Espanha, Grécia, Itália e
Portugal registram danos em áreas de cultivo de oliveiras em meio a um verão
marcado por calor extremo, seca prolongada e incêndios. Produtores veem risco
de virada nos preços.
O calor extremo, a seca
prolongada e os incêndios florestais vêm aumentando a pressão sobre a
agricultura europeia, especialmente sobre os olivais do sul do continente.
Produtores alertam que a combinação desses fatores tem reduzido a produtividade
das lavouras, comprometido a qualidade dos frutos e elevado os custos de
produção, o que pode resultar em novos aumentos nos preços de alimentos como o
azeite de oliva.
Estudos climáticos mostram
que o número de dias de verão com condições extremas favoráveis à propagação de
incêndios, combinação de calor, seca e vento, dobrou desde 1981, reforçando a
vulnerabilidade estrutural dos olivais e de outras culturas mediterrâneas.
A preocupação é compartilhada
por instituições e entidades do setor agrícola. No início de julho, a Comissão
Europeia apontava uma redução dos preços do azeite de oliva desde abril, devido
ao excesso da produção italiana.
Contudo, revisou sua previsão
para a produção de azeite do bloco, que deve recuar 5% no ciclo 2025/26. A
queda é puxada sobretudo pela Grécia, onde a produção deve encolher 18%. O
relatório alertava que as perspectivas para a próxima safra dependiam da
ausência de novos eventos climáticos extremos, devido à vulnerabilidade dos
olivais.
Poucas semanas depois, esse
cenário de risco começou a se concretizar. Segundo o jornal britânico The
Guardian, a associação agrícola espanhola ASAJA afirma que os incêndios
florestais que se intensificaram no paísa partir de meados de julho atingiram
pomares, vinhedos, áreas agrícolas, estufas e olivais, afetando produtos como
frutas cítricas, abacates, amêndoas, hortaliças e azeitonas. Milhares de
hectares foram devastados.
Para a entidade, a principal
preocupação não é a redução das exportações, mas o aumento dos custos de
produção, que tende a ser repassado aos consumidores. A Espanha também segue
enfrentando restrições hídricas que reduzem a umidade do solo e aumentam o
risco de queda prematura das azeitonas.
Além disso, antes mesmo dos
incêndios de julho, a colheita de cereais no país já havia sido revista para
baixo, de 24 milhões para cerca de 18,5 milhões de toneladas, ampliando a
pressão sobre os preços agrícolas.
Por ser a maior produtora
mundial de azeite, a Espanha tem papel central na formação dos preços globais.
O portal Data España ressalta que a estabilidade do mercado continua frágil
após a queda recente dos custos do azeite, que sucedeu um período de valores
recordes. No início do ano, chuvas intensas provocaram alagamentos em áreas
produtoras e reduziram as previsões de colheita. Agora, a seca extrema e os
incêndios voltam a ameaçar a produção.
GRÉCIA LUTA CONTRA DESTRUIÇÃO
DE OLIVAIS
O IMPACTO SOBRE O AZEITE É
PARTICULARMENTE RELEVANTE NA GRÉCIA.
“É uma sensação terrível
quando você constrói algo com tanto esforço, e quando dinheiro não é fácil de
conseguir”, disse a produtora Anastasia Hatzoglou à Reuters sobre as queimadas
no país. As chamas, que se espalharam rapidamente, destruíram florestas
exuberantes e causaram grandes danos a oliveiras poucos meses antes da colheita,
um ritual anual muito aguardado em muitos lares gregos.
Ela afirmou que sua casa
sofreu danos extensos e que suas oliveiras foram queimadas. "Foi tanto
esforço, e quando você dedica cuidado à sua propriedade, à sua terra, ao azeite
que produz todos os anos, não é nada bom", contou.
Segundo o portal grego
Neakriti, o déficit hídrico agravado pelas ondas de calor e pelos incêndios tem
reduzido a produtividade dos olivais no país. Além dos danos provocados
diretamente pelo fogo, produtores relatam prejuízos causados pela fumaça, pela
piora da qualidade do ar e pela maior incidência de pragas e doenças
favorecidas pelas temperaturas elevadas. O resultado pode ser a redução do
tamanho dos frutos e da qualidade do azeite produzido.
O portal italiano Dissapore
descreve cenário semelhante em outros países mediterrâneos. De acordo com a
publicação, incêndios atingiram olivais na Grécia, Itália e Portugal. O calor
prolongado facilita também o avanço de pragas.
PRODUÇÃO AGRÍCOLA AFETADA
Os impactos climáticos não se
limitam às oliveiras. Segundo o jornal The Guardian, a associação francesa Légumes
de France estima perdas de milhares de toneladas de hortaliças, incluindo
alface, cenoura, alho, cebola e alho-poró. Em algumas regiões, a produção pode
cair até 50% devido à falta de chuva e à escassez de água. O clima extremo
ainda afeta vinhedos de regiões tradicionais como Champagne, Bordeaux e
Borgonha, onde o amadurecimento acelerado das uvas ameaça reduzir os
rendimentos da safra.
A Europa enfrentou em junho e
julho de 2026 uma das ondas de calor mais severas já registradas, com
temperaturas acima de 40 °C em países como Alemanha, França, Dinamarca e
República Tcheca. O calor extremo provocou mais de 1.300 mortes apenas na
última semana de junho, além de interrupções em serviços públicos, derretimento
de asfalto e cancelamento de eventos em várias cidades europeias.
Cientistas afirmam que esse
tipo de evento teria sido "praticamente impossível” sem o aquecimento
global, e que a Europa já aquece duas vezes mais rápido que a média mundial,
com temperaturas médias 2,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Esse conjunto
de fatores consolidou 2026 como um dos verões mais extremos do continente,
agravando a pressão sobre sistemas agrícolas vulneráveis. Fonte: Redação DW-04/08/2026
