domingo, 26 de abril de 2026
quinta-feira, 23 de abril de 2026
O Louco de Deus no Fim do Mundo
A história da Igreja
Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz
escritor espanhol
Assim se definiu o escritor
espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa
Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra
pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se
sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.
O Vaticano havia proposto a
Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar: abrir completamente
suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse,
acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta. Como
responder que não?
Cercas entrou por aquelas
portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas,
sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe
idosa e enferma.
O resultado foi o livro O
Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com
a crônica da viagem.
Cercas o define como um
romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para
mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e
alguém tentando decifrá-lo".
O enigma do livro não é uma
questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição
da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.
"Vivemos em um mundo sem
Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante
(ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos
encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao
mundo.
A BBC News Mundo (o serviço
em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival
Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.
BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO
SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?
Javier Cercas: Não sei,
duvido muito.
É claro que existem algumas
coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se
está na moda.
Cada país é diferente, e cada
circunstância é distinta.
A Europa não é mais o centro
do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo.
O centro do catolicismo,
agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?
Eu quis basicamente me
perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte
do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.
E o que está acontecendo no
Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.
BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO
QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A
RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?
Cercas: Nada substituiu a
religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.
Nós nos esquecemos de um
ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.
Isso é incrível. Na Idade
Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava
sentido a tudo.
Durante séculos e séculos, a
humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando
Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco
dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este
grande relato cai.
Houve tentativas de
substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o
marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.
Não existe um relato que
substitua o relato de Deus, o relato da religião.
A condição pós-moderna
consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês
Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.
Cada um busca a vida à sua
maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na
arte, na política, no consumo...
E, às vezes, muitas pessoas
se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência
de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner
[1929-2020].
Acredito que isso fica
visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato,
o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de
Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.
E é possível que muitas
pessoas sintam falta dela.
BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ
CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.
Cercas: Esse nó na garganta é
o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.
E tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.
É claro que foi um erro, pois
a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e
inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.
E o meu caso não é uma
exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav
Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se
autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como
uma espécie de sacerdócio.
BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO
"CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.
Parece que já havíamos
superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão.
Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que
a usam como desculpa para seus projetos políticos.
Cercas: O constantinismo é a
união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.
E a Igreja Católica de hoje —
Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o
Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].
Outra questão é que outras
igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas
pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios
projetos políticos.
Isso é mortal, é catastrófico
por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele
precisa ser um contrapoder.
BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS
QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...
Cercas: É que um ponto
elementar está esquecido.
Jesus Cristo era alguém
perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.
"Eu não vim trazer a
paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são
iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela
escravidão.
Anda hoje é perigoso, é
revolucionário dizer isso.
Jesus Cristo não era um homem
que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que
andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes,
prostitutas, com os párias da sociedade.
Este é o verdadeiro
cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.
É um cristianismo
constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual
o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.
Em grande parte, a história
da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.
Existe uma frase de um grande
escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início
do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao
cristianismo é o espírito burguês."
BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE QUE FRANCISCO
ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO CLERICALISMO? DO SEU
PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?
Cercas: E do ponto de vista
de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um
dos seus principais inimigos.
O clericalismo é a ideia de
que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da
Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.
Francisco tinha uma imagem
muito boa, era um homem com imagens literárias.
Ele havia sido professor de
literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos
fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do
rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É
desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."
Não sou eu que digo isso,
quem dizia era ele.
Sem ir muito longe, os abusos
sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais,
pode ter a tentação de abusar deles.
Neste sentido, sim, é claro
que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é
simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este
respeito.
BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO
PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?
Cercas: Sim, com certeza.
Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.
Francisco entrou como um
vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele
fez isso, acredito que fez.
Este entrou de forma
muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a
Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo
de Cristo.
O que acontece é que alguns
papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou
foi Francisco, sem sombra de dúvida.
O novo papa segue o mesmo
caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.
Desde o primeiro dia, o que
se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos
inovador.
Ele vem acalmar as águas. Vem
unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma
Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito
radical, dentro da própria Igreja.
E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.
Existe um ponto que sim, é
verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.
Francisco falava em uma
Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o
cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os
cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o
fim do mundo.
É isso que fazem os
missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão.
Porque não vão evangelizar
como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não
têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.
Este homem tem uma
particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o
torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.
BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE
SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ
ENCONTROU O QUE ESPERAVA?
Cercas: Certamente, não.
Veja, o meu maior esforço
para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.
Todo mundo está repleto de
preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do
cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a
Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.
Nada do que eu esperava se
realizou.
Tudo é surpreendente, desde o
princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir
as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que
quisesse, além de acompanhar o papa.
E isso segue até o final do
livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.
Eu brinco muito com o livro.
Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também
era a crença do papa Francisco.
Por isso, é um livro
humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os
romances.
E, é claro, eu brinco com o
fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios
humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que
circulam sobre o Vaticano.
Todos estes mistérios são
simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.
'Tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas
BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A
FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU
NÃO?
Eu passei de ateu a ser
agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é
um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".
Ou seja, da mesma forma que é
impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que
Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo?
A verdade é que, seja você
ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de
verdade. Da minha mãe, por exemplo.
Na verdade, ela é a autêntica
protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé
com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou
com a dos missionários.
Ou seja, eu senti inveja da
serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que
eu nunca irei conseguir.
O livro tenta ser divertido.
Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias,
como a fé ou a relação com a razão.
A fé não é algo voluntário.
Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais
força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter
fé."
A fé ou você tem, ou não tem.
Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo,
embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.
Por isso, acredito realmente
que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão
quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé
autêntica).
BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO
LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O
PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO,
ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?
Cercas: Obviamente, a Bíblia
é um texto literário deslumbrante. É incontestável.
Mesmo que você não seja
religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição
literária.
No livro, de qualquer forma,
destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.
Por um lado, é uma linguagem
antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.
Jesus Cristo atraía pelos
seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de
Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são
extraordinárias.
Ele seduzia pelo seu
posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.
A linguagem da Igreja
envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a
Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é
hermética, não é atraente e ninguém a entende.
A literatura e a religião
ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem
um grave problema linguístico.
Embora seja muito diferente
de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu
antecessor, segundo Javier Cercas
BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA,
MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE
QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO
A DEUS.
Ou quando você ouve, como
você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de
Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá
aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu,
de barba e tudo."
Cercas: Bem, eu cito o filósofo
romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos crentes,
ele deve a Bach."
E é verdade, você ouve o
Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como
dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.
É claro que a Igreja Católica
foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o
literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.
Às vezes, me pergunto, como
ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com
outra pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?
Nenhuma instituição durou
tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez
nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e
poder contar?
Uma instituição que, além
disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece
normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.
Basta pensar que, no centro
desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.
É algo absolutamente incrível
e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas,
inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.
Por isso, é algo
extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?
Cercas: Não sei. Se eu fosse
crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.
Existe algo muito poderoso no
cristianismo.
Cristo era um revolucionário
social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se rebelou apenas
socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.
Isso está no centro do
cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a
morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.
O cristianismo diz que
"você não vai morrer". É uma imensa promessa.
Esta rebelião tem enorme
potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em
seu ser."
É o que define os seres
humanos. Queremos continuar sendo.
E o cristianismo oferece um
caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne
e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata
este livro.
A literatura, como a
religião, é uma forma de transcendência, segundo Cercas
BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO
DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?
Cercas: Quando me fizeram a
proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha
mãe.
Minha mãe era uma mulher
profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia
que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.
Ela não dizia isso porque
fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo.
Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.
Este livro trata de um louco
sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de
Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de
Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o
fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.
Uma pergunta elementar e, por
sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais
enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou
não?
Neste livro, o aparente
protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era
meu pai em Anatomia de Um Instante.
Mas você tem toda a razão.
Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.
Este é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.
E ao me investigar, investigo
o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.
BBC: VOCÊ ACREDITA QUE
FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?
Cercas: É que não sou crente.
Este é o meu problema.
Além disso, a ressurreição da
carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como
estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom.
Não acredito que exista Zoom
no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas
formas de transcendência.
Existe, por exemplo, uma lei
que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se
transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.
Ou seja, agora que meus pais
estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque
as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se
transformaram nas minhas células.
Não se trata de imaginação, é
um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.
O escritor espanhol Miguel de
Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."
Algo disso existe. Meus pais,
de alguma forma, continuam vivendo em mim.
Quando me olho no espelho,
vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha
mãe.
Mas a literatura busca uma
forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de
Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido
há tantos séculos.
O que nós, seres humanos, não
queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem
que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.
Precisarei aceitar, não há
remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do
que desaparecer para sempre.
Parece horrível, parece
injusto, parece idiota. Não gosto.
A história da Igreja
Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz
escritor espanhol
Javier Cercas é o autor de O
Louco de Deus no Fim do Mundo
"Sou ateu. Sou
anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio rigoroso."
Assim se definiu o escritor
espanhol Javier Cercas a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o papa
Francisco (1936-2025). Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra
pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se
sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.
Cercas entrou por aquelas
portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na adolescência. Mas,
sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe
idosa e enferma.
O resultado foi o livro O
Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com
a crônica da viagem.
Cercas o define como um
romance policial, "como são, no fundo, todos os romances importantes para
mim, a começar por Dom Quixote, já que, em todos eles, existe um enigma e
alguém tentando decifrá-lo".
O enigma do livro não é uma
questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição
da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.
"Vivemos em um mundo sem
Deus", conta o autor de Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante
(ambos da Ed. Biblioteca Azul, 2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos
encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao
mundo.
A BBC News Mundo (o serviço
em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o Hay Festival
Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026.
BBC NEWS MUNDO: SEU LIVRO
SOBRE O PAPA, O DISCO DE ROSALÍA... A RELIGIÃO ESTÁ NA MODA?
