sábado, 13 de junho de 2026

O acidente que levou farmacêutico a inventar os palitos de fósforo

O Museu Preston Park, em Stockton, na Inglaterra,

exibe fósforos muito similares às Luzes de Fricção

de John Walker

Em 1826, exatos 200 anos atrás, um episódio acidental mudaria para sempre a forma como criamos luz e calor.

O farmacêutico experimental inglês John Walker (1781-1859) misturava substâncias químicas, tentando produzir explosivos, quando um palito coberto com a mistura atingiu inadvertidamente uma pedra em frente à sua lareira, criando uma chama espontânea.

Walker nasceu em meio à Revolução Industrial, na cidade portuária de Stockton-on-Tees, no nordeste da Inglaterra.

O motor a vapor de James Watt (1736-1819), principal impulsionador dos avanços da época, teve seu lançamento comercial em 1776 e a primeira ferrovia pública utilizando locomotivas a vapor chegou a Stockton, no condado de Durnham, em 1825.

Qutro anos depois, a locomotiva Rocket ("Foguete"), do engenheiro George Stephenson (1781-1848), provou que as locomotivas a vapor podiam puxar trens de passageiros a 50 km/h. E, pouco tempo depois, viagens que levavam 12 dias a cavalo já podiam ser realizadas em apenas oito horas.

Mas as pessoas ainda tinham dificuldade para acender o fogo que produzia aquela potência. Elas usavam pedra e aço, ou trabalhavam para manter as brasas permanentemente acesas.

Até que a invenção acidental de Walker revolucionou a produção, aplicação e a portabilidade do fogo.

Walker era cirurgião formado. Mas, desencorajado pela natureza sanguinária dos cenários de operações do início do século 19, ele estudou novamente para ser farmacêutico.

Em 1826, ele passava a maior parte do tempo produzindo medicamentos para seres humanos, cavalos, bois e até galinhas, segundo Alan Middleton, autor do livro A Tale of Hope and Despair: North of England Match Co. West Hartlepool 1932-1954 ("Uma história de esperança e desespero: a North of England Match Co. West Hartlepool 1932-1954", em tradução livre).

Mas, basicamente, Walker também fazia experiências com substâncias químicas.

"Walker era um homem muito gentil e inteligente e, segundo alguns, talvez um aventureiro", segundo Middleton.

"Uma das suas paixões era a química. Ele misturava substâncias para produzir espoletas [os dispositivos que permitem que as armas disparem] para seus amigos agricultores."

"Um dia, ele preparou uma certa mistura e deixou para secar", ele conta.

"Quando secou, ele simplesmente bateu o pedaço de madeira sobre a lareira — e pegou fogo. Foi o momento genial de algo que ninguém no mundo havia feito antes."

"Ele percebeu as possibilidades comerciais daquilo. Aconteceu em algum momento em 1826, não sabemos a data exata, mas a primeira venda ocorreu em abril de 1827."

"Ele os chamou de 'luzes de fricção' e eram vendidos inicialmente às centenas por lata", explica Middleton.

As "luzes de fricção" de Walker eram palitos de madeira chatos e muito finos, com uma extremidade mergulhada em uma pasta feita de clorato de potássio, sulfeto de antimônio, goma arábica e água.

E, ao ser esfregado em um pedaço de lixa dobrado, o palito ardia, criando uma chama.

Walker manteve sua fórmula em segredo, mas nunca a patenteou. Seu produto era oferecido a baixo custo e o inventor conseguia atender à demanda de Stockton.

Mas, segundo o Pharmaceutical Journal, "os fósforos de Walker não eram perfeitos. O revestimento ardente de enxofre, às vezes, caía do palito, com risco de danificar o piso ou as roupas do usuário".

Em 1829, Samuel Jones, de Londres, lançou seus próprios fósforos "Lúcifer", uma cópia exata das Luzes de Fricção de Walker. Eles se tornaram os primeiros a serem produzidos em massa.

