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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Por que ostentamos? O que está por trás do consumo de luxo

Segundo especialistas, status e exclusividade influenciam relação com consumo, mas pesquisas apontam que motivação podem ir muito além do dinheiro

Luxo de ostentação: pesquisas apontam relação com insegurança, identidade e até para conquista de parceiros

Fernanda* tinha acabado de completar 18 anos quando recebeu o primeiro salário. Com o dinheiro na conta, decidiu comprar uma bolsa que, diz ela, talvez custasse, na época, mais do que ela havia recebido naquele mês já que, por isso, a compra foi parcelada diversas vezes.

Aquela foi, segundo ela, a primeira de muitas compras feitas acima do que precisava ou podia pagar, buscando "o melhor”. O padrão se repetiu com outros itens e, mais tarde, com um carro que ela própria considera maior e mais sofisticado do que sua rotina exigia.

"Eu sempre fui sozinha com meu filho. Então, eu não precisava comprar um carro grande, cheio de coisas. E eu queria sempre o melhor, o mais caro, com mais sofisticação. Tudo do bom e do melhor, sem necessidade”, conta.

Fernanda diz que havia algo além do desejo pelos produtos. "A partir daí, todo o meu dinheiro eu gastava com coisas desnecessárias. Eu nunca guardei dinheiro na minha vida. Sempre gastei tudo. Eu precisava me autoafirmar perante o outro”, diz ela.

O QUE EXPLICA A VONTADE DE OSTENTAR?

Comprar um produto caro não significa, necessariamente, ostentar. O mesmo objeto pode ser valorizado pela qualidade, pelo design ou simplesmente pelo prazer de consumi-lo. A ostentação aparece quando o bem também funciona como uma forma de comunicar algo aos outros — como status, pertencimento ou exclusividade, o que nem sempre tem a ver com dinheiro.

Isso ajuda a explicar por que determinados produtos podem adquirir um valor que vai muito além da sua utilidade, segundo especialistas.

A psicóloga econômica Vera Rita Ferreira explica que os seres humanos são "inerentemente sociais” e, desde cedo, influenciados pelo comportamento das pessoas ao redor. A imitação faz parte do aprendizado: aprendemos, por exemplo, a falar e a andar observando outras pessoas. No consumo, esse mecanismo também pode aparecer.

"Você se sente especial, e todo mundo tem vontade de se sentir especial, de se destacar de alguma forma. Mas as pessoas gostam de ter uma coisa mais cara porque menos gente vai ter acesso a ela. Então, isso garante o seu lugar de exclusividade”, explica.

Na economia, uma das primeiras teorias para esse tipo de comportamento surgiu com o economista e sociólogo americano Thorstein Veblen, que descreveu o chamado "consumo conspícuo", a aquisição e a exibição de bens como forma de demonstrar riqueza e posição social.

O PRODUTO COMO PARTE DA IDENTIDADE

Nelsio Rodrigues, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisador da área de consumo, chama atenção para outra dimensão da ostentação: o pertencimento.

Por trás da decisão de comprar um item caro — inclusive quando ele está fora do orçamento — pode existir uma busca por diferenciação, mas também o desejo de fazer parte de determinado grupo.

"A gente fala do ‘self estendido': você se projeta em um artefato. O celular é um deles”. O conceito de "self estendido”, formulado pelo pesquisador Russell Belk, parte da ideia de que aquilo que possuímos também pode contribuir para a construção da nossa identidade.

No mercado de luxo, marcas, roupas, celulares, carros e outros objetos podem funcionar, portanto, como sinais sobre quem somos ou sobre o grupo ao qual queremos pertencer.

"Você vai pertencer a uma tribo, então, na verdade, ela [a ostentação] faz com que você se aproxime do que você espera. A vaidade faz parte do processo, mas ela não é o principal. Eu estou muito mais querendo pertencer a um grupo que usa determinada marca, que vai a determinados shows", explica Rodrigues.