Javier Cercas: Não sei,
duvido muito.
É claro que existem algumas
coisas interessantes, como este livro, como o disco de Rosalía, mas não sei se
está na moda.
Cada país é diferente, e cada
circunstância é distinta.
A Europa não é mais o centro
do cristianismo. O catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se
reduzindo.
O centro do catolicismo,
agora, está na África, mas será que isso significa que a religião está na moda?
Eu quis basicamente me
perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e na maior parte
do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus.
Isso que foi tão importante
durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos
com isso?
E o que está acontecendo no
Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.
BBC: VIVEMOS EM UM MUNDO NO
QUAL NÃO EXISTE MAIS UM RELATO QUE PRETENDA DAR SENTIDO A TUDO, COMO FAZIA A
RELIGIÃO. VOCÊ ACHA QUE SUBSTITUÍMOS A RELIGIÃO PELO QUÊ?
Nós nos esquecemos de um
ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo.
Isso é incrível. Na Idade
Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava
sentido a tudo.
Durante séculos e séculos, a
humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando
Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco
dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir daquele momento, este
grande relato cai.
Houve tentativas de
substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o
marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.
Não existe um relato que
substitua o relato de Deus, o relato da religião.
A condição pós-moderna
consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês
Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.
Cada um busca a vida à sua
maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas; outros, na
arte, na política, no consumo...
E, às vezes, muitas pessoas
se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência
de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner
[1929-2020].
Acredito que isso fica
visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato,
o protagonista se autointitula "o louco sem Deus", como o louco de
Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global.
E é possível que muitas
pessoas sintam falta dela.
BBC: E ISSO GERA, COMO VOCÊ
CONTA NO LIVRO, UM NÓ NA GARGANTA.
Cercas: Esse nó na garganta é
o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia.
E tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura.
É claro que foi um erro, pois
a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e
inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.
Ou seja, que a literatura, de
alguma forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião.
E o meu caso não é uma
exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav
Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se autointitularam
"sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como uma espécie de
sacerdócio.
BBC: VOCÊ TAMBÉM FALA DO
"CONSTANTINISMO", A UNIÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO.
Cercas: O constantinismo é a
união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja.
E a Igreja Católica de hoje —
Francisco era um exemplo — combate radicalmente o constantinismo. Pelo menos o
Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14].
Outra questão é que outras
igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas
pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios
projetos políticos.
Isso é mortal, é catastrófico
por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode estar junto do poder, ele
precisa ser um contrapoder.
BBC: ESTA É OUTRA DAS IDEIAS
QUE VOCÊ APROFUNDA EM O LOUCO DE DEUS...
Cercas: É que um ponto
elementar está esquecido.
Jesus Cristo era alguém
perigoso, era subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas.
"Eu não vim trazer a
paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as mulheres são
iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela
escravidão.
Anda hoje é perigoso, é
revolucionário dizer isso.
Jesus Cristo não era um homem
que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que
andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes,
prostitutas, com os párias da sociedade.
Este é o verdadeiro
cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo.
É um cristianismo
constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual
o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o cristianismo.
Em grande parte, a história
da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo.
Existe uma frase de um grande
escritor francês, Charles Péguy [1873-1914], revolucionário e místico do início
do século 20, que é corretíssima: "O que há de mais contrário ao
cristianismo é o espírito burguês."
Mas o que nós conhecemos é um
cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.
Javier Cercas acompanhou o
papa Francisco em uma viagem à Mongólia, em setembro de 2023
BBC: VOCÊ DIZ ESPECIFICAMENTE
QUE FRANCISCO ERA ANTICLERICAL. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS CAUSADOS PELO
CLERICALISMO? DO SEU PONTO DE VISTA, A IGREJA CONTINUA SENDO CLERICAL?
O clericalismo é a ideia de
que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da
Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis.
Francisco tinha uma imagem
muito boa, era um homem com imagens literárias.
Ele havia sido professor de
literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos
fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do
rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É
desse estar acima que vem grande parte dos males da Igreja."
Não sou eu que digo isso,
quem dizia era ele.
Sem ir muito longe, os abusos
sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais,
pode ter a tentação de abusar deles.
Neste sentido, sim, é claro
que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é
simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este
respeito.
BBC: E COMO VOCÊ VÊ O NOVO
PAPA? VOCÊ ACREDITA QUE ELE TAMBÉM SEJA ANTICLERICAL?
Cercas: Sim, com certeza.
Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito prudente.
Francisco entrou como um
vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele
fez isso, acredito que fez.
Este entrou de forma
muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a
Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo
de Cristo.
O que acontece é que alguns
papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou
foi Francisco, sem sombra de dúvida.
O novo papa segue o mesmo
caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental.
Desde o primeiro dia, o que
se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos
inovador.
Ele vem acalmar as águas. Vem
unir o que Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma
Igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito
radical, dentro da própria Igreja.
E vem reunir um pouco as
coisas. Mas ainda não sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.