E, logo em seguida, outras pessoas começaram a aprimorar a fórmula, segundo conta à BBC o presidente da Sociedade Britânica de Rótulos de Caixas e Cartelas de Fósforos (BML&BS, na sigla em inglês), Derek Judd.

O tamanho e o formato da embalagem em lata também passaram por alterações.

Foi apenas em 1844 que uma versão produzida na Suécia popularizou a caixa de fósforos moderna.

"Esta foi a primeira caixa de fósforos realmente patenteada", segundo Judd.

 Em muitas regiões, a fabricação de fósforos se tornou uma indústria doméstica. Eles eram produzidos em casa, fornecendo às famílias uma renda extra um tanto arriscada.

"As mulheres e crianças que moram na região perto da fábrica recebiam por produção [não por salário] para fazer caixas", conta Judd, "até que vieram as máquinas e aquilo se tornou um negócio multimilionário".

Mas uma invenção posterior gerou um sensível declínio da produção de fósforos: o isqueiro.

"O volume real dos negócios diminuiu ao longo dos anos", explica Judd. "Empresas desapareceram".

Ainda assim, os fósforos continuam sendo comuns em todo o mundo. Além de permanecerem como um produto essencial, eles também se tornaram um acessório da moda, segundo Middleton. Embalagens personalizadas e especiais são vendidas por até US$ 250 (cerca de R$ 1,25 mil).

Mas seu inventor permanece sendo um personagem obscuro. Middleton e Judd concordam que John Walker, passados 200 anos da sua invenção, merece ser mais reconhecido.

"Walker foi um personagem histórico que não desejava acompanhar sua invenção", segundo Judd. "Se tivesse feito, poderia ter ficado mais conhecido."

Felizmente, os moradores de Stockton têm a mesma sensação.

Muitos deles esperam que as comemorações do 200° aniversário da invenção (que começam no dia do nascimento de Walker, 29 de maio) finalmente tragam ao extraordinário inventor local o crédito que ele merece.

"Esperamos que, ao longo dos eventos programados para este ano e para o próximo, mais pessoas passem a conhecer seu papel no desenvolvimento dos fósforos comuns que todos nós usamos hoje em dia", afirma a presidente do conselho local, Lisa Evans.

"A invenção do palito de fricção possibilitou a criação de chamas instantaneamente, com pouco esforço. E a popularização dos fósforos tornou as tarefas domésticas e industriais muito mais fáceis e rápidas."

"A chama que ele criou continua a inspirar as pessoas até hoje", conclui Evans. Fonte: BBC Brasil - 29 maio 2026


quinta-feira, 4 de junho de 2026

IA precisa ser "desarmada", diz papa em nova encíclica

"A IA não é neutra", diz Leão 14 ao pedir regulação global e criticar uso bélico e econômico da tecnologia. Em gesto inédito, pontífice também pediu perdão por papel da Igreja na escravidão.

O papa Leão 14 defendeu nesta segunda-feira (25/05) que a inteligência artificial (IA) precisa ser "desarmada" das lógicas que promovem "domínio, exclusão e morte". O apelo foi feito durante a apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, primeiro grande documento de seu pontificado dedicado ao impacto da tecnologia na dignidade humana.

Ao explicar o uso do termo "desarmamento", o pontífice afirmou que se trata de uma escolha deliberadamente forte, destinada a "despertar consciências" diante de uma revolução tecnológica que, segundo ele, pode ter consequências ainda mais profundas que as transformações históricas anteriores.

"Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros. Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar. Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano", escreveu.

"Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida. [...], IA é o ambiente em que estamos imersos e o poder com que temos de lidar. Por isso, não basta regulá-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora", acrescentou.

TECNOLOGIA E CONFLITOS

Leão 14 destacou que a IA já está transformando não apenas a vida cotidiana, mas também a forma como conflitos são conduzidos. Nesse contexto, disse sentir-se "responsável" por apresentar a visão da Igreja sobre o tema.

Dividida em cinco capítulos, Magnifica humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa", nem “um mal em si mesma". No entanto, ela "não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam". Ou seja: pode tanto ampliar a participação e a justiça quanto aumentar desigualdades, controle e exclusão.

