quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O mito de que a Independência do Brasil foi pacífica

 Ao contrário do imaginário consolidado, houve derramamento de sangue e confrontos em várias partes do território brasileiro, do Pará à província Cisplatina, atestam historiadores contemporâneos.

Durante um ano e quatro meses, brasileiros interessados em autonomia e portugueses que queriam manter o controle da colônia se engalfinharam em batalhas onde hoje é o estado da Bahia. Foram pelo menos 150 mortes em diversos confrontos − o mais famoso deles, ocorrido em 8 de novembro de 1822, ficou conhecido como Batalha de Pirajá.

O episódio chamado de Independência do Brasil na Bahia é um retrato importante − e não único − que atesta como, contrariando o imaginário nacional, o processo de emancipação política do Brasil não ocorreu sem derramamento de sangue.

Outro episódio marcante foi a chamada Batalha do Jenipapo, ocorrida em 13 de março de 1823 às margens do rio homônimo na Vila de Campo Maior, atual estado do Piauí. Ali, moradores locais enfrentaram tropas que tentavam manter a região sob o comando da corte portuguesa. Como saldo, foram cerca de 220 mortos, 60 feridos e 542 homens feito prisioneiros. "Em números, foi a grande batalha do período da Independência, aponta o historiador Marcelo Cheche Galves, professor na Universidade Estadual do Maranhão.

"O processo de independência do Brasil não foi pacífico, e nem a violência foi ocasional", diz o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista, ressaltando que a imagem de que a conquista da emancipação política brasileira foi feita de modo pacífico foi uma construção histórica.

CONSTRUÇÃO DA NARRATIVA PACÍFICA

"O primeiro imaginário a ser questionado é precisamente este: o do processo binário, com ou sem sangue. Sempre houve sangue. Os séculos 18 e 19 foram movidos a constantes guerras, revoluções e conflitos localizados ou não. Estas nunca foram imaginárias, mas concretas, com milhares de mortos e feridos, destruição, apropriação de territórios e espoliação econômica sistemáticas", contextualiza Martinez.

Segundo o historiador, no caso brasileiro, "a afirmação do processo pacífico ou relativamente pacífico foi uma construção enganadora". Esta serviu para "justificar e legitimar a permanência da Casa de Bragança [a família real que seguiu no comando depois da Independência], a persistência da monarquia e dos acordos políticos que lhe deram sustentação política, econômica, militar e ideológica".

Em outras palavras, havia um interesse do poder em passar uma mensagem de que a Independência havia ocorrido, mas tudo estava bem, os ânimos estavam controlados, e a vida podia seguir como antes.

"Todo o período da regência de Dom Pedro 1º foi marcado por um gigantesco esforço político, material operacional e financeiro para eventuais confrontos armados, considerados possibilidades reais e decisivas", ressalta Martinez.

Não à toa, o próprio príncipe feito imperador dirigiu-se aos paulistas chamando-os de "leais". Isso escondia uma "expectativa política apreensiva e angustiante": o risco de uma luta armada na província que ganhava importância, analisa o historiador.

"A ocorrência de confrontos armados sempre esteve presente no horizonte cotidiano, real e concreto do debate e das ações políticas dos grupos sociais e dos indivíduos que viveram o processo que resultou no desmembramento político do Brasil do Reino Unido de Portugal", pontua o professor.

CONTEXTO DE DESCONTROLE SOCIAL

Além das chamadas guerras em si, quando tropas organizadas pegavam em armas, o historiador Cheche Galves observa que havia, de norte a sul do país, um clima de animosidade − conforme registros da imprensa da época.

"Não há dúvida de que a Independência foi um processo lento e militarizado. Embora haja um apelo muito grande para as guerras no sentido formal, as batalhas que normalmente servem para construir o ideário dos feitos, houve por aqui uma tensão cotidiana envolvendo, nas ruas das cidades, aqueles que eram reconhecidos como brasileiros e os que eram reconhecidos como portugueses", comenta Galves.