Existe um ponto que sim, é
verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um missionário.
Francisco falava em uma
Igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o
cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical, que faz o mesmo que os
cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família etc. e se lançar para o
fim do mundo.
Porque não vão evangelizar
como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não
têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo.
Este homem tem uma
particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o
torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.
BBC: COMO VOCÊ ACREDITAVA QUE
SERIA O VATICANO ANTES DE ENTRAR LÁ E TER ACESSO A TANTAS PESSOAS? VOCÊ
ENCONTROU O QUE ESPERAVA?
Cercas: Certamente, não.
Veja, o meu maior esforço
para escrever este livro foi eliminar minha visão preconceituosa.
Todo mundo está repleto de
preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do
cristianismo etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a
Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo.
Nada do que eu esperava se
realizou.
Tudo é surpreendente, desde o
princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir
as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que
quisesse, além de acompanhar o papa.
E isso segue até o final do
livro, que, se fosse crente, diria que é um pequeno milagre.
Eu brinco muito com o livro.
Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também
era a crença do papa Francisco.
Por isso, é um livro
humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente os
romances.
E, é claro, eu brinco com o
fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios
humanos, o Santo Sudário, enfim, todo este tipo de clichê, de lendas que
circulam sobre o Vaticano.
Todos estes mistérios são
simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.
'Tentei combater a angústia,
ou seja, o vazio que Deus havia deixado, com a literatura', diz Javier Cercas
BBC: VOCÊ DIZ NO LIVRO QUE A
FÉ É UM SUPERPODER. O QUE VOCÊ ACREDITA SER MAIS FÁCIL, TER ESSE SUPERPODER OU
NÃO?
Cercas: Vejamos, não sei se
você compreende.
Eu passei de ateu a ser
agnóstico. Hannah Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é
um estúpido que acredita saber o que não se pode saber".
A verdade é que, seja você
ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos crentes de
verdade. Da minha mãe, por exemplo.
Na verdade, ela é a autêntica
protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé
com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou
com a dos missionários.
Ou seja, eu senti inveja da
serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que
eu nunca irei conseguir.
O livro tenta ser divertido.
Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias,
como a fé ou a relação com a razão.
A fé não é algo voluntário.
Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais
força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter
fé."
A fé ou você tem, ou não tem.
Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo,
embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer.
Por isso, acredito realmente
que a grande escritora americana Flannery O'Connor [1925-1964] tinha razão
quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do que não ter" (a fé
autêntica).
BBC: QUANDO VOCÊ FALA NO
LIVRO, POR EXEMPLO, DA BELEZA DA HOMILIA DO PAPA NA MONGÓLIA, OBSERVAMOS O
PODER DE SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. ATÉ QUE PONTO VAI A RELAÇÃO, NESTE SENTIDO,
ENTRE A RELIGIÃO E A LITERATURA?
Cercas: Obviamente, a Bíblia
é um texto literário deslumbrante. É incontestável.
Mesmo que você não seja
religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição
literária.
No livro, de qualquer forma,
destaco que a Igreja tem um problema com a linguagem.
Por um lado, é uma linguagem
antiga, sem interesse. Este é um problema enorme da Igreja.
Jesus Cristo atraía pelos
seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que, contra a pessoa de
Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias.
Ele seduzia pelo seu
posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem.
Mas também atraía pelo que
dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus
discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de
ouro.
A linguagem da Igreja
envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a
Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é
hermética, não é atraente e ninguém a entende.
Embora seja muito diferente
de Francisco na forma, Leão 14 segue o mesmo caminho reformista do seu
antecessor, segundo Javier Cercas
BBC: E NÃO SÓ A LITERATURA,
MAS TAMBÉM A ARTE AJUDAVA A LEVAR AS PESSOAS PARA A RELIGIÃO. É O QUE ACONTECE
QUANDO VOCÊ ENTRA EM UMA CATEDRAL E SE SENTE MINÚSCULO NAQUELE ESPAÇO DEDICADO
A DEUS.
Ou quando você ouve, como
você conta com muito humor no livro, uma música de Bach (1685-1750) no metrô de
Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá se abrir e Deus irá
aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus babacas? Aqui estou eu,
de barba e tudo."
Cercas: Bem, eu cito o
filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não sabe quantos
crentes ele deve a Bach."
E é verdade, você ouve o
Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como
dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro.
É claro que a Igreja Católica
foi totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o
literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente.
Às vezes, me pergunto, como ateu
e anticlerical, como aceitei escrever um livro como este. E respondo com outra
pergunta: como não aceitar escrever um livro como este?
Nenhuma instituição durou
tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez
nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e
poder contar?
Uma instituição que, além
disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela e nos parece
normal, mas não é normal, é a mais incomum do mundo.
Basta pensar que, no centro
desta instituição, está algo chamado de ressurreição da carne e a vida eterna.
É algo absolutamente incrível
e que convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas,
inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história.
Por isso, é algo
extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?
