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quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Louco de Deus no Fim do Mundo

A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol

 "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso."

Assim se definiu o escritor espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.

O Vaticano havia proposto a Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar: abrir completamente suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse, acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta. Como responder que não?

Cercas entrou por aquelas portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas, sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe idosa e enferma.

O resultado foi o livro O Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com a crônica da viagem.

Cercas o define como um romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo".

O enigma do livro não é uma questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.

"Vivemos em um mundo sem Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante (ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao mundo.

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.

BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?

Javier Cercas: Não sei, duvido muito.

É claro que existem algumas coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se está na moda.

Cada país é diferente, e cada circunstância é distinta.

A Europa não é mais o centro do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo.

O centro do catolicismo, agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?

Eu quis basicamente me perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.

 Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos com isso?

E o que está acontecendo no Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.

BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?

Cercas: Nada substituiu a religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.

Nós nos esquecemos de um ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.

Isso é incrível. Na Idade Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo.

Durante séculos e séculos, a humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este grande relato cai.

Houve tentativas de substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.

Não existe um relato que substitua o relato de Deus, o relato da religião.

A condição pós-moderna consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.

Cada um busca a vida à sua maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na arte, na política, no consumo...

E, às vezes, muitas pessoas se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner [1929-2020].

Acredito que isso fica visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato, o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.

E é possível que muitas pessoas sintam falta dela.

BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.

Cercas: Esse nó na garganta é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.

E tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.

É claro que foi um erro, pois a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.

 Ou seja, que a literatura, de alguma forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião.

E o meu caso não é uma exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como uma espécie de sacerdócio.

BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO "CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.

Parece que já havíamos superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão. Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que a usam como desculpa para seus projetos políticos.

Cercas: O constantinismo é a união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.

E a Igreja Católica de hoje — Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].

Outra questão é que outras igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios projetos políticos.

Isso é mortal, é catastrófico por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele precisa ser um contrapoder.

BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...

Cercas: É que um ponto elementar está esquecido.

Jesus Cristo era alguém perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.

"Eu não vim trazer a paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela escravidão.

Anda hoje é perigoso, é revolucionário dizer isso.

Jesus Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade.

Este é o verdadeiro cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.

É um cristianismo constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.

Em grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.

Existe uma frase de um grande escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês."

 Mas o que nós conhecemos é um cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.

 BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE QUE FRANCISCO ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO CLERICALISMO? DO SEU PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?

Cercas: E do ponto de vista de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um dos seus principais inimigos.

O clericalismo é a ideia de que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.

Francisco tinha uma imagem muito boa, era um homem com imagens literárias.

Ele havia sido professor de literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."

Não sou eu que digo isso, quem dizia era ele.

Sem ir muito longe, os abusos sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais, pode ter a tentação de abusar deles.

Neste sentido, sim, é claro que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este respeito.

BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?

Cercas: Sim, com certeza. Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.

Francisco entrou como um vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele fez isso, acredito que fez.

Este entrou de forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo de Cristo.

O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de dúvida.

O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.

Desde o primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos inovador.

Ele vem acalmar as águas. Vem unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito radical, dentro da própria Igreja.

E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.

Existe um ponto que sim, é verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.

Francisco falava em uma Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o fim do mundo.

É isso que fazem os missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão.

Porque não vão evangelizar como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.

Este homem tem uma particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.

BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ ENCONTROU O QUE ESPERAVA?

Cercas: Certamente, não.

Veja, o meu maior esforço para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.

Todo mundo está repleto de preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.

Nada do que eu esperava se realizou.

Tudo é surpreendente, desde o princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que quisesse, além de acompanhar o papa.

E isso segue até o final do livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.

Eu brinco muito com o livro. Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também era a crença do papa Francisco.

Por isso, é um livro humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os romances.

E, é claro, eu brinco com o fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que circulam sobre o Vaticano.

Todos estes mistérios são simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.

'Tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas

BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU NÃO?

 Cercas: Vejamos, não sei se você compreende.

Eu passei de ateu a ser agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".

Ou seja, da mesma forma que é impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo?