Uma construção que tinha mais a ver com identificação, é verdade, porque se o próprio país independente havia acabado de nascer, juridicamente todos os envolvidos nessas contendas eram portugueses.

O momento suscitou "rivalidades antigas", conta o historiador. "Eram tensões cotidianas muito marcantes, envolvendo aqueles que controlavam o comércio e os contratos da época", exemplifica. "Houve prisões, espancamentos, arrombamentos de lojas, saques e toda uma guerra cotidiana nas ruas do Brasil."

Professora na Universidade de São Paulo e autora do recém-lançado Ideias em Confronto - Embates pelo Poder na Independência do Brasil e coorganizadora do Dicionário da Independência do Brasil, a historiadora Cecilia Helena de Salles Oliveira, aponta que essa ideia de separação pacífica tem a ver com a própria interpretação "de que a Independência foi uma continuidade em relação ao período colonial". "[Ideia esta] construída pelas gerações de políticos que organizaram o Império", frisa.

"Entretanto, os jornais e panfletos da época mostram que a palavra independência possuía outros significados, relacionando-se à construção de um espaço para o exercício da liberdade política e da cidade", analisa ela. Ou seja: na mesa havia propostas discrepantes para o que viria a ser um país a partir daquele momento.

"Nesse sentido, os conflitos políticos e os confrontos armados acabaram por envolver o conjunto da sociedade em torno de reivindicações e projetos diferentes", afirma Oliveira.

"TEMPERATURA POLÍTICA"

E então acabaram saltando aos olhos as batalhas ocorridas na Bahia e no Piauí, pela grandeza dos episódios. Não só: também houve conflitos grandes no Pará e na província Cisplatina − depois transformada em Uruguai.

"Na Bahia houve conflitos; no Pará, rendição diante das ameaças de duras represálias; e a Cisplatina romperia com a unidade do Império do Brasil pela própria Independência", enumera Martinez.

"Esses foram os episódios mais extremados e conhecidos. As tensões no Rio de Janeiro não alcançaram as mesmas proporções, mas o estopim para a conflagração esteve próximo de ser aceso. Foi impedido pela retirada das tropas portuguesas acantonadas na Baía de Guanabara", comenta.

"Quaisquer que sejam os exemplos buscados, tais guerras serão apenas termômetro da temperatura política e ideológica da organização do Estado nacional no Brasil e da composição política entre os grupos sociais que iriam conduzir os destinos do novo Império: grandes proprietários rurais e comerciantes, arrematadores de impostos, promotores do tráfico e do comércio de africanos escravizados e uma crescente elite burocrática e administrativa encastelada, desde logo, na organização do sistema judiciário e das Forças Armadas", ressalta o historiador.

Sim, como costuma acontecer, o povo simples que vivia no Brasil, da mesma forma que permaneceu alheio à Independência, nenhum interesse tinha em batalhas definidoras de quem deveria permanecer ou adquirir o controle das riquezas e do poder. Fonte: DW-Publicado 06/09/2022

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças

 Conhecidos pelo potencial para impulsionar a transição energética, terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos vêm ganhando cada vez mais protagonismo global. Embora frequentemente tratados como sinônimos, os três conceitos cumprem papéis diferentes na geopolítica e na economia global.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão do governo federal responsável por avaliar o potencial mineral do país, Elementos Terras Raras (ETR) são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica: 15 lantanídeos (como lantânio, cério, neodímio e disprósio), escândio e ítrio.

Apesar do nome, não são necessariamente raros na natureza, mas costumam estar dispersos, o que dificulta a exploração econômica. São essenciais para tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, carros elétricos, baterias, eletrônicos e sistemas de defesa.

Minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico dos países e que tenham importância pela sua aplicação em produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética.