O pontífice alertou, em especial, para o risco de concentração de poder nas mãos de poucos atores — como grandes empresas e plataformas digitais — que controlam dados, algoritmos e infraestrutura.

Ao traçar um paralelo com o debate sobre armamentos nucleares, o pontífice afirmou que a IA também precisa de limites claros. "Assim como a energia nuclear, deve estar a serviço de todos e do bem comum", disse.

Leão 14 insistiu que decisões tecnológicas não podem ser tomadas sem responsabilidade ética. Segundo ele, desenvolvimento e uso da IA devem ser acompanhados de regras, supervisão pública e mecanismos eficazes de proteção.

"O desenvolvimento e a utilização da IA no campo bélico devem estar sujeitos aos mais rigorosos compromissos éticos, no respeito pela dignidade humana e pela sacralidade da vida, evitando uma corrida ao armamento. [...] Por isso, não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis. Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável.

"A IA não retira ao conflito a sua intrínseca desumanidade: apenas o torna mais rápido e impessoal, baixando a fasquia do recurso à violência e transformando a defesa em previsão operacional, com as vítimas reduzidas a dados. Habituamo-nos, assim, à ideia de que a violência é inevitável e deve apenas ser otimizada".

O papa também pediu maior cooperação global: "Só juntos — quem projeta os sistemas e quem sofre suas consequências — poderemos construir um futuro para toda a humanidade, e não apenas para poucos privilegiados”.

DESINFORMAÇÃO, EXPLORAÇÃO E TRABALHO

Na encíclica, o líder da Igreja Católica também alertou para riscos concretos associados à IA, como manipulação da informação, violação de privacidade e reforço de preconceitos embutidos em algoritmos.

O documento menciona ainda novas formas de exploração, incluindo crimes contra menores facilitados por tecnologia e práticas próximas da "escravidão moderna" relacionadas à cadeia produtiva de sistemas digitais.

No mundo do trabalho, Leão 14 afirmou que a automação pode levar à desqualificação profissional e à vigilância excessiva dos trabalhadores, defendendo políticas de requalificação e proteção ao emprego.

O papa defendeu a criação de uma "ordem social justa na era digital", com leis adequadas e regras internacionais que garantam igualdade de acesso, proteção dos mais vulneráveis e combate à desinformação.

Para ele, o objetivo deve ser submeter o uso da tecnologia ao interesse público — e não apenas ao lucro.

PAPEL DA IGREJA E APELO FINAL

Apesar da crítica, Leão 14 ressaltou que a Igreja não pretende oferecer soluções técnicas. Seu papel, disse, é contribuir com uma visão ética e humanista em um momento de rápidas transformações.

"Cada pessoa é única e insubstituível", afirmou, ao destacar a importância de preservar a dignidade humana diante do avanço tecnológico.

O pontífice concluiu com um apelo à cooperação global: "Aprendamos a escutar uns aos outros, enfrentar com coragem os desafios do presente e construir uma sociedade mais humana e fraterna”.

PERDÃO POR PAPEL DA IGREJA NA ESCRAVIDÃO

Em sua encíclica, Leão 14 também fez um pedido histórico de desculpas pelo papel da Santa Sé em legitimar a escravidão e por não tê-la condenado durante séculos, classificando o histórico do Vaticano como uma "ferida na memória cristã".

Papados anteriores já pediram desculpas pelo envolvimento de cristãos no tráfico transatlântico de escravizados. Mas nenhum papa havia reconhecido publicamente, muito menos pedido perdão, pelo papel que papas do passado tiveram ao conceder autoridade explícita a soberanos europeus para subjugar e escravizar "infiéis".

Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão 14 tem em sua árvore genealógica tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.

Leão mencionou o tráfico de escravos em relação ao que chamou de novas formas de escravidão e colonialismo impulsionadas pela revolução digital.

Católicos negros norte-americanos, ativistas e acadêmicos há muito tempo pedem que a Santa Sé faça uma reparação por seu papel no comércio colonial de seres humanos, para além de pedidos genéricos de desculpas pelo envolvimento de cristãos individuais.