A verdade é que, seja você ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de verdade. Da minha mãe, por exemplo.

Na verdade, ela é a autêntica protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou com a dos missionários.

Ou seja, eu senti inveja da serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que eu nunca irei conseguir.

O livro tenta ser divertido. Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias, como a fé ou a relação com a razão.

A fé não é algo voluntário. Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter fé."

A fé ou você tem, ou não tem. Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo, embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.

Por isso, acredito realmente que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé autêntica).

BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO, ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?

Cercas: Obviamente, a Bíblia é um texto literário deslumbrante. É incontestável.

Mesmo que você não seja religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição literária.

No livro, de qualquer forma, destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.

Por um lado, é uma linguagem antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.

Jesus Cristo atraía pelos seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias.

Ele seduzia pelo seu posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.

 Mas também atraía pelo que dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de ouro.

A linguagem da Igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é hermética, não é atraente e ninguém a entende.

A literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem um grave problema linguístico.

Embora seja muito diferente de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu antecessor, segundo Javier Cercas

BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA, MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO A DEUS.

Ou quando você ouve, como você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu, de barba e tudo."

Cercas: Bem, eu cito o filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos crentes, ele deve a Bach."

E é verdade, você ouve o Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.

É claro que a Igreja Católica foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.

Às vezes, me pergunto, como ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com outra pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?

Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e poder contar?

Uma instituição que, além disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.

Basta pensar que, no centro desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.

É algo absolutamente incrível e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas, inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.

Por isso, é algo extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?

 BBC: VOCÊ CHEGOU À CONCLUSÃO DE QUE O EXTRAORDINÁRIO NÃO É O PAPA, MAS A IGREJA, QUE CONTINUA EXISTINDO 2 MIL ANOS DEPOIS, ENQUANTO IMPÉRIOS E REINADOS CAÍRAM. QUAL É O SUPERPODER DA IGREJA?

Cercas: Não sei. Se eu fosse crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.

Existe algo muito poderoso no cristianismo.

Cristo era um revolucionário social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se rebelou apenas socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.

Isso está no centro do cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.

O cristianismo diz que "você não vai morrer". É uma imensa promessa.

Esta rebelião tem enorme potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em seu ser."

É o que define os seres humanos. Queremos continuar sendo.

E o cristianismo oferece um caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata este livro.

A literatura, como a religião, é uma forma de transcendência, segundo Cercas

BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?

Cercas: Quando me fizeram a proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha mãe.

Minha mãe era uma mulher profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.

Ela não dizia isso porque fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo. Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.

Este livro trata de um louco sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.

Uma pergunta elementar e, por sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou não?

Neste livro, o aparente protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era meu pai em Anatomia de Um Instante.

Mas você tem toda a razão. Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.

Este é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.

E ao me investigar, investigo o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.

BBC: VOCÊ ACREDITA QUE FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?

Cercas: É que não sou crente. Este é o meu problema.

Além disso, a ressurreição da carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom.

Não acredito que exista Zoom no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas formas de transcendência.

Existe, por exemplo, uma lei que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.

Ou seja, agora que meus pais estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se transformaram nas minhas células.

Não se trata de imaginação, é um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.

O escritor espanhol Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."

Algo disso existe. Meus pais, de alguma forma, continuam vivendo em mim.

Quando me olho no espelho, vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha mãe.

Mas a literatura busca uma forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido há tantos séculos.

O que nós, seres humanos, não queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.

Precisarei aceitar, não há remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do que desaparecer para sempre.

Parece horrível, parece injusto, parece idiota. Não gosto.

A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol

Javier Cercas é o autor de O Louco de Deus no Fim do Mundo

"Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso."

Assim se definiu o escritor espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.

 O Vaticano havia proposto a Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar: abrir completamente suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse, acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta. Como responder que não?

Cercas entrou por aquelas portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas, sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe idosa e enferma.

O resultado foi o livro O Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com a crônica da viagem.

Cercas o define como um romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo".

O enigma do livro não é uma questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.

"Vivemos em um mundo sem Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante (ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao mundo.

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.

BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?

Javier Cercas: Não sei, duvido muito.

