A história da Igreja
Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz
escritor espanhol
Assim se definiu o escritor
espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa
Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra
pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se
sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.
O Vaticano havia proposto a
Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar: abrir completamente
suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse,
acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta. Como
responder que não?
Cercas entrou por aquelas
portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas,
sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe
idosa e enferma.
O resultado foi o livro O
Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com
a crônica da viagem.
Cercas o define como um
romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para
mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e
alguém tentando decifrá-lo".
O enigma do livro não é uma
questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição
da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.
"Vivemos em um mundo sem
Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante
(ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos
encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao
mundo.
A BBC News Mundo (o serviço
em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival
Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.
BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO
SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?
Javier Cercas: Não sei,
duvido muito.
É claro que existem algumas
coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se
está na moda.
Cada país é diferente, e cada
circunstância é distinta.
A Europa não é mais o centro
do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo.
O centro do catolicismo,
agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?
Eu quis basicamente me
perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte
do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.
E o que está acontecendo no
Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.
BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO
QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A
RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?
Cercas: Nada substituiu a
religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.
Nós nos esquecemos de um
ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.
Isso é incrível. Na Idade
Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava
sentido a tudo.
Durante séculos e séculos, a
humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando
Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco
dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este
grande relato cai.
Houve tentativas de
substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o
marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.
Não existe um relato que
substitua o relato de Deus, o relato da religião.
A condição pós-moderna
consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês
Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.
Cada um busca a vida à sua
maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na
arte, na política, no consumo...
E, às vezes, muitas pessoas
se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência
de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner
[1929-2020].
Acredito que isso fica
visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato,
o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de
Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.
E é possível que muitas
pessoas sintam falta dela.
BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ
CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.
Cercas: Esse nó na garganta é
o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.
E tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.
É claro que foi um erro, pois
a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e
inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.
E o meu caso não é uma
exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav
Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se
autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como
uma espécie de sacerdócio.
BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO
"CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.
Parece que já havíamos
superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão.
Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que
a usam como desculpa para seus projetos políticos.
Cercas: O constantinismo é a
união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.
E a Igreja Católica de hoje —
Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o
Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].
Outra questão é que outras
igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas
pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios
projetos políticos.
Isso é mortal, é catastrófico
por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele
precisa ser um contrapoder.
BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS
QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...
Cercas: É que um ponto
elementar está esquecido.
Jesus Cristo era alguém
perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.
"Eu não vim trazer a
paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são
iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela
escravidão.
Anda hoje é perigoso, é
revolucionário dizer isso.
Jesus Cristo não era um homem
que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que
andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes,
prostitutas, com os párias da sociedade.
Este é o verdadeiro
cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.
É um cristianismo
constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual
o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.
Em grande parte, a história
da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.
Existe uma frase de um grande
escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início
do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao
cristianismo é o espírito burguês."
BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE QUE FRANCISCO
ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO CLERICALISMO? DO SEU
PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?
Cercas: E do ponto de vista
de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um
dos seus principais inimigos.
O clericalismo é a ideia de
que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da
Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.
Francisco tinha uma imagem
muito boa, era um homem com imagens literárias.
Ele havia sido professor de
literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos
fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do
rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É
desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."
Não sou eu que digo isso,
quem dizia era ele.
Sem ir muito longe, os abusos
sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais,
pode ter a tentação de abusar deles.
Neste sentido, sim, é claro
que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é
simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este
respeito.
BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO
PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?
Cercas: Sim, com certeza.
Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.
Francisco entrou como um
vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele
fez isso, acredito que fez.
Este entrou de forma
muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a
Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo
de Cristo.
O que acontece é que alguns
papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou
foi Francisco, sem sombra de dúvida.
O novo papa segue o mesmo
caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.
Desde o primeiro dia, o que
se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos
inovador.
Ele vem acalmar as águas. Vem
unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma
Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito
radical, dentro da própria Igreja.
E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.
Existe um ponto que sim, é
verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.
Francisco falava em uma
Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o
cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os
cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o
fim do mundo.
É isso que fazem os
missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão.
Porque não vão evangelizar
como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não
têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.
Este homem tem uma
particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o
torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.
BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE
SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ
ENCONTROU O QUE ESPERAVA?
Cercas: Certamente, não.
Veja, o meu maior esforço
para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.
Todo mundo está repleto de
preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do
cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a
Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.
Nada do que eu esperava se
realizou.