BBC: VOCÊ CHEGOU À CONCLUSÃO
DE QUE O EXTRAORDINÁRIO NÃO É O PAPA, MAS A IGREJA, QUE CONTINUA EXISTINDO 2
MIL ANOS DEPOIS, ENQUANTO IMPÉRIOS E REINADOS CAÍRAM. QUAL É O SUPERPODER DA
IGREJA?
Cercas: Não sei. Se eu fosse
crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante.
Existe algo muito poderoso no
cristianismo.
Isso está no centro do
cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso porque a
morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente nada, não quero morrer.
O cristianismo diz que
"você não vai morrer". É uma imensa promessa.
Esta rebelião tem enorme
potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo ser quer persistir em
seu ser."
É o que define os seres
humanos. Queremos continuar sendo.
E o cristianismo oferece um
caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne
e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata
este livro.
BBC: SUA MÃE ESTÁ NO CENTRO
DO LIVRO. ATÉ QUE PONTO VOCÊ FOI MOVIDO PELO AMOR FILIAL?
Cercas: Quando me fizeram a
proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que pensei foi na minha
mãe.
Minha mãe era uma mulher
profundamente crente, seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia
que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos.
Ela não dizia isso porque
fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo.
Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.
Este livro trata de um louco
sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele vai em busca do louco de
Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de
Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de Deus. E foi com ele até o
fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta pergunta.
Uma pergunta elementar e, por
sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais
enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá ver meu pai depois da morte? Sim ou
não?
Neste livro, o aparente
protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é minha mãe, como era
meu pai em Anatomia de Um Instante.
Mas você tem toda a razão.
Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais.
Este é um fato e, de alguma
forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo.
E ao me investigar, investigo
o que somos nós, seres humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.
BBC: VOCÊ ACREDITA QUE
FRANCISCO ESTEJA AGORA CONVERSANDO COM SUA MÃE?
Cercas: É que não sou crente.
Este é o meu problema.
Não acredito que exista Zoom
no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas existem muitas
formas de transcendência.
Existe, por exemplo, uma lei
que diz "a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se
transforma". E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física.
Ou seja, agora que meus pais
estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque
as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se
transformaram nas minhas células.
Não se trata de imaginação, é
um fato constatável. E já é uma forma de transcendência.
O escritor espanhol Miguel de
Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são os filhos."
Algo disso existe. Meus pais,
de alguma forma, continuam vivendo em mim.
Quando me olho no espelho,
vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha
mãe.
Mas a literatura busca uma
forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de
Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido
há tantos séculos.
O que nós, seres humanos, não
queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem
que irão aceitar quando o momento chegar. Eu não gosto disso.
Precisarei aceitar, não há
remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais divertido para mim do
que desaparecer para sempre.
Parece horrível, parece
injusto, parece idiota. Não gosto.
BBC News Mundo - 7 fevereiro
2026 – autor - Paula Rosas
quarta-feira, 1 de abril de 2026
sábado, 28 de março de 2026
quarta-feira, 25 de março de 2026
Cidade de SP consumiu cerca de 20 milhões de pães franceses por dia em 2025
Volume anual chega a 7,3
bilhões de unidades; alta de até 12% em relação a 2024 reforça tradição do
pãozinho. Dia do Pão Francês é celebrado no sábado (21).
RESUMO
·Em 2025, a cidade
de São Paulo registrou o consumo de cerca de 20 milhões de unidades por dia, o
que representa aproximadamente 7,3 bilhões ao longo do ano.
·O volume diário
atual mostra crescimento em relação a 2024, quando o consumo era de cerca de 18
milhões de unidades por dia.
·A alta, estimada
entre 10% e 12%, reflete a retomada do consumo e reforça a presença consolidada
do produto no hábito alimentar dos paulistanos.
Presente no café da manhã, no
lanche da tarde e até como acompanhamento das refeições, o pão francês segue
como protagonista nas padarias da capital paulista.
Em 2025, a cidade de São
Paulo registrou o consumo de cerca de 20 milhões de unidades por dia, o que
representa aproximadamente 7,3 bilhões ao longo do ano, segundo levantamento
enviado Sampapão, entidade que representa os industriais de panificação e
confeitaria de São Paulo.
O volume diário atual mostra
crescimento em relação a 2024, quando o consumo era de cerca de 18 milhões de
unidades por dia. A alta, estimada entre 10% e 12%, reflete a retomada do
consumo e reforça a presença consolidada do produto no hábito alimentar dos paulistanos.
Além de símbolo cultural, o
pão francês também tem peso econômico significativo. Apenas na cidade de São
Paulo, o faturamento gerado com o produto pode chegar a aproximadamente R$ 6
bilhões a R$ 7 bilhões por ano, considerando o preço médio praticado nas
padarias.
Para o presidente do
Sampapão, a data comemorativa é uma oportunidade de fortalecer a relação entre
o setor e os consumidores.