Minerais críticos são aqueles cujo suprimento pode envolver diferentes riscos de abastecimento: concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica, limitações tecnológicas, interrupção no fornecimento e dificuldade de substituição.

Por isso, a definição de quais minerais são estratégicos ou críticos depende de cada país. A lista também pode mudar conforme o tempo, de acordo com avanços tecnológicos, descobertas geológicas, mudanças geopolíticas e evolução da demanda. Porém, alguns exemplos mais comuns atualmente são: lítio, cobalto, grafita, níquel e nióbio.

Terras raras podem ser consideradas minerais críticos ou estratégicos, dependendo do contexto. Ou seja, toda terra rara pode ser estratégica, mas nem todo mineral estratégico é terra rara.

SITUAÇÃO NO BRASIL

Segundo o SGB, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas. Isso representa cerca de 23% das reservas globais, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

A maior parte das terras raras no Brasil está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Esses estados têm os principais tipos de depósitos com potencial econômico.

Entre os minerais que costumam ser considerados críticos ou estratégicos na maior parte dos países, o Brasil se destaca por ter as maiores reservas de nióbio do mundo (94%), com 16 milhões de toneladas. Também é o segundo no ranking global de reservas de grafita (26%), com 74 milhões de toneladas, e o terceiro quando se trata de reservas de níquel (12%), com 16 milhões de toneladas.

O país tem uma lista de minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento interno. Ela foi publicada na Resolução nº 2, de 18 de junho de 2021, do Ministério de Minas e Energia. Esses minerais são divididos em três grupos:

Precisam ser importados: enxofre, minério de fosfato, minério de potássio e minério de molibdênio.

Usados em produtos e processos de alta tecnologia: minério de cobalto, minério de cobre, minério de estanho, minério de grafita, minérios do grupo da platina, minério de lítio, minério de nióbio, minério de níquel, minério de silício, minério de tálio, minério de terras raras, minério de titânio, minério de tungstênio, minério de urânio e minério de vanádio.

Minerais com vantagem comparativa e geração de superávit na balança comercial: minério de alumínio, minério de cobre, minério de ferro, minério de grafita, minério de ouro, minério de manganês, minério de nióbio e minério de urânio.

DISPUTA GLOBAL

Esses recursos se tornaram centrais na disputa geopolítica global. Hoje, a China lidera amplamente o refino e a produção de terras raras, o que gera preocupação em outras potências, como Estados Unidos e União Europeia, que buscam diversificar fornecedores.

Nesse cenário, o Brasil aparece como um ator relevante. Especialistas apontam que o desafio brasileiro não está apenas na extração. A cadeia produtiva desses minerais envolve etapas complexas, como beneficiamento e refino, que ainda são pouco desenvolvidas no país.

Sem isso, o Brasil tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, analisa o professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, que é especialista na interseção entre política, economia e mineração.

“O Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo. Servindo para o mundo como um país primário-exportador. A gente exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional”, diz Jardim.

Além da dimensão econômica, há também questões ambientais e sociais. A exploração desses recursos gera impactos significativos nos lugares onde ocorre.

“Não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios em que ocorre: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana. O que temos hoje é um modelo completamente insustentável de mineração”, avalia o geógrafo.

“É possível fazer um modelo um pouco menos degradante. Mas, ainda assim, continuariam sendo feitos grandes buracos para extrair esses minérios. Continuariam a desmontar montanhas e a afetar cursos de água. Precisamos pensar com muita calma se realmente vale a pena, já que perdemos muitos recursos naturais e os efeitos socioambientais são significativos”, complementa.  Fonte: Agência Brasil-Publicado em 25/04/2026

sábado, 18 de julho de 2026

Invenção "mais importante desde a bomba atômica" faz 80 anos

 
Apresentado ao mundo em 5 de julho de 1946, biquíni causou escândalo. Anos mais tarde, traje de banho transformou a moda praia e tornou-se um símbolo de uma nova liberdade.