Tudo é surpreendente, desde o
princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir
as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que
quisesse, além de acompanhar o papa.
E isso segue até o final do
livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.
Eu brinco muito com o livro.
Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também
era a crença do papa Francisco.
Por isso, é um livro
humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os
romances.
E, é claro, eu brinco com o
fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios
humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que
circulam sobre o Vaticano.
Todos estes mistérios são
simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.
'Tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas
BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A
FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU
NÃO?
Eu passei de ateu a ser
agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é
um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".
Ou seja, da mesma forma que é
impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que
Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo?
A verdade é que, seja você
ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de
verdade. Da minha mãe, por exemplo.
Na verdade, ela é a autêntica
protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé
com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou
com a dos missionários.
Ou seja, eu senti inveja da
serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que
eu nunca irei conseguir.
O livro tenta ser divertido.
Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias,
como a fé ou a relação com a razão.
A fé não é algo voluntário.
Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais
força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter
fé."
A fé ou você tem, ou não tem.
Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo,
embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.
Por isso, acredito realmente
que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão
quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé
autêntica).
BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO
LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O
PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO,
ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?
Cercas: Obviamente, a Bíblia
é um texto literário deslumbrante. É incontestável.
Mesmo que você não seja
religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição
literária.
No livro, de qualquer forma,
destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.
Por um lado, é uma linguagem
antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.
Jesus Cristo atraía pelos
seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de
Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são
extraordinárias.
Ele seduzia pelo seu
posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.
A linguagem da Igreja
envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a
Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é
hermética, não é atraente e ninguém a entende.
A literatura e a religião
ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem
um grave problema linguístico.
Embora seja muito diferente
de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu
antecessor, segundo Javier Cercas
BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA,
MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE
QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO
A DEUS.
Ou quando você ouve, como
você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de
Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá
aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu,
de barba e tudo."
Cercas: Bem, eu cito o filósofo
romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos crentes,
ele deve a Bach."
E é verdade, você ouve o
Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como
dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.
É claro que a Igreja Católica
foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o
literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.
Às vezes, me pergunto, como
ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com
outra pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?
Nenhuma instituição durou
tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez
nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e
poder contar?
Uma instituição que, além
disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece
normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.
Basta pensar que, no centro
desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.
É algo absolutamente incrível
e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas,
inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.
Por isso, é algo
extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?
Cercas: Não sei. Se eu fosse
crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.
Existe algo muito poderoso no
cristianismo.
Cristo era um revolucionário
social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se rebelou apenas
socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.
Isso está no centro do
cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a
morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.
O cristianismo diz que
"você não vai morrer". É uma imensa promessa.
Esta rebelião tem enorme
potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em
seu ser."
É o que define os seres
humanos. Queremos continuar sendo.
E o cristianismo oferece um
caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne
e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata
este livro.
A literatura, como a
religião, é uma forma de transcendência, segundo Cercas
BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO
DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?
Cercas: Quando me fizeram a
proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha
mãe.
Minha mãe era uma mulher
profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia
que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.
Ela não dizia isso porque
fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo.
Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.
Este livro trata de um louco
sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de
Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de
Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o
fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.
Uma pergunta elementar e, por
sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais
enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou
não?
Neste livro, o aparente
protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era
meu pai em Anatomia de Um Instante.
Mas você tem toda a razão.
Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.
Este é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.
E ao me investigar, investigo
o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.
BBC: VOCÊ ACREDITA QUE
FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?
Cercas: É que não sou crente.
Este é o meu problema.
Além disso, a ressurreição da
carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como
estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom.
Não acredito que exista Zoom
no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas
formas de transcendência.
Existe, por exemplo, uma lei
que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se
transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.
Ou seja, agora que meus pais
estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque
as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se
transformaram nas minhas células.
Não se trata de imaginação, é
um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.
O escritor espanhol Miguel de
Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."
Algo disso existe. Meus pais,
de alguma forma, continuam vivendo em mim.
Quando me olho no espelho,
vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha
mãe.
Mas a literatura busca uma
forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de
Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido
há tantos séculos.
O que nós, seres humanos, não
queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem
que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.
Precisarei aceitar, não há
remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do
que desaparecer para sempre.
Parece horrível, parece
injusto, parece idiota. Não gosto.
A história da Igreja
Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz
escritor espanhol
Javier Cercas é o autor de O
Louco de Deus no Fim do Mundo
"Sou ateu. Sou
anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso."