Pesquisas de diferentes áreas também investigam a relação entre a ostentação e outras dimensões, como autoestima, exclusão social e relacionamentos.

Para Vera Rita, a comparação com outras pessoas é um dos fatores que ajuda a explicar a dinâmica desse tipo de consumo. "Estamos sempre tentando encontrar um lugar na régua, que diga para a gente onde estamos. E a necessidade de ostentar vem primeiro dessa insegurança mesmo. Quem precisa [ostentar] é quem não tem muita certeza de onde está nessa régua”, afirma.

A relação entre incerteza sobre si mesmo e consumo ostensivo também aparece em outras pesquisas. Em um estudo publicado em 2023 na revista Frontiers in Psychology, por exemplo, participantes expostos a uma lembrança de rejeição ou traição apresentaram maior propensão ao consumo ostensivo do que aqueles que haviam relembrado uma experiência positiva de relacionamento.

No caso de Fernanda, ela relaciona o próprio comportamento de consumo a uma experiência de rejeição vivida na infância. "Minha mãe me abandonou quando eu tinha um ano de idade. Então, hoje eu sei que por causa desse abandono, eu fazia, faço ainda, mas bem controlado agora, essas compras desnecessárias para me autoafirmar para os outros”, conta.

Já outro estudo, intitulado Pavões, Porsches e Thorstein Veblen: o consumo ostentatório como sistema de sinalização sexual, investigou o consumo ostensivo como uma possível forma de sinalização sexual. Em quatro experimentos, os pesquisadores encontraram evidências de que, entre homens, determinados contextos ligados a estratégias de relacionamento de curto prazo estavam associados a gastos mais extravagantes.

O resultado da pesquisa sugere que "ostentar bens associados a status para potenciais parceiros não se resume simplesmente a exibir recursos econômicos”, mas pode estar relacionado a conquistar parceiros de curto prazo, o que sugere que o consumo ostensivo pode desempenhar diferentes funções sociais, e não apenas comunicar riqueza.

QUANDO O STATUS PESA NO BOLSO

O problema aparece quando o desejo de consumir deixa de caber no orçamento. Rodrigues afirma que a diferenciação pelo consumo não é nova. Ao longo da história, o acesso restrito a determinados bens, como arte e cultura, também funcionou como marcador de posição social. No entanto, ele lembra que o acesso a produtos "ostentatórios” mudou: se antes o luxo era inacessível, hoje as facilidades de pagamento, com o crédito e o parcelamento, permitem adquirir produtos de alto valor sem desembolsar todo o preço imediatamente.

O professor diz que, nesse contexto, ganhou espaço nas redes sociais a expressão "pobreza de luxo”, usada para descrever situações em que uma pessoa consegue acessar bens e experiências associados a padrões de consumo mais altos, mas compromete o orçamento com crédito e parcelamentos.

O parcelamento, por si só, não significa endividamento. O problema aparece quando sucessivas compras comprometem a renda futura e reduzem a capacidade de poupar ou lidar com imprevistos.

Além disso, para Rodrigues, há ainda uma dimensão que vai além das finanças: o consumo também pode funcionar como uma forma de reconhecimento social.

"Nós temos um ponto aí que é o não reconhecimento, que é um dano psicológico, um dano social de não reconhecimento dos seus pares por não saber usar determinados instrumentos ou não saber se comportar em determinados ambientes. Então, pensamos muito na questão econômica, mas tem um impacto social e cognitivo das pessoas”, complementa o professor.

No caso de Fernanda, as compras chegaram a comprometer sua vida financeira. Ela conta que passou a buscar ajuda profissional, com psicólogo e psiquiatra, além de participar dos Devedores Anônimos (DA), grupo voltado a pessoas que desejam interromper o ciclo de endividamento.