É claro que existem algumas coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se está na moda.

Cada país é diferente, e cada circunstância é distinta.

A Europa não é mais o centro do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo.

O centro do catolicismo, agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?

Eu quis basicamente me perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.

Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos com isso?

E o que está acontecendo no Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.

BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?

 Cercas: Nada substituiu a religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.

Nós nos esquecemos de um ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.

Isso é incrível. Na Idade Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo.

Durante séculos e séculos, a humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este grande relato cai.

Houve tentativas de substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.

Não existe um relato que substitua o relato de Deus, o relato da religião.

A condição pós-moderna consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.

Cada um busca a vida à sua maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na arte, na política, no consumo...

E, às vezes, muitas pessoas se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner [1929-2020].

Acredito que isso fica visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato, o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.

E é possível que muitas pessoas sintam falta dela.

BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.

Cercas: Esse nó na garganta é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.

E tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.

É claro que foi um erro, pois a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.

Ou seja, que a literatura, de alguma forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião.

E o meu caso não é uma exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como uma espécie de sacerdócio.

BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO "CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.

 Parece que já havíamos superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão. Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que a usam como desculpa para seus projetos políticos.

Cercas: O constantinismo é a união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.

E a Igreja Católica de hoje — Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].

Outra questão é que outras igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios projetos políticos.

Isso é mortal, é catastrófico por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele precisa ser um contrapoder.

BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...

Cercas: É que um ponto elementar está esquecido.

Jesus Cristo era alguém perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.

"Eu não vim trazer a paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela escravidão.

Anda hoje é perigoso, é revolucionário dizer isso.

Jesus Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade.

Este é o verdadeiro cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.

É um cristianismo constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.

Em grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.

Existe uma frase de um grande escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês."

Mas o que nós conhecemos é um cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.

Javier Cercas acompanhou o papa Francisco em uma viagem à Mongólia, em setembro de 2023

BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE QUE FRANCISCO ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO CLERICALISMO? DO SEU PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?

 Cercas: E do ponto de vista de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um dos seus principais inimigos.

O clericalismo é a ideia de que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.

Francisco tinha uma imagem muito boa, era um homem com imagens literárias.

Ele havia sido professor de literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."

Não sou eu que digo isso, quem dizia era ele.

Sem ir muito longe, os abusos sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais, pode ter a tentação de abusar deles.

Neste sentido, sim, é claro que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este respeito.

BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?

Cercas: Sim, com certeza. Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.

Francisco entrou como um vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele fez isso, acredito que fez.

Este entrou de forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo de Cristo.

O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de dúvida.

O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.

Desde o primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos inovador.

Ele vem acalmar as águas. Vem unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito radical, dentro da própria Igreja.

E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.

Existe um ponto que sim, é verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.

Francisco falava em uma Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o fim do mundo.

 É isso que fazem os missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão.

Porque não vão evangelizar como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.

Este homem tem uma particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.

BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ ENCONTROU O QUE ESPERAVA?

Cercas: Certamente, não.

Veja, o meu maior esforço para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.

Todo mundo está repleto de preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.

Nada do que eu esperava se realizou.

Tudo é surpreendente, desde o princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que quisesse, além de acompanhar o papa.

E isso segue até o final do livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.

Eu brinco muito com o livro. Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também era a crença do papa Francisco.

Por isso, é um livro humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os romances.

E, é claro, eu brinco com o fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que circulam sobre o Vaticano.

Todos estes mistérios são simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.

'Tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas

BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU NÃO?

Cercas: Vejamos, não sei se você compreende.

Eu passei de ateu a ser agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".

 Ou seja, da mesma forma que é impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo?

A verdade é que, seja você ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de verdade. Da minha mãe, por exemplo.

Na verdade, ela é a autêntica protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou com a dos missionários.

Ou seja, eu senti inveja da serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que eu nunca irei conseguir.

O livro tenta ser divertido. Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias, como a fé ou a relação com a razão.

A fé não é algo voluntário. Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter fé."

A fé ou você tem, ou não tem. Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo, embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.

Por isso, acredito realmente que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé autêntica).

BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO, ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?

Cercas: Obviamente, a Bíblia é um texto literário deslumbrante. É incontestável.

Mesmo que você não seja religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição literária.

No livro, de qualquer forma, destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.

Por um lado, é uma linguagem antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.

Jesus Cristo atraía pelos seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias.

Ele seduzia pelo seu posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.

Mas também atraía pelo que dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de ouro.

A linguagem da Igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é hermética, não é atraente e ninguém a entende.

 A literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem um grave problema linguístico.

Embora seja muito diferente de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu antecessor, segundo Javier Cercas

BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA, MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO A DEUS.

Ou quando você ouve, como você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu, de barba e tudo."

Cercas: Bem, eu cito o filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos crentes ele deve a Bach."

E é verdade, você ouve o Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.

É claro que a Igreja Católica foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.

Às vezes, me pergunto, como ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com outra pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?

Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e poder contar?

Uma instituição que, além disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.

Basta pensar que, no centro desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.

É algo absolutamente incrível e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas, inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.

Por isso, é algo extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?

BBC: VOCÊ CHEGOU À CONCLUSÃO DE QUE O EXTRAORDINÁRIO NÃO É O PAPA, MAS A IGREJA, QUE CONTINUA EXISTINDO 2 MIL ANOS DEPOIS, ENQUANTO IMPÉRIOS E REINADOS CAÍRAM. QUAL É O SUPERPODER DA IGREJA?

Cercas: Não sei. Se eu fosse crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.

Existe algo muito poderoso no cristianismo.

 Cristo era um revolucionário social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se rebelou apenas socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.

Isso está no centro do cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.

O cristianismo diz que "você não vai morrer". É uma imensa promessa.

Esta rebelião tem enorme potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em seu ser."

É o que define os seres humanos. Queremos continuar sendo.

E o cristianismo oferece um caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata este livro.

BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?

Cercas: Quando me fizeram a proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha mãe.

Minha mãe era uma mulher profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.

Ela não dizia isso porque fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo. Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.

Este livro trata de um louco sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.

Uma pergunta elementar e, por sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou não?

Neste livro, o aparente protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era meu pai em Anatomia de Um Instante.

Mas você tem toda a razão. Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.

Este é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.

E ao me investigar, investigo o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.

BBC: VOCÊ ACREDITA QUE FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?

Cercas: É que não sou crente. Este é o meu problema.

 Além disso, a ressurreição da carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom.

Não acredito que exista Zoom no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas formas de transcendência.

Existe, por exemplo, uma lei que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.

Ou seja, agora que meus pais estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se transformaram nas minhas células.

Não se trata de imaginação, é um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.

O escritor espanhol Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."

Algo disso existe. Meus pais, de alguma forma, continuam vivendo em mim.

Quando me olho no espelho, vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha mãe.

Mas a literatura busca uma forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido há tantos séculos.

O que nós, seres humanos, não queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.

Precisarei aceitar, não há remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do que desaparecer para sempre.

Parece horrível, parece injusto, parece idiota. Não gosto.

BBC News Mundo - 7 fevereiro 2026 – autor - Paula Rosas

domingo, 16 de outubro de 2016

Prêmios Nobel de Literatura desde 2000


2000: GAO XINGJIAN
O primeiro Prêmio Nobel da Literatura do século 21 coube ao chinês Gao Xingjian, escolhido por "uma obra de validade universal", marcada por "amargos insights e riqueza linguística", abrindo novos caminhos para a prosa e o teatro na China. Desde 1987 ele vive e atua em Paris como autor, dramaturgo e pintor.

2001: VIDIADHAR NAIPAUL
Uma arte narrativa "em que ele conjuga uma percepção particularmente sensível com meticulosidade irreprimível, para nos obrigar a reconhecer a contemporaneidade das histórias reprimidas": assim o Comitê justificou a escolha de Vidiadhar Surajprasad Naipaul. O indo-britânico tomou como tema a liberdade do indivíduo numa sociedade em ocaso, em diversas regiões do mundo.