“O pão francês é o grande convite diário para que as pessoas entrem nas nossas padarias. Celebrar o dia 21 de março com promoções e engajamento nas redes sociais é a nossa forma de agradecer ao paulistano por essa fidelidade histórica.
Mostramos, assim, que a
panificação sabe unir a maestria e a tradição das fornadas quentes com as novas
tendências de relacionamento com o consumidor”, destaca o presidente do
Sampapão. Fonte: g1 SP-21/03/2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Igreja sagrada família atinge altura máxima após 144 anos
A Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, atingiu nesta sexta-feira a sua altura máxima prevista de 172,5 metros com a colocação da cruz no topo de sua torre central, 144 anos após o início da construção do edifício.
Com a ajuda de um grande
guindaste, os operários concluíram a instalação da cruz na torre de Jesus
Cristo, a mais alta das 18 torres da basílica projetada no século 19 pelo
arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926), o gênio espanhol do Modernismo. A cruz tem
17 metros de altura e 13,5 metros de largura.
Desde outubro do ano passado,
quando atingiu 162,9 metros de altura, a Sagrada Família é a igreja mais alta
do mundo, ultrapassando a igreja luterana Ulmer Münster, em Ulm, na Alemanha.
A aparência da Sagrada
Família mudou consideravelmente nos últimos 15 anos, à medida que a construção
progredia, com a conclusão das quatro torres dos Evangelistas, assim como da
torre da Mãe de Deus.
CRUZ REVESTIDA DE VIDRO E
CERÂMICA BRANCA VITRIFICADA
A peça instalada nesta
sexta-feira é uma grande cruz com geometria de dupla torção, o mesmo método que
Gaudí usou para as colunas da basílica. Ela é revestida de vidro e cerâmica
branca vitrificada, para se assemelhar a um cristal, e nas extremidades dos
braços horizontais haverá janelas de onde se poderá admirar a cidade.
O arquiteto responsável pela
Sagrada Família, Jordi Faulí, disse que a torre foi criada precisamente com
cerâmica e vidro para que parecesse "resplandecente".
Fabricada na Alemanha, a cruz
chegou a Barcelona em quatorze peças maciças que foram pré-montadas na própria
Sagrada Família, em uma plataforma de trabalho localizada a 54 metros acima da
nave central. A cruz consiste em um braço inferior, quatro braços horizontais e
um braço vertical – o único que ainda falta instala, Cada braço pesa
aproximadamente doze toneladas.
"Hoje é um dia para
celebrar e lembrar de todos aqueles que trabalharam para tornar esta torre uma
realidade", disse o arquiteto.
Quando o trabalho de fixação
da cruz estiver concluído, a Sagrada Família enfrentará a construção da
terceira e última fachada do templo, a fachada da Glória, finalizando assim a
obra-prima de Gaudí, cuja construção começou em 1882.
CONCLUSÃO AINDA SEM PRAZO
DEFINIDO
A colocação da cruz marca um
passo importante na criação do monumento mais visitado da Espanha, com 4,8
milhões de ingressos vendidos em 2024, cuja construção sofreu inúmeros
contratempos desde que Gaudí assumiu o projeto.
Após o revés da pandemia de
covid-19, que forçou o abandono dos planos de concluir o templo em 2026, a
comissão de construção, uma fundação canônica privada, evita definir uma nova
data definitiva para a conclusão, embora a expectativa seja de concluí-la em
uma década.
Esses planos dependem de não
haver mais contratempos que afetem o fluxo de visitantes, a principal fonte de
financiamento das obras, e da resolução das divergências relativas à construção
dos controversos acessos à fachada da Glória, a entrada principal que ainda
precisa ser construída.
Segundo o projeto defendido
pelos construtores, a fachada deverá ser precedida por uma grande escadaria e
uma praça, cuja construção implicaria a demolição de vários edifícios
residenciais, algo a que os moradores se opõem.
O conflito terá de ser
mediado pela Câmara Municipal, que, em meio à crise habitacional da cidade,
afirma que não haverá acordo que não garanta soluções habitacionais adequadas
para os moradores. DW-sábado, 21 de
fevereiro de 2026
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Pobreza avança na Alemanha e atinge 16% da população do país
Estatísticas oficiais consideram como pobres quem tem renda inferior a 60% da renda média nacional. Em um ano, grupo aumentou em 200 mil, totalizando 13,3 milhões de pessoas. Alemães sofrem com alta do custo de vida.
O número de pessoas ameaçadas
pela pobreza aumentou na Alemanha : passou de 13,1 milhões em 2024 para 13,3
milhões em 2025, o equivalente a 16,1% da população.
Os dados são do microcenso do
Escritório Federal de Estatísticas (Destatis), que segue uma definição relativa
da União Europeia: é considerado pobre aquele que tem renda inferior a 60% da
renda média da população nacional.
Esse valor varia de acordo
com a situação familiar de cada um. No caso dos solteiros, é considerado vulnerável
à pobreza quem tem renda líquida de até 1.446 euros por mês (R$ 8.920). Para
famílias compostas por dois adultos e dois menores com até 14 anos, esse limiar
é de 3.036 euros (R$ 18.729).