Hoje, ela utiliza também um planejamento de gastos para estabelecer limites para compras e evitar decisões impulsivas, evitando, assim, comprar itens luxuosos apenas para ostentar.

"Até R$ 100 eu não pergunto para ninguém. Acima de R$ 100, eu vou perguntar para uma terceira pessoa para ver se aquilo é importante para mim. E tem o teto de gasto, que é o plano de gastos, em que colocamos os custos fixos e também valores extras que a gente gostaria de gastar com alguma coisa. Então, se eu quero comprar uma bolsa, eu posso gastar até R$ 150. Se eu quiser comprar um sapato, até R$ 100, por exemplo”, explica ela.

IMPACTO DAS REDES SOCIAIS

Para os especialistas, as redes sociais também deram uma nova dimensão à lógica do pertencimento. Em vez de comparar nosso padrão de consumo apenas com o de pessoas próximas, como vizinhos e familiares, hoje é possível acompanhar viagens, carros, celulares, restaurantes e outros sinais de status de pessoas de diferentes grupos e países.

"Isso explica, por exemplo, o comportamento de manada. Todo mundo vai atrás. Com as redes sociais isso virou uma coisa delirante”, diz a psicóloga econômica.

Para ela, a exposição constante pode intensificar a comparação social, especialmente entre pessoas que já se sentem inseguras em relação à própria posição.

"As redes sociais acabam com a paz de espírito, principalmente das pessoas que estão mais inseguras e insatisfeitas. Então, a pessoa pode se comparar com alguém que está lá na China, na Suécia, e a gente vai perder porque aqui no sul global já começamos perdendo porque a renda é completamente diferente. O país é mais desigual”, detalha Vera Rita.

Justamente por isso, Fernanda decidiu se afastar das redes sociais. "É um mercado aberto de vendas. A gente acha que aquela pessoa tem e, quando você vai ver, ela está cheia de dívida também. Então, a gente não sabe qual é a vida daquela pessoa e a gente se compara com ela”. Fonte: DW-sexta-feira, 25 de setembro de 2026   

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

CHINA PROPÕE LIMITES AO USO DE SMARTPHONES ENTRE JOVENS

Menores de 18 anos poderão usar celulares por no máximo duas horas por dia. Diretrizes visam aumentar controle governamental sobre uso da internet e conteúdos online e geram novo revés para empresas tech chinesas.

A China está mais perto de implementar uma nova diretriz que visa regular o tempo em que crianças e adolescente passam na internet, com o propósito de "combater o vício". Alguns críticos, no entanto, se queixam dos limites impostos ao acesso a informações para um geração bastante sagaz em termos de tecnologia.

A regulamentação, cujo processo legal se inicia no sábado (02/09) depois de o texto passar um período aberto à opinião pública, estipula que os smartphones e aplicativos já devem vir com um "modo para menores" instalado em fábrica, no intuito de restringir o uso dos aparelhos a no máximo duas horas.

O limite de tempo diminui de acordo com a idade do usuário, sendo que para as crianças com menos de 8 anos, o tempo máximo é de 40 minutos por dia. Além disso, os menores de 18 anos não poderão utilizar seus aparelhos entre as 22h00 e as 06H00.

Os pais poderão decidir se devem ou não adotar as restrições ou ampliar os limites das mesmas.

As regras, elaboradas pela Administração de Ciberespaço da China, também estabelecem a chamada "segurança de conteúdo" para assegurar que as informações online observem "valores socialistas" que possam ajudar as crianças a cultivarem a "boa moral".

A agência reguladora chinesa alega que as diretrizes visam proteger os menores de acessarem informações identificadas como ilegais ou prejudiciais à sua saúde física e mental.

ELOGIOS E CRÍTICAS

Muitos pais viram com bons olhos a nova regulamentação do governo chinês. "Acho muito boa a proposta", avalia Kong Lingman, de Xangai. "Os menores, quando passam muito tempo ao telefone, podem prejudicar a qualidade do tempo que as famílias têm para aproveitar juntas."