2002: IMRE KERTÉSZ
O sobrevivente de Auschwitz Imre Kertész foi laureado por uma obra que "contrapõe a frágil experiência do indivíduo à bárbara arbitrariedade da história". O judeu húngaro descreveu em seus romances os horrores dos campos de concentração. Em "Sem destino", uma das mais impressionantes narrativas sobre o Holocausto, ele trabalhou mais de 13 anos.

2003: JOHN M. COETZEE
Segundo o júri, John Maxwell Coetzee retrata "a participação do ser humano na diversidade da existência, de maneira muitas vezes atordoante". Além do Nobel, o autor da África do Sul já recebeu duas vezes o prestigioso Man Booker Prize. Seu romance mais conhecido, "Desgraça" (1999), que trata da era pós-apartheid, foi transformado nove anos mais tarde no filme "Desonra".

2004: ELFRIEDE JELINEK
A autora austríaca Elfriede Jelinek recebeu o Prêmio Nobel pelo "fluxo musical de vozes e contravozes em seus romances e dramas", em que desmascara os clichês sociais. Um de seus temas centrais é a sexualidade feminina. O romance "A pianista" (1983) foi base para o filme homônimo de 2011, dirigido por Michael Haneke e com Isabelle Huppert no papel principal.

2005: HAROLD PINTER
O dramaturgo inglês Harold Pinter morreu de câncer pulmonar três anos após receber o Nobel. Com seus dramas, apontou o júri, ele "revelou o precipício sob a conversa fiada do dia a dia", penetrando "no espaço fechado da repressão". Tendo escrito também para a TV e o cinema, ele também foi ator e diretor de várias de suas peças.

2006: ORHAN PAMUK
Ao homenagear Istambul, o primeiro ganhador do Nobel da Literatura de nacionalidade turca "encontrou novas imagens simbólicas para o conflito e o entrelaçamento das culturas, em busca da melancólica alma de sua cidade natal". Ferit Orhan Pamuk é o escritor turco mais lido do mundo, com 11 milhões de livros vendidos e traduções em 35 idiomas.

2007: DORIS LESSING
A britânica Doris Lessing publicou tanto romances e contos quanto peças teatrais. A Academia Sueca a saudou como "épica da experiência feminina, que, com ceticismo, paixão e força visionária, colocou à prova uma civilização fragmentada". A hoje nonagenária já se engajou contra a energia atômica e foi opositora eloquente do regime do apartheid na África do Sul.

2008: LE CLÉZIO
Segundo a Academia Sueca, Jean-Marie Gustave Le Clézio é "o autor da ruptura, da aventura poética e do êxtase sensorial", além de "estudioso de uma humanidade abaixo e acima da civilização dominante". Filho de uma francesa e de um nativo de Maurício, ele considera esse Estado insular no Oceano Índico sua "pequena pátria".

2009: HERTA MÜLLER
Como mais recente laureada germanófona, a teuto-romena Herta Müller foi destacada por, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados". Ela também critica em suas obras o autoritário regime Ceauescu,que até 1989 geriu os destinos da Romênia. Entre seus romances editados em português estão "A terra das ameixas verdes" e "O compromisso".

2010: MARIO VARGAS LLOSA
O autor peruano Mario Vargas Llosa recebeu o Nobel por "sua cartografia das estruturas de poder e seus enérgicos retratos da resistência individual, da rebelião e da derrota". Na América Latina, ele ficou famoso pela frase, pronunciada na televisão: "México é a ditadura perfeita", assim como suas invectivas contra o ex-amigo Gabriel García Márquez, em 1976.

2011: TOMAS TRANSTRÖMER
Em sua justificativa sobre Tomas Gösta Tranströmer, o júri louvou as "imagens comprimidas, esclarecedoras, que apontam novos caminhos para o real". Na década de 60, o poeta sueco trabalhou como psicólogo numa instituição para jovens delinquentes. Seus poemas foram traduzidos para mais de 60 idiomas.

2012: MO YAN
O chinês Guan Moye é melhor conhecido por seu pseudônimo Mo Yan. O Comitê Nobel louvou nele um autor que, "com realismo alucinógeno, combina contos de fadas, história e presente". A decisão foi criticada pelo artista chinês Ai Weiwei, para quem seu compatriota era próximo demais do regime comunista.