 Em 1946, o engenheiro mecânico francêsLouis Réard buscava uma modelo profissional para promover sua criação, mas nenhuma delas estava disposta a usar a invenção. Ele então contratou a dançarina de striptease Micheline Bernardini para apresentar o primeiro biquíni em 5 de julho daquele ano.

A data não foi escolhida por acaso. Pouco antes, os militares dos Estados Unidos haviam realizado um teste nuclear no atol de Bikini, no Pacífico Sul, atraindo atenção mundial. Réard esperava que sua nova moda praia causasse um impacto semelhante. E conseguiu. A apresentação provocou escândalo: para os padrões da época, o biquíni mostrava pele demais.

Guardiões da moral ficaram indignados. Naqueles anos do pós-guerra, esperava-se que as mulheres circulassem de saia e avental comprido, não exibindo o corpo de forma tão ousada. E, de fato, os pedaços de tecido eram minúsculos para a época. O próprio Réard definiu sua invenção com um slogan que ficou famoso: "Um biquíni só é realmente um biquíni se puder passar por dentro de uma aliança de casamento".

A frase era dita em tom de brincadeira, já que mais tarde ele desenvolveria modelos um pouco maiores.

UMBIGO ESCONDIDO

A lendária jornalista de moda Diana Vreeland é frequentemente associada a uma frase que resume o impacto da nova peça: segundo ela, o biquíni teria sido "a invenção mais importante desde a bomba atômica".

Enquanto a revista Harper's Bazaar percebeu rapidamente o potencial cultural e social do biquíni, outras publicações de moda consideravam a peça ousada demais. A Vogue, por exemplo, inicialmente tratou a tendência com cautela.

Isso começou a mudar quando estrelas como Brigitte Bardot e Marilyn Monroe popularizaram o biquíni no início dos anos 1950. A partir daí, as revistas de moda passaram a dar cada vez mais espaço à peça. Nos anos 1960, o biquíni já fazia parte da moda de verão e aparecia regularmente nas páginas da Vogue.

Uma curiosidade: durante os primeiros anos, a edição americana da revista evitava mostrar o umbigo das modelos. Os ensaios eram fotografados ou produzidos de forma a mantê-lo coberto, pois sua exposição era considerada especialmente escandalosa. Esse tabu só começou a desaparecer gradualmente nos anos 1960.

POUCO TECIDO PARA UMA NOVA ERA

A consagração definitiva do biquíni veio com o primeiro filme de James Bond: 007 Contra o Satânico Dr. No, lançado em 1962. O modelo usado pela atriz suíça Ursula Andress entrou para a história como o "biquíni de Dr. No".

A partir dos anos 1960, o sucesso da peça tornou-se irreversível. Surgiram diferentes versões, como o triquíni, com partes adesivas, e até o monokíni, que deixava os seios descobertos – embora este último nunca tenha alcançado grande popularidade.

A revolução da moda praia caminhou lado a lado com a crescente autonomia das mulheres. Foi a época da popularização da pílula anticoncepcional, da minissaia e dos movimentos de contestação social liderados pela juventude. Para muitas mulheres, o biquíni tornou-se um símbolo de liberdade.

BIQUÍNI SUPERA O VESTIDO DE NOIVA

Nas décadas de 1980 e 1990, muitas grandes semanas de moda passaram a encerrar seus desfiles com coleções de biquínis em vez dos tradicionais vestidos de noiva. Supermodelos como Claudia Schiffer, Linda Evangelista e Naomi Campbell disputavam essas apresentações.

Até hoje, o biquíni não perdeu seu poder. Cada vez mais, as mulheres demonstram confiança ao usá-lo, exibindo todos os tipos de corpos – sejam eles magros, curvilíneos ou marcados por gestações. Há quase 80 anos, o biquíni é uma declaração de liberdade,  e tudo indica que continuará sendo. Fonte: DW - domingo, 5 de julho de 2026