Assim se definiu o escritor
espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa
Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra
pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se
sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.
Cercas entrou por aquelas
portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas,
sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe
idosa e enferma.
O resultado foi o livro O
Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com
a crônica da viagem.
Cercas o define como um
romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para
mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e
alguém tentando decifrá-lo".
O enigma do livro não é uma
questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição
da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.
"Vivemos em um mundo sem
Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante
(ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos
encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao
mundo.
A BBC News Mundo (o serviço
em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival
Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.
BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO
SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?
Javier Cercas: Não sei,
duvido muito.
É claro que existem algumas
coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se
está na moda.
Cada país é diferente, e cada
circunstância é distinta.
A Europa não é mais o centro
do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se
reduzindo.
O centro do catolicismo,
agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?
Eu quis basicamente me
perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte
do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.
Isso que foi tão importante
durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos
com isso?
E o que está acontecendo no
Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.
BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO
QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A
RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?
Nós nos esquecemos de um
ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.
Isso é incrível. Na Idade
Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava
sentido a tudo.
Durante séculos e séculos, a
humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando
Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco
dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este
grande relato cai.
Houve tentativas de
substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o
marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.
Não existe um relato que
substitua o relato de Deus, o relato da religião.
A condição pós-moderna
consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês
Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.
Cada um busca a vida à sua
maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na
arte, na política, no consumo...
E, às vezes, muitas pessoas
se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência
de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner
[1929-2020].
Acredito que isso fica
visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato,
o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de
Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.
E é possível que muitas
pessoas sintam falta dela.
BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ
CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.
Cercas: Esse nó na garganta é
o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.
E tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.
É claro que foi um erro, pois
a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e
inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.
Ou seja, que a literatura, de
alguma forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião.
E o meu caso não é uma
exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav
Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se autointitularam
"sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como uma espécie de
sacerdócio.
BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO
"CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.
Cercas: O constantinismo é a
união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.
E a Igreja Católica de hoje —
Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o
Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].
Outra questão é que outras
igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas
pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios
projetos políticos.
Isso é mortal, é catastrófico
por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele
precisa ser um contrapoder.
BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS
QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...
Cercas: É que um ponto
elementar está esquecido.
Jesus Cristo era alguém
perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.
"Eu não vim trazer a
paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são
iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela
escravidão.
Anda hoje é perigoso, é
revolucionário dizer isso.
Jesus Cristo não era um homem
que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que
andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes,
prostitutas, com os párias da sociedade.
Este é o verdadeiro
cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.
É um cristianismo
constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual
o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.
Em grande parte, a história
da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.
Existe uma frase de um grande
escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início
do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao
cristianismo é o espírito burguês."
Mas o que nós conhecemos é um
cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.
Javier Cercas acompanhou o
papa Francisco em uma viagem à Mongólia, em setembro de 2023
BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE
QUE FRANCISCO ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO
CLERICALISMO? DO SEU PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?
O clericalismo é a ideia de
que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da
Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.
Francisco tinha uma imagem
muito boa, era um homem com imagens literárias.
Ele havia sido professor de
literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos
fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do
rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É
desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."
Não sou eu que digo isso,
quem dizia era ele.
Sem ir muito longe, os abusos
sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais,
pode ter a tentação de abusar deles.
Neste sentido, sim, é claro
que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é
simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este
respeito.
BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO
PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?
Cercas: Sim, com certeza.
Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.
Francisco entrou como um
vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele
fez isso, acredito que fez.
Este entrou de forma
muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a
Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo
de Cristo.
O que acontece é que alguns
papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou
foi Francisco, sem sombra de dúvida.
O novo papa segue o mesmo
caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.
Desde o primeiro dia, o que
se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos
inovador.
Ele vem acalmar as águas. Vem
unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma
Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito
radical, dentro da própria Igreja.
E vem reunir um pouco as
coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.
Existe um ponto que sim, é
verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.
Francisco falava em uma
Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o
cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os
cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o
fim do mundo.
Porque não vão evangelizar
como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não
têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.
Este homem tem uma
particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o
torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.
BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE
SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ
ENCONTROU O QUE ESPERAVA?
Cercas: Certamente, não.
Veja, o meu maior esforço
para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.
Todo mundo está repleto de
preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do
cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a
Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.
Nada do que eu esperava se
realizou.
Tudo é surpreendente, desde o
princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir
as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que
quisesse, além de acompanhar o papa.