2013: ALICE MUNRO
Para a Academia Sueca, que concede o prêmio anualmente desde 1901, Alice Munro é uma "mestra da crônica contemporânea". Entre as características inovadoras dos contos da escritora canadense está o livre trajeto na linha do tempo. Uma colega americana a classificou como "o nosso Tchecov".

2014: PATRICK MODIANO
Guerra, amor, ocupação, morte são os temas que ocupam o ator francês Patrick Modiano, ao processar as lembranças de sua infância infeliz na Paris do pós-Guerra. O júri do Nobel o elegeu precisamente por essa "muito especial arte da memória". Há muito consagrado em seu país, até ser laureado ele era pouco conhecido em nível internacional.

2015: SVETLANA ALEXIEVITCH
Na figura de uma autora bielorussa, o Comitê do Prêmio Nobel reconheceu uma nova forma de autoria. Em suas reportagens e ensaios, Svetlana Alexievitch desenvolveu um estilo literário todo próprio, realizando entrevistas e adensando-as em emocionais colagens da vida quotidiana. Enquanto cronista do sofrimento humano, ninguém documentou a decadência da União Soviética como ela.

2016: BOB DYLAN,
O ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2016 é Bob Dylan, “por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”.
Só quem mergulhou alguma vez no revelador universo desse cantor, nascido num povoado de Minnesota, poderá reconhecer que Dylan é um poeta sem tirar nem pôr. O reconhecimento do Nobel à sua música, entendida como um organismo vivo no qual as letras são o corpo sobre o qual se apoia o resto, é, portanto algo histórico. Fonte: Deutsche Welle-Data 13.10.2016

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Peruano Mario Vargas Llosa vence o Prêmio Nobel de Literatura

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O escritor peruano Mario Vargas Llosa é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010, anunciou hoje a Academia Sueca em sua sede, em Estocolmo. Como prêmio, vai receber 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,5 milhão).


Em comunicado, o comitê informou que Llosa recebeu o prêmio "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual".


Nascido em 1936, o novelista e ensaista é tido como um dos maiores nomes da literatura em língua espanhola. Seu principal tema é a luta pela liberdade em seu país. Entre suas principais obras estão "A Casa Verde", "Lituma nos Andes" e "A Cidade e os Cachorros". Em 1981, Llosa publicou "A Guerra do Fim do Mundo", sobre a Guerra de Canudos, que dedicou ao escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de "Os Sertões".


Já entre seus prêmios mais importantes estão o Prêmio Cervantes (1994) e o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras Espanha (1986).


Reconhecimento


Mario Vargas Llosa afirmou que o prêmio é um reconhecimento da literatura da América Latina e em língua espanhola, em uma entrevista à rádio colombiana RCN.


"Não pensava que sequer estava entre os candidatos", disse o escritor de 74 anos em Nova York, na primeira reação após receber a notícia do prêmio. "Acredito que é um reconhecimento à literatura latinoamericana e à literatura em língua espanhola, e isto sim deve alegrar a todos", acrescentou ele, que ministra aulas na Universidade de Princeton.


"Ele havia levantado às 5h para dar aulas. Recebeu a ligação informando às 6h45, enquanto trabalhava intensamente", contou Peter Englund, presidente do júri do Nobel de Literatura.


Com o resultado, o escritor sucede a romena naturalizada alemã Herta Mueller e o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedores das edições de 2009 e 2008, respectivamente.


Vargas Llosa irá à cerimônia de entrega do prêmio em 10 de dezembro, em Estocolmo. Ele fará o discurso em nome de todos os premiados, com exceção do Nobel da Paz, realizado em um ato paralelo, em Oslo.


Llosa, mais uma vez, confirma a tendência dos últimos anos da Academia de não premiar o favorito nas apostas. Antes do anúncio de hoje, o poeta sueco e escritor Tomas Transtromer era o favorito, vindo em seguida três outros poetas; Adam Zagajewski, da Polônia, Ko Un, da Coreia do Sul, e Adonis, da Síria.