Defensores das novas regras recorreram à rede social chinesa Weibo, deixando inúmeros comentários positivos nas postagens do governo que anunciavam as medidas.

Mas, as regulamentações também atraíram críticas. "O resultado de querer controlar tudo é que, no final, nada acaba sendo corretamente controlado", afirmou um usuário da Weibo.

A proposta vem em seguida a uma série de medidas implementadas pelo governo chinês para reforçar o controle governamental sobre o espaço cibernético, desde 2019. Naquele ano, o governo limitou o tempo dos menores de 18 anos para jogarem vídeo games, em uma regra chamada de "modo para jovens".

DISTRAÇÃO DA PROPAGANDA DO GOVERNO

A instrução inicial era que os jovens pudessem ter 90 minutos por dia para jogos online durante a semana. Mas, em 2021, as regras foram endurecidas para no máximo uma hora por dia para jogar, nas sextas-feiras, fins de semana e feriados.

Aplicativos de vídeo e de transmissões ao vivo também foram orientados a seguirem o "sistema antivício", que exige que todos os usuários se registrem com seus nomes verdadeiros, apresentando documentos de identificação emitidos pelo governo.

"Essa sequência de políticas segue, de fato, um padrão específico", diz Tai Yu-Hui, professora de comunicação e tecnologia da Universidade Nacional Yang-Ming Chiao-Tung, em Taiwan. Segundo afirmou, a China tem como objetivo impor seu conceito de segurança nacional, com foco em três áreas: internet, entretenimento e jovens.

Um relatório divulgado nesta segunda-feira pelo Centro de Informações sobre Internet da China revelou que a taxa de penetração na internet passou de 76% em junho de 2023.

Com uma base de usuários de internet em expansão, vídeos em redes sociais e jogos online podem ser percebidos como formas capitalistas de entretenimento, ou como uma distração da propaganda do governo.

Segundo Tai, desde que o presidente chinês, Xi Jinping, assumiu o cargo, há uma década, "criou-se uma tendência de integração da ideologia política no conteúdo diário de entretenimento".

Em março, um artigo técnico divulgado pelo Conselho do Escritório de Informações de Estado delineou um objetivo claro de assegurar que a internet "se desenvolva dentro dos limites da lei".

MAIS UM DURO GOLPE PARA AS TECH

Uma vez que os pais têm a palavra final sobre a adoção das novas regras, os pesquisadores avaliam que ainda não está claro qual será o impacto das novas restrições sobre as crianças.

Entretanto, quem já sentiu os efeitos foram as empresas chinesas de tecnologia. No mesmo dia em que as diretrizes foram anunciadas, suas ações despencaram na bolsa de Hong Kong.

Essas empresas incluem a Weibo, o serviço de streaming de vídeos Bilibili, a plataforma de vídeos curtos Kuaishou e a Tencent, que opera o popular aplicativo de mensagens WeChat.

Há cerca de dois anos, quando as autoridades chinesas reforçaram as regras do "modo para jovens", diversos aplicativos implementaram medidas para aderir às diretrizes.

A Douyn, o equivalente chinês do TikTok, implementou um "modo para adolescentes", que restringiu crianças com menos de 14 anos a 40 minutos por dia de uso.

AUTOCENSURA?

As novas restrições devem levar as empresas de tecnologia a realizarem novas revisões de suas configurações para usuários, de modo a evitar possíveis violações.

Segundo Tai, este é mais um revés para a indústria, em um momento em que um longo período de rigidez regulatória sobre o setor parecia estar chegando ao fim.

A especialista avalia que, uma vez que as diretrizes se referem a informações ilegais ou mentalmente prejudiciais sem definições mais específicas, as empresas de tecnologia poderão "recorrer à autocensura para evitar cruzar qualquer linha vermelha". Fonte: Deutsche Welle – 03.09.2023