"É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a humilhação suportados por tantos, em contraste gritante com sua dignidade imensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor", escreveu Leão. "Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão."

Shannen Dee Williams, historiadora da Universidade de Dayton e autora de Subversive Habits ("Hábitos Subversivos"), livro de 2022 sobre a história das freiras católicas negras nos Estados Unidos, disse que o pedido de desculpas era um "passo monumental rumo ao tipo de revelação essencial da verdade e reparação que muitos católicos rezaram e trabalharam para testemunhar".

"A Igreja Católica nunca foi uma espectadora inocente na história da supremacia branca", disse Williams à agência Associated Press. "Católicos negros esperaram muito tempo para ouvir o Vaticano falar honestamente sobre os papéis centrais da Igreja no tráfico transatlântico de escravizados e na escravidão de bens móveis — e, por extensão, nos sistemas duradouros de racismo antinegro no mundo atual."

Uma série de diretrizes do Vaticano editadas no século 15 autorizou soberanos portugueses a conquistar a África e as Américas e a escravizar não cristãos.

Em 1452, por exemplo, o papa Nicolau 5º emitiu a bula papal Dum Diversas, que concedeu ao rei de Portugal e a seus sucessores o direito de "invadir, conquistar, combater e subjugar" e tomar todas as posses — inclusive terras — de "sarracenos, pagãos e outros infiéis e inimigos do nome de Cristo" em qualquer lugar.

A bula também deu aos portugueses permissão para "reduzir suas pessoas à escravidão perpétua".

Essa bula e outra emitida três anos depois, Romanus Pontifex, formaram a base da Doutrina da Descoberta, a teoria que legitimou a apropriação colonial de terras na África e nas Américas.

As autorizações de Nicolau 5º aos portugueses foram confirmadas ou renovadas pelo papa Calixto 3º em 1456, pelo papa Sisto 6 em 1481 e pelo papa Leão 10 em 1514, segundo o padre Christopher J. Kellerman, jesuíta e autor de All Oppression Shall Cease: A History of Slavery, Abolitionism, and the Catholic Church ("Toda opressão cessará: Uma história da escravidão, do abolicionismo e da Igreja Católica").

REIS ESPANHÓIS RECEBERAM DIREITOS SEMELHANTES PARA AS AMÉRICAS.

Em 2023, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta, mas nunca rescindiu, revogou ou rejeitou formalmente as próprias bulas. O Vaticano sustenta que uma bula posterior, Sublimis Deus, de 1537, reafirmou que os povos indígenas não deveriam ser privados de sua liberdade nem da posse de seus bens, nem escravizados.

Santa Sé demorou a condenar a escravidão, diz Leão

Em sua encíclica, Leão recordou que seu homônimo, o papa Leão 13, foi o primeiro papa a condenar explicitamente a escravidão, em 1888, muito depois de muitos países já a terem abolido.

Ao reconhecer as bulas papais do século 15, Leão escreveu em sua encíclica: "Já no início da era moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo a pedidos de soberanos, interveio várias vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de 'infiéis'."

Leão afirmou que não é possível julgar a moralidade dessas decisões com os padrões atuais. "No entanto, também não podemos negar ou minimizar o atraso com que tanto a sociedade quanto a Igreja passaram a denunciar o flagelo da escravidão", ressaltou.

O papa afirmou que a Igreja há muito tempo afirma a dignidade de todo ser humano como base de sua doutrina, "ainda que tenham sido necessários 18 séculos para que sua total incompatibilidade com a escravidão fosse explicitamente reconhecida".

"Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar distantes", disse.

Durante uma visita a Camarões em 1985, o papa João Paulo 2º pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravos em nome dos cristãos que participaram dele, mas não em nome dos papas. Em uma visita à Ilha de Gorée, no Senegal, em 1992 — o maior centro de tráfico de escravos da África Ocidental —, ele denunciou a injustiça da escravidão e a chamou de "tragédia de uma civilização que se dizia cristã". Fonte: DW- 25 de maio de 2026