimônia civil simples, conduzida por um juiz dentro do próprio bunker, com Joseph Goebbels e Martin Bormann como testemunhas.

Em seguida, o ditador se reuniu em outro cômodo com a sua secretaria Traudl Junge para ditar um testamento pessoal e outro de caráter político. No primeiro, determinou como gostaria de ver distribuídos seus bens pessoais.

No segundo, ele nomeou novos sucessores: o almirante Karl Dönitz como presidente da Alemanha e Joseph Goebbels como chanceler. Além disso, Hitler demoveu Hermann Göring, chefe da Força Aérea e nominalmente o n°2 do regime de todos os seus postos, após o chamado marechal do Reich cair em desgraça aos olhos do ditador.

Antissemita até o fim, Hitler ainda usou o documento para culpar o que chamou “judeus internacionais” pela guerra.

"Hitler preparou tudo para a sua morte", afirma o professor. "Ele fez um testamento, que era basicamente um balanço político do que foi o governo dele”.

30 DE ABRIL: "DER CHEF IST TOT"

Na manhã do dia 30 de abril de 1945, as tropas soviéticas já estavam a quase 500 metros da Chancelaria do Reich e o Führerbunker estava prestes a ser alcançado. Cercado e sem alternativas, Hitler tinha plena consciência de que seu regime chegava ao fim.

"Tudo apontava para o seu suicídio", afirma da Silva. "Dentro do bunker, seu médico inclusive testa uma pílula de cianeto, o veneno que iria utilizar, em sua cadela Blondi”.  

Segundo relatos reunidos pela agência alemã KNA, Hitler também se despediu pessoalmente de alguns de seus seguidores nas últimas horas. "Meus generais me traíram e venderam, meus soldados não querem mais lutar e eu já não consigo mais", confidenciou o líder nazista ao seu piloto pessoal, Hans Baur.

No início da tarde, Hitler recolheu-se aos seus aposentos ao lado de Eva Braun, com quem havia se casado pouco mais de 24 horas antes. Por volta das 15h, os dois ingeriram cápsulas de cianeto. Hitler, além do veneno, disparou um tiro contra a própria cabeça.

Eles foram encontrados por membros da SS e de seu círculo íntimo. Os corpos foram levados para um pátio na superfície do bunker e incinerados com gasolina em uma vala.

 A notícia logo se espalhou pelos corredores do bunker: "Der Chef ist tot" — o chefe está morto.

1° E 2 DE MAIO: O ATO FINAL EM BERLIM

Na manhã do dia 1º de maio de 1945, a rádio de Hamburgo interrompeu sua programação normal para anunciar a morte do líder nazista e apresentar Dönitz com seu sucessor.  O anúncio foi rapidamente captado pela BBC, em Londres, e transmitido ao mundo.

No anúncio, um locutor da rádio informou que o “führer, Adolf Hitler, lutando até seu último suspiro contra o bolchevismo, morreu pela Alemanha nesta tarde".

Era, obviamente, uma mentira. Hitler não havia morrido em combate. Mas se suicidado para escapar de uma eventual captura.

A morte de Hitler acabou provocando uma debandada entre a maioria dos nazistas que estavam no bunker. Nessa altura, os últimos combatentes nazistas que ainda mantinham o perímetro eram formados por voluntários franceses da SS.

No mesmo dia, Goebbels e sua esposa, Magda, cometeram suicídio no bunker. Mas não antes de assassinarem seus seis filhos.

Menos de 48 horas após o suicídio, Berlim estava completamente dominada pelo Exército Vermelho. Em 2 de maio, a bandeira da União Soviética foi hasteada sobre o prédio do Reichstag, antiga sede do parlamento alemão. No mesmo dia, tropas soviéticas começaram a chegar ao bunker, na maioria esvaziado e com os corpos de diversos nazistas que também haviam se suicidado

"Quando as tropas soviéticas entram no bunker, eles acham os restos mortais de Hitler e Eva Braun, e ainda acham uma coleção de aparentemente 12 cartas e telegramas entre ele e nazistas de alto escalão, como Göring e Dönitz, que mostra claramente que ele iria se suicidar", afirma o historiador Silvas. "Os restos mortais foram levados para Moscou e ficaram lá. Depois, houve comprovação de arcada dentária”.

A morte de Hitler acelerou o colapso final do Terceiro Reich. Em 8 de maio, os nazistas que ainda nominalmente no poder assinaram a rendição da Alemanha, encerrando oficialmente a guerra na Europa. Para a Alemanha, essa seria a "hora zero" depois da catástrofe da Segunda Guerra Mundial, na qual mais de 7 milhões de alemães morreram, mas também a possibilidade de um novo começo sem os nazistas.