RISCO É MAIOR ENTRE
ESTRANGEIROS
Desempregados e pessoas que
vivem sozinhas são os grupos mais afetados (64,9% e 30,9%, respectivamente),
seguidos de mães ou pais solo (28,7%) e aposentados (19,1%).
O risco de pobreza também é
significativamente maior entre estrangeiros, atingindo quase um terço deste
grupo (32,5%). Já entre alemães, esse percentual é de 13,2%. Ainda assim, o
percentual aumentou nos dois grupos em relação a 2024.
CUSTO DE VIDA AUMENTOU DESDE
A GUERRA NA UCRÂNIA
Os alemães têm sofrido com
uma alta acentuada no custo de vida, puxada principalmente pelos aluguéis e
pela escalada geral de preços desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
"A pobreza não é só um
número abstrato", declarou Katja Kipping, da Associação Paritária
Nacional, que reúne entidades privadas dedicadas à promoção do bem-estar social
no país. "Para os afetados, a pobreza significa crianças sem casaco de
inverno, famílias que precisam economizar no aquecimento, pessoas que postergam
uma visita ao dentista."
Michaela Engelmeier, da
Associação Social Alemã, lembrou os debates internos recentes no governo sobre
cortes na assistência social : "Em vez de discutir cortes, é preciso taxar
grandes fortunas de forma justa e [garantir] uma seguridade social consistente
." Fonte:DW-terça-feira, 3 de
fevereiro de 2026
domingo, 8 de fevereiro de 2026
Nenhum estado atinge 30% de jovens com matemática básica após pandemia
O percentual de jovens que concluem o ensino médio até os 18 anos com aprendizado acima do básico em matemática diminuiu no Brasil entre 2019 e 2023, anos pré e pós-pandemia. A conclusão é do IIE (Índice de Inclusão Educacional).
No período, o indicador
nacional caiu de 25,5% para 21,4% —uma redução de 4,1 pontos percentuais.
Portanto, apenas dois a cada dez formados tinham o conhecimento esperado na
disciplina.
O IIE foi desenvolvido pela
organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura. Ele retrata a proporção
de indivíduos a concluir a educação básica até a idade esperada e com
desempenho minimamente adequado nos exames de proficiência.
Para isso, a ferramenta
combina informações do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), do Censo
Escolar e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua.
Para o Saeb, por exemplo, o
patamar de conhecimento essencial em matemática corresponde a 300 pontos na
escala de proficiência, que chega a 500. Abaixo disso, os estudantes demonstram
dificuldade para resolver problemas com porcentagens, interpretar gráficos ou
lidar com situações numéricas do cotidiano.
No cenário pós-pandemia,
nenhum estado brasileiro conseguiu fazer ao menos 30% dos jovens atingirem esse
nível de aprendizado na idade certa.
Segundo os dados do IIE, a piora
chegou a todas as regiões do país, inclusive aquelas com os melhores resultados
antes da emergência sanitária.
"Tivemos uma geração
excluída do aprendizado em matemática", avalia David Saad,
diretor-presidente do Instituto Natura e cocriador do IIE. "Esses jovens
formados em 2023 foram muito impactados pela pandemia, claro, mas os dados
indicam um problema maior."
Para ele, há um problema de
metas e estrutura do ensino de matemática no país.
"O Brasil faz isso muito
bem com alfabetização, por exemplo. Foi criado um programa e estabelecido aonde
queremos chegar", diz. "Que política pública temos focada em
matemática? É preciso um trabalho nessa direção", segue. Fonte: Folha de São Paulo - 2.fev.2026
domingo, 25 de janeiro de 2026
Covid-19 mata 1,7 mil brasileiros em 2025
Dados da Fiocruz revelam 10.410 casos graves da doença no último ano, com baixa adesão à imunização preocupando autoridades sanitárias
Plataforma Infogripe da
Fiocruz registrou 55 óbitos e 2.440 internações de crianças menores de 2 anos
no último ano, enquanto cobertura vacinal infantil atingiu apenas 3,49%
O Brasil contabilizou
aproximadamente 1,7 mil óbitos por Covid-19 em 2025, mesmo após cinco anos do
início da campanha de imunização contra a doença no país. Os dados foram
divulgados pela plataforma Infogripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) nesta
sexta-feira (23/01). O monitoramento também identificou 10.410 pessoas que
desenvolveram quadros graves após infecção pelo coronavírus no último ano.
A baixa adesão à vacinação
preocupa as autoridades sanitárias. Das 21,9 milhões de doses distribuídas pelo
Ministério da Saúde aos estados e municípios em 2025, apenas 8 milhões foram
efetivamente aplicadas na população, representando menos de 40% do total
disponibilizado. Fonte: TMC - 24 de janeiro de 2026
sábado, 24 de janeiro de 2026
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Corpo humano não funciona como deveria em temperatura acima de 35°C
A onda de calor que elevou as temperaturas na semana do Natal, no Rio de Janeiro, São Paulo e em outros seis estados ao redor, no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), deve se estender até a próxima segunda-feira (29). Para essas áreas, o órgão emitiu aviso vermelho, de grande perigo, o que significa temperaturas 5º C acima da média por mais de 5 dias e alta probabilidade de risco à vida, danos e acidentes.
