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Soldados franceses nas trincheiras de Verdun |
Há exatos 110 anos, em 21 de fevereiro de 1916, um forte ataque abalava no início da manhã os fortes e trincheiras da pequena cidade francesa de Verdun. Os alemães levaram 300 vagões de munição e dispararam de todas as suas armas, durante horas. A 150 quilômetros de distância era possível escutar o estrondo dos canhões.
A ordem de atacar os franceses fora dada pelo chefe do Estado-Maior alemão, Erich von Falkenhayn. Ele queria pôr fim à guerra de posições que, desde setembro de 1914 – poucos meses após o início da Primeira Guerra Mundial –, se arrastava na frente ocidental entre a Bélgica e a França.
A intenção de Falkenhayn era
romper o front e retornar à guerra de movimento, como explica o historiador
Olaf Jessen, autor de um livro sobre a Batalha de Verdun publicado em alemão.
Mas em vez disso, alemães e
franceses passariam os próximos dez meses travando uma luta feroz por cada
vilarejo e cada colina.
PRESOS NO "INFERNO DE
VERDUN"
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| O obus de cerco alemão "Bertha Gorda",
com alcance de mais de 9 mil metros |
Dali em diante, a batalha tornaria‑se o símbolo de um massacre sem sentido. Durante a extenuante guerra de trincheiras, os soldados têm seus nervos consumidos por ratos, piolhos, frio e má alimentação. A morte é sua companheira constante, e o inimigo está, muitas vezes, a apenas 30 metros de distância.
A artilharia mais moderna
deveria decidir a batalha – morteiros pesados, além de lança‑chamas e
metralhadoras. Sobre os menos de 30 quilômetros quadrados de trincheiras chovem
26 milhões de granadas explosivas e 100 mil granadas de gás tóxico.
No verão, o odor pungente de
cadáveres paira sobre o campo de batalha; partes de corpos em decomposição,
arremessadas pela pressão das bombas, pendem dos galhos das árvores queimadas.
No inverno, a água ou lama gelada alcança os soldados até os joelhos. As tropas
enfrentam a fome e a sede, e bebem de poças de chuva nas quais, entre carcaças
de cavalos, seus camaradas sangravam até morrer.
Ali, o ser humano era
"mero material de guerra", observa Jessen. "Essa experiência
desumana ficou gravada na memória coletiva com termos como 'moinho de sangue' e
'inferno de Verdun'."
O horror também transparece
nas cartas de soldados a entes queridos.
"Verdun, uma palavra
terrível! Incontáveis pessoas, jovens e cheias de esperança, tiveram de
entregar aqui suas vidas; seus [ossos] agora apodrecem em algum lugar, entre
posições, em valas comuns, em cemitérios", escreve o estudante de teologia
Paul Boelicke, de 20 anos, à sua família. "O front oscila: hoje o inimigo
está na colina, amanhã [seremos] nós; sempre há aqui um combate desesperado.
Alguns, que ainda há pouco se alegravam com o sol quente, logo ouviam urros e
choros se aproximando de algum lugar. Acabaram‑se todos os sonhos de paz e lar;
o homem vira verme e procura o buraco mais profundo. Campos de bombardeio e de
batalha onde nada se vê além de fumaça sufocante, gás, torrões de terra e
trapos voando pelo ar, rodopiando selvagemente: isto é Verdun."
UMA BATALHA
"ANORMALMENTE CRUEL"
A Batalha de Verdun deixou
mais de 300 mil mortos e mais de 400 mil feridos.
No fim, em 18 de dezembro de
1916, passados dez meses e após incontáveis impactos de artilharia, a área
parecia uma paisagem lunar.
"A batalha foi anormalmente
cruel", diz Jessen. "Mesmo para os padrões da Primeira Guerra
Mundial. Também os números de vítimas tão altos: que tantas pessoas tenham
morrido em tão poucos quilômetros quadrados – isso não aconteceu em nenhum
outro lugar naquela época."
No início, os alemães até
lograram avançar, mas "depois os franceses reconquistaram quase todo o
terreno que os alemães haviam conquistado durante meses com grandes
perdas", afirma Jessen.
"Depois de 300 dias e 300 noites, o lado alemão estava praticamente de volta ao ponto em que a ofensiva havia começado, em 21 de fevereiro de 1916." Um dos motivos foi a longa permanência dos soldados alemães no front: "A moral de combate dos alemães estava arrasada pelo esgotamento."
O adversário de Falkenhayn,
Philippe Pétain, o defensor de Verdun, adotou desde o início um sistema de
rotação dos soldados. Ele envolveu literalmente toda a nação na batalha no
leste da França. Quase todo soldado francês foi enviado às trincheiras diante
de Verdun – mas pôde deixá‑las novamente após poucos dias, explica Jessen, para
"evitar que o cansaço e a desmoralização surgissem tão rapidamente".
DEIXAR O INIMIGO
"SANGRAR"
Como a estratégia ofensiva de
Falkenhayn fracassou, ele foi deposto em 29 de agosto de 1916 como chefe do
Estado-Maior alemão. No lugar dele, assumiu o general Paul von Hindenburg.
Tropas alemãs já eram necessárias em outros lugares, especialmente na frente de
batalha em Somme, onde tropas britânicas haviam iniciado uma ofensiva em junho
de 1916 para aliviar os franceses em Verdun.
Finda a Batalha de Verdun,
Falkenhayn ainda tentaria, anos mais tarde, atenuar sua inglória atuação e o
fracasso das tropas alemãs. Em suas memórias, o oficial escreveu que pretendia
fazer o exército francês "sangrar": "Se, para dois soldados
alemães mortos, cinco franceses tivessem de sangrar, isso seria algo bom e
promissor."
Para os veteranos
sobreviventes, aquela declaração era uma "traição", relata Jessen.
"Tiveram de ler que um de seus principais generais os via apenas como
material humano", afirma.
PONTO DE VIRADA NA PRIMEIRA
GUERRA
Segundo Jessen, apesar de não
ter sido uma batalha decisiva, Verdun foi um "marco muito, muito
importante na história da Primeira Guerra Mundial", "uma espécie de
ponto de virada rumo à derrota alemã" que, além disso, "deslocou o
equilíbrio de poder na Alemanha em direção a uma ditadura militar e acelerou a
entrada dos Estados Unidos na guerra".
O confronto em Verdun também
alimentou a chamada "lenda da punhalada nas costas" (em alemão:
Dolchstosslegende), espalhada deliberadamente pelo comando militar – que para
não admitir sua responsabilidade pelo fracasso alemão na Primeira Guerra
propagou, a partir de 1918, a imagem de um exército invencível traído por
social-democratas e judeus.
SÍMBOLO DA IRRACIONALIDADE DA
GUERRA
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Cruzes em frente ao Ossuário de Douaumont, inaugurado em 1932, lembra soldados desconhecidos mortos na Batalha de Verdun |
Hoje, Verdun é para os alemães sinônimo da absoluta falta de sentido da guerra; já na França, a batalha é lembrada com um sentimento de união nacional e até de vitória — embora, na realidade, tenha sido um impasse militar pago com sofrimento desumano.
Em 1932, foi inaugurado na
cidade um monumento onde repousam os ossos de inúmeros soldados desconhecidos.
Desde 1967, o Memorial de Verdun lembra os mortos no confronto.
Em 1914, no início da
Primeira Guerra Mundial, o autor britânico H. G. Wells cunhou a frase "The
war that will end war" ("A guerra que acabará com a guerra").
Mas se algum dos soldados franceses ou alemães que caíram em Verdun acreditava
nisso, enganou‑se.
Mais de cem anos depois,
voltam a surgir imagens de uma guerra estagnada na Europa — não em fotos
históricas em preto