DESFECHO

As circunstâncias exatas da morte de Hitler ainda demorariam vários meses para se tornarem públicas. Mas investigações realizadas pelos soviéticos e britânicos, com base em interrogatórios de ocupantes do bunker, acabaram, aos poucos, delineando como Hitler finalmente encontrou seu fim.

Os soviéticos, no entanto, guardaram suas conclusões para si, ajudando a alimentar teorias conspiratórias. Já os britânicos tornaram suas conclusões públicas. Um dos investigadores, o historiador Hugh Trevor-Roper, expandiu seu relatório num livro publicado em 1947, intitulado Os Últimos Dias de Hitler, que cimentou no imaginário muitos dos acontecimentos no bunker.

Mesmo assim, ao longo dos anos, a ausência de imagens públicas do corpo e o mistério público inicial em torno do que ocorreu nas últimas horas no bunker alimentaram teorias conspiratórias.

"Há muitos relatórios, tanto da CIA quanto do serviço britânicos e mesmo dos soviéticos, sobre um núcleo nazista estabelecido entre Argentina, Paraguai e Brasil, onde poderia estar Hitler”, afirma o professor. "Mas isso, sem dúvida nenhuma, é um efeito da Guerra Fria, não tem nenhuma veracidade."  Fonte: DW – 29 de abril de 25 há 9 horas há 9 horas

terça-feira, 15 de abril de 2025

Há 80 anos campo de concentração Buchenwald era libertado

Prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald aglomerados em beliches precários de madeira, sem colchão, em foto feita em 15 de abril de 1945, quatro dias após a libertação pelas forças aliadas

Buchenwald foi um dos maiores campos de concentração nazista dentro da Alemanha. Hoje, manter viva a memória desse período é desafio diante do crescimento do extremismo de direita.

As construções na colina de Ettersberg parecem destoar da paisagem ao redor. Elas estão cercadas por uma floresta que se avista de longe, a noroeste da área urbana da metrópole cultural Weimar, na Turíngia.

Mas o que de longe parece um lugar idílico guarda, na verdade, uma história terrível: a do campo de concentração nazista Buchenwald, um dos maiores em solo alemão. Ali, de 1937 a 1945, nazistas prenderam cerca de 280 mil: judeus, dissidentes, comunistas, homossexuais, detentos estrangeiros, "ciganos" (sinti e roma), testemunhas de jeová e líderes religiosos malquistos.

Buchenwald era o próprio inferno – um dos vários infernos da máquina nazista de perseguição e assassinato. Além das instalações em Ettersberg, o complexo incluía mais de 50 pequenos subcampos, a maioria em locais de produção de bens importantes para a guerra.

Em Buchenwald foram mortas até abril de 1945 cerca de 56 mil pessoas, a maioria judeus. A libertação só veio nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial, com a aproximação dos primeiros tanques americanos. Ao perceber a movimentação, prisioneiros deflagraram uma rebelião no dia 11 de abril de 1945, evitando a fuga de diversos soldados da SS (Schutzstaffel ou esquadra de proteção), o braço armado do partido nazista

Após o fim da guerra, a Turíngia passou a fazer parte do território alemão sob ocupação soviética. Logo os soviéticos passaram a usar suas instalações para um "campo especial", prendendo ali principalmente líderes locais do partido nazista, policiais ou empresários que mantiveram linhas de produção com trabalho forçado. Até 1950, outras 7 mil pessoas morreram ali.

"ELES TRATAVAM AS PESSOAS COMO ANIMAIS"

Faz 80 anos que o campo foi libertado dos nazistas. Passado tanto tempo, restam poucas testemunhas e sobreviventes dos horrores daquele período. Essas lembranças dolorosas têm importância histórica. Para mantê-las vivas, ferramentas digitais são cada vez mais importantes.

"Ainda há 15 sobreviventes, 15 no máximo, que foram convidados", afirma o historiador Jens-Christian Wagner sobre a solenidade que ocorreu no 6 de abril. Ele dirige a fundação que administra os memoriais dos campos de concentração Buchenwald e Mittelbau-Dora.

Wagner lembra a cerimônia de 60 anos, em 2005. Naquela época, cerca de 500 sobreviventes compareceram ao evento. Em 2015, nos 70 anos da libertação de Buchenwald, pouco mais de 80 – a maioria já bem idosa – viajaram até Weimar.

A DW conheceu um deles à época, o ex-piloto da Força Aérea do Canadá Ed Carter-Edwards, então com 92 anos. O avião dele foi abatido no verão de 1944 próximo a Paris, e ele foi levado para Buchenwald, onde passou três meses e meio. "Eles tratavam as pessoas como animais", disse, citando, aos soluços, os nomes dos amigos que não sobreviveram ao campo de concentração. Carter-Edwards morreu em 2017.

 "LEMBRAR O PASSADO É RESPONSABILIDADE DE TODOS NÓS"

Prisioneiro famélico do "bloco 55", parte do "campo dentro do campo" de Buchenwald, onde mais de 6 mil morreram em menos de cem dias antes da chegada dos aliados

"Todos nós somos responsáveis por lembrar – cada cidadão, cada cidadã", diz Wagner. Trata-se, frisa ele, de marcar posição e de se opor ao racismo, ao extremismo de direita e ao antissemitismo.

Para o historiador, os "partidos democráticos" cometeram um "erro enorme" ao adotar a retórica da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) para falar sobre migração. Ele diz que esse debate acabou "normalizando" narrativas xenófobas.

O estado da Turíngia, onde fica Weimar, é um dos bastiões da AfD. Ali, o partido teve seu melhor desempenho em todo o país, conquistando 38,6% dos votos na eleição geral em fevereiro deste ano – quase o dobro do resultado nacional, de 20,8%. No Parlamento da Turíngia, a AfD também ampliou seu espaço, assumindo 32 dos 88 assentos após as eleições regionais em setembro de 2024. A bancada estadual é liderada por Björn Höcke, político notório por flertar com o extremismo.

"Estamos no olho do furacão", diz Wagner, referindo-se à Turíngia, ao citar a ascensão mundial de movimentos extremistas e autoritários de direita, inclusive na Alemanha. A situação é "extremamente preocupante", frisa. "Por muito tempo, achamos que as pessoas tinham aprendido a lição da época do nazismo." Mas ele diz já não ter mais tanta certeza disso.

Wagner afirma que o nazismo e seus crimes foram "notoriamente minimizados", posições que glorificam o nazismo teriam sido até mesmo defendidas. Ele alerta que é de fundamental importância para as estruturas que sustentam a democracia do país refletir sobre o passado nazista da Alemanha, mas que essa consciência estaria diminuindo.

VANDALISMO E AMEAÇAS

Os memoriais na colina de Ettersberg que Wagner administra já foram alvos diversas vezes de vandalismo. Em 2024, ele mesmo sofreu ameaças diretas. E hoje, diz o historiador, funcionários do local também temem pela própria segurança de vez em quando. "Não devemos nos deixar intimidar, mas precisamos ser cautelosos", explica.

Em Buchenwald, há um crematório, um campo de cinzas e uma "praça de chamada", espaço onde os prisioneiros tinham que se apresentar todos os dias e todas as noites para contagem. Há também um "bloco das crianças" e o "Instituto de Higiene", onde médicos da SS conduziam experimentos em prisioneiros em cooperação com a indústria farmacêutica e pesquisadores, em busca de vacinas.

O portão de entrada do campo de concentração, que ostenta a frase "Jedem das Seine" (a cada um o que é seu), foi muito retratado na imprensa. O relógio na pequena torre acima dele marca sempre 15h15 – a hora em que o inferno dos prisioneiros acabou.

Hoje, o local onde ficava o campo de concentração tem poucas construções, muita área livre e muitos pedregulhos, faias e carvalhos nos fundos do terreno, e a vista sobre as terras turíngias.

Perguntado sobre qual lugar ali tem um significado especial para ele, Jens-Christian Wagner reflete por um momento antes de citar o "pequeno campo". Ali, em estábulos que formavam um "campo dentro do campo", prisioneiros eram selecionados antes de serem enviados para o trabalho forçado. No início de 1945, doentes foram aglomerados nos barracos e deixados à própria sorte; mais de 6 mil morreram em menos de cem dias.

"A partir de fevereiro de 1945, o local se transformou em um campo de sofrimento e morte para os prisioneiros levados de Auschwitz para Buchenwald", diz Wagner.

O local foi destruído logo depois da libertação do campo de concentração.

Wagner diz que, na época da Alemanha Oriental, o local do "pequeno campo" estava tomado pelo mato e não era muito lembrado. Agora, uma clareira ali exibe as fundações arqueológicas do confinamento. "Continua sendo um lugar de sofrimento e luto." Fonte: DW-11 de abril de 2025