Com aumento do calor extremo,
resultado especialmente das mudanças climáticas induzidas pelo homem, uma série
de medidas são necessárias para diminuir o impacto na saúde. De acordo com o
clínico geral e coordenador do Pronto Atendimento dos Hospital Sírio-Libanês,
em São Paulo, Luiz Fernando Penna, esse quadro tem potencial de gerar a
falência térmica do corpo.
"Essa é uma emergência
médica caracterizada pela confusão mental, pele quente e seca e temperatura
corporal acima de 40º C", explicou o profissional de saúde.
Se o corpo apresentar esses
sinais e sintomas, é necessário buscar atendimento médico de imediato, advertiu
o médico.
Na avaliação do médico do
Sírio, o impacto do calor na saúde é subestimado. "Muitas pessoas
acreditam que causa apenas mal-estar, mas estamos falando de riscos reais, que
incluem desde quedas de pressão até falência térmica", alertou.
Quando está muito quente,
Penna explica que o corpo humano trabalha no limite. O organismo aumenta a
sudorese, o que faz acelerar os batimentos cardíacos e dilata os vasos
sanguíneos. "Esses mecanismos, porém, têm limite. E, quando falham,
instala-se a falência térmica", explicou.
O calor extremo também agrava
o quadro de quem convive com doenças crônicas, tais como hipertensão,
insuficiência cardíaca, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (Dpoc) e
doença renal crônica.
Pessoas que fazem uso de
diuréticos, anti-hipertensivos, antidepressivos, anticolinérgicos e
antipsicóticos também precisam redobrar a atenção. Os medicamentos podem
aumentar a dilatação ou descontrolar a regulação térmica natural do corpo.
"Para quem já tem uma
condição de base, o calor impõe uma sobrecarga perigosa", acrescentou o
médico.
As altas temperaturas
interferem ainda no sono, prejudicando o humor, aumentando a irritabilidade e
reduzindo a produtividade, já que afetam o tempo de descanso, a memória e a
tomada rápida de decisões.
Para essas situações, não
basta se hidratar, é preciso se proteger, evitar a exposição entre 10h e 16h,
usar roupas leves e claras, priorizar ambientes ventilados e não fazer
exercícios físicos. Aqueles trabalhadores que não podem evitar sair no calor
extremo, como profissionais da construção civil, de entregas e da coleta de
lixo, devem fazer pausas frequentes nas horas mais quentes, recomenda.
"Não existe adaptação
completa para ondas de calor extremas e repetidas", explica Fernando
Penna. "Acima de 35°C com alta umidade, o corpo humano simplesmente não consegue
funcionar como deveria".
A recomendação do coordenador
de pronto-socorro é evitar situações de riscos e reconhecer sinais precoces de
falência térmica para evitar o colapso.
No Rio de Janeiro, já foi
comprovado por pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, de fevereiro de 2025, que as
altas temperaturas estão relacionadas ao aumento da mortalidade. O risco é
maior para idosos e pessoas com alguma doença, como diabetes e hipertensão,
além de Alzheimer, insuficiência renal e infecções urinárias. O trabalho da
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) analisou mais de 800 mil
mortes entre 2012 e 2024.
"A maioria dos estudos
sobre calor e mortalidade concentra suas análises em doenças cardiovasculares e
respiratórias", disse, em nota, o pesquisador João Henrique de Araujo.
"Todavia, há estudos que relatam esses efeitos também para doenças
metabólicas, do trato urinário e doenças como Alzheimer, sobre as quais
dissertamos", acrescenta.
Antes de planejar suas atividades,
procure saber quão quente e úmido será o dia;
Mantenha sua casa fresca
Sempre que possível, proteja
a casa da entrada de calor, feche portas, janelas e cortinas durante as horas mais quentes e abra de noite para
refrescar;
Use ventiladores e aparelhos
de ar-condicionado, se disponíveis; mas sem exagerar na regulagem do frio para
não causar choque térmico
Proteja-se do calor
Não saia durante os horários
mais quentes;
Quando estiver ao livre, use
protetor solar, chapéus e guarda-chuvas;
Evite permanecer em ambientes
fechados e sem circulação de ar, onde o calor se acumula e pode ser mais
intenso do que ao ar livre.
Mantenha-se fresco e
hidratado
Beba mais água, recuse
bebidas alcoólicas acreditando que vai relaxar, o álcool acelera a
desidratação;
Use tecidos respiráveis,
roupas escuras e pesadas retêm calor e dificultam a ventilação;
cuidado com banhos gelados, que provocam efeito rebote e fazem o corpo aumentar a produção de calor. Fontes: Unicef e Hospital Sírio-Libanês; Agência Brasil-Publicado em 26/12/2025