E isso segue até o final do
livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.
Eu brinco muito com o livro.
Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também
era a crença do papa Francisco.
Por isso, é um livro
humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os
romances.
E, é claro, eu brinco com o
fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios
humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que
circulam sobre o Vaticano.
Todos estes mistérios são
simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.
'Tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas
BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A
FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU
NÃO?
Cercas: Vejamos, não sei se
você compreende.
Eu passei de ateu a ser
agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é
um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".
A verdade é que, seja você
ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de
verdade. Da minha mãe, por exemplo.
Na verdade, ela é a autêntica
protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé
com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou
com a dos missionários.
Ou seja, eu senti inveja da
serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que
eu nunca irei conseguir.
O livro tenta ser divertido.
Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias,
como a fé ou a relação com a razão.
A fé não é algo voluntário.
Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais
força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter
fé."
A fé ou você tem, ou não tem.
Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo,
embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.
Por isso, acredito realmente
que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão
quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé
autêntica).
BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO
LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O
PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO,
ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?
Cercas: Obviamente, a Bíblia
é um texto literário deslumbrante. É incontestável.
Mesmo que você não seja
religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição
literária.
No livro, de qualquer forma,
destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.
Por um lado, é uma linguagem
antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.
Jesus Cristo atraía pelos
seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de
Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias.
Ele seduzia pelo seu
posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.
Mas também atraía pelo que
dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus
discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de
ouro.
A linguagem da Igreja
envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a
Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é
hermética, não é atraente e ninguém a entende.
Embora seja muito diferente
de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu
antecessor, segundo Javier Cercas
BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA,
MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE
QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO
A DEUS.
Ou quando você ouve, como
você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de
Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá
aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu,
de barba e tudo."
Cercas: Bem, eu cito o
filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos
crentes ele deve a Bach."
E é verdade, você ouve o
Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como
dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.
É claro que a Igreja Católica
foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o
literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.
Às vezes, me pergunto, como ateu
e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com outra
pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?
Nenhuma instituição durou
tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez
nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e
poder contar?
Uma instituição que, além
disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece
normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.
Basta pensar que, no centro
desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.
É algo absolutamente incrível
e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas,
inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.
Por isso, é algo
extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?
BBC: VOCÊ CHEGOU À CONCLUSÃO
DE QUE O EXTRAORDINÁRIO NÃO É O PAPA, MAS A IGREJA, QUE CONTINUA EXISTINDO 2
MIL ANOS DEPOIS, ENQUANTO IMPÉRIOS E REINADOS CAÍRAM. QUAL É O SUPERPODER DA
IGREJA?
Cercas: Não sei. Se eu fosse
crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.
Existe algo muito poderoso no
cristianismo.
Isso está no centro do
cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a
morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.
O cristianismo diz que
"você não vai morrer". É uma imensa promessa.
Esta rebelião tem enorme
potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em
seu ser."
É o que define os seres
humanos. Queremos continuar sendo.
E o cristianismo oferece um
caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne
e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata
este livro.
BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO
DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?
Cercas: Quando me fizeram a
proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha
mãe.
Minha mãe era uma mulher
profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia
que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.
Ela não dizia isso porque
fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo.
Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.
Este livro trata de um louco
sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de
Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de
Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o
fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.
Uma pergunta elementar e, por
sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais
enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou
não?
Neste livro, o aparente
protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era
meu pai em Anatomia de Um Instante.
Mas você tem toda a razão.
Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.
Este é um fato e, de alguma
forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.
E ao me investigar, investigo
o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.
BBC: VOCÊ ACREDITA QUE
FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?
Cercas: É que não sou crente.
Este é o meu problema.
Não acredito que exista Zoom
no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas
formas de transcendência.
Existe, por exemplo, uma lei
que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se
transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.
Ou seja, agora que meus pais
estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque
as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se
transformaram nas minhas células.
Não se trata de imaginação, é
um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.
O escritor espanhol Miguel de
Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."
Algo disso existe. Meus pais,
de alguma forma, continuam vivendo em mim.
Quando me olho no espelho,
vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha
mãe.
Mas a literatura busca uma
forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de
Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido
há tantos séculos.
O que nós, seres humanos, não
queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem
que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.
Precisarei aceitar, não há
remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do
que desaparecer para sempre.
Parece horrível, parece
injusto, parece idiota. Não gosto.
BBC News Mundo - 7 fevereiro
2026 – autor - Paula Rosas
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