O anúncio dos Nobel começou na segunda-feira (4), com o de Medicina, que foi para o fisiologista britânico Robert Geoffrey Edwards. Na terça-feira, houve o anúncio do de Física, para os pesquisadores russos Andre Geim e Konstantin Novoselov. Nessa quarta, o prêmio de Química foi concedido para o cientista americano Richard Heck e os japoneses Ei-ichi Negishi e Akira Suzuki.  A rodada prossegue na sexta-feira (8) com o anúncio do Nobel da Paz e, na segunda (11), com o de Economia.


OS 10 ÚLTIMOS VENCEDORES


2009-Herta Mueller (Alemanha)


2008-Jean-Marie Gustave Le Clezio (França)


2007-Doris Lessing (Grã-Bretanha)


2006-Orhan Pamuk (Turquia)


2005-Harold Pinter (Grã-Bretanha)


2004-Elfriede Jelinek (Áustria)


2003-J.M. Coetzee (África do Sul)


2002-Imre Kertesz (Hungria)


2001-V.S. Naipaul (Grã-Bretanha)


2000-Gao Xingjian (França)


Fonte:UOL Noticias - 07/10/2010 




domingo, 20 de junho de 2010

Vaticano chama Saramago de "populista extremista" e "ideólogoantirreligioso"

O "L'Osservatore Romano", o jornal oficial do Vaticano, ataca duramente o escritor português José Saramago, que morreu na sexta-feira aos 87 anos na Espanha, chamando-o de "populista extremista" e de "ideólogo antirreligioso" em sua edição deste domingo.

Com o título "O grande (suposto) poder do narrador", o órgão oficial do Vaticano critica com virulência o Prêmio Nobel de Literatura, que era marxista e ateu. O "L'Osservatore Romano" o definiu como "um ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma, aprisionado até o fim em sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo".

O jornal considera ainda que o escritor "colocou-se com lucidez ao lado das ervas daninhas no trigal do Evangelho". "Ele dizia que perdia o sono só de pensar nas Cruzadas ou na Inquisição, esquecendo-se dos gulags, das perseguições, dos genocídios e dos samizdat (relatos de dissidentes da época soviética) culturais e religiosos", indica ainda o jornal do Vaticano em seu editorial.

No editorial divulgado com antecedência, o "L'Osservatore Romano" considera Saramago "um populista extremista", que se referia "de forma muito cômoda" a "um Deus no qual jamais acreditou por se considerar todo-poderoso e onisciente". Saramago provocou a ira do Vaticano e da Igreja Católica com sua obra "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (1992) no qual considerava que Jesus perdeu a sua virgindade com Maria Madalena. Ele suscitou novamente a cólera dos católicos em 2009 com "Caim", onde a personificação bíblica do mal, assassino de seu irmão Abel, é descrito como um ser humano nem melhor nem pior do que os outros, enquanto Deus é apresentado como injusto e invejoso.

Durante a apresentação desse livro, Saramago havia alimentado a polêmica, classificando a bíblia de "manual de maus costumes". Fonte: Folha de São Paulo - 19/06/2010

Comentário:

Concordo com o Vaticano em parte, é muito fácil para um escritor criticar o sistema capitalismo, mas que usufrui dele, como venda de livros, liberdade de pensamento, não há perseguição ideológica, etc. Enquanto no regime comunista os intelectuais, artístico, políticos e científicos eram perseguidos e confinados em campos de concentrações.

Ser comunista em regime democrático dá status, não há responsabilidade, mas que deveria ter para demonstrar para as gerações futuras os genocídios praticados por esse regime. É um contra-senso para um escritor que tem o poder do pensamento com liberdade irrestrita, que na prática enaltece um regime que tem dom de controlar a liberdade individual.

Vejam os casos dos escritores russos, pensaram, escreveram contra o regime, todos foram confinados em campos de concentração. Alexander Soljenitsin (Arquipélago de Gulag), foi condenado por publicar artigos e passou dez anos em prisão. Na antiga URSS, não havia “opositores”, mas apenas “dissidentes”. Diz-se dos intelectuais perseguidos por se oporem ao regime comunista. Os dissidentes eram condenados por exames psiquiátricos e confinamento em casas de saúde mental ou hospitais psiquiátricos e exílio em campos de concentração para trabalhos forçados.

A dissidência russa tinha: a artística, a política e a científica. A dissidência artística inclui nomes como Ehrenburg (Degelo), Dudintsev, Yevtushenko, Pasternak (Doutor Jivago), Soljenítsin (Arquipélago Gulag). A dissidência política: Yakir, Amalrik, Litvinov, Grigorenko, Marchenko. E a dissidência científica: Sakharov (pai da bomba de hidrogênio soviética), Tamm, Kapitsa, Medvedev. Um dissidente famoso foi o escritor Boris Pasternak, que havia passado um ano na prisão de Lubianka (3), em Moscou, e quatro anos num campo de trabalhos forçados na Sibéria, do qual foi libertado (como Soljenítsin) pela anistia geral após a morte de Stálin. Em 1956, Pasternak concluiu Doutor Jivago, que foi rejeitado por várias editoras soviéticas, controladas pelos “herdeiros de Stálin”.

Como se diz, morreu como morre todo mundo. Teve velório, transformou o corpo em cinza. O mais interessante de tudo isso, ele como ateu, que não acredita em deuses, será idolatrado?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

bligo-Saramago.jpgJosé Saramago, Nobel da Literatura em 1998, faleceu hoje aos 87 anos na sua casa na ilha espanhola de Lanzarote


Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922, se bem que o registo oficial mencione, como data do nascimento, o dia 18.


Seus pais emigraram para Lisboa quando ele não perfizera ainda dois anos de idade.


A maior parte da sua vida decorreu portanto na capital, embora até ao princípio da idade madura tivessem sido numerosas, e às vezes prolongadas, as suas estâncias na aldeia natal.


José Saramago foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Deixa uma vasta obra onde se incluem géneros distintos.


Publicou o seu primeiro livro em 1944 e esteve quase duas décadas sem voltar a publicar. Em 1966 reaparece no panorama literário com um conjunto de poemas.


Conquistou leitores, prémios e distinções em todo o mundo. Uma das suas obras, 'Ensaio sobre a Cegueira' foi adaptado ao grande ecrã pela mão do realizador brasileiro Fernando Meireles. Em Portugal, os seus textos constam nos programas oficiais de Língua Portuguesa nos liceus.


A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Em Fevereiro de 1993 passou a dividir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias (Espanha).


Criou a Fundação José Saramago, que ocupa a Casa dos Bicos por cedência da Câmara Municipal de Lisboa.


O seu último livro, 'Caim', publicado em 2009 suscitou uma forte polémica, com figuras ligadas à Igreja Católica indignadas com a forma como Deus era apresentado nesta visão da Bíbilia.


Obras publicadas


Poesias


- Os poemas possíveis, 1966


- Provavelmente alegria, 1970


- O ano de 1993, 1975


Crônicas


- Deste mundo e do outro, 1971


- A bagagem do viajante, 1973


- As opiniões que o DL teve, 1974


- Os apontamentos, 1976


Viagens


- Viagem a Portugal, 1981


Teatro


- A noite, 1979


- Que farei com este livro?, 1980


- A segunda vida de Francisco de Assis, 1987


- In Nomine Dei, 1993


- Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005


Contos


- Objecto quase, 1978


- Poética dos cinco sentidos - O ouvido, 1979


- O conto da ilha desconhecida, 1997


Romance


- Terra do pecado, 1947


- Manual de pintura e caligrafia, 1977


- Levantado do chão, 1980


- Memorial do convento, 1982


- O ano da morte de Ricardo Reis, 1984


- A jangada de pedra, 1986


- História do cerco de Lisboa, 1989


- O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991


- Ensaio sobre a cegueira, 1995


- A bagagem do viajante, 1996


- Cadernos de Lanzarote, 1997


- Todos os nomes, 1997


- A caverna, 2001


- O homem duplicado, 2002


- Ensaio sobre a lucidez, 2004


- As intermitências da morte, 2005


- As pequenas memórias, 2006


- A Viagem do Elefante, 2008


- O Caderno, 2009


- Caim, 2009


Fonte: UOL Noticias, Diário de Noticias e Correio da Manhã– Portugal, Lisboa, 18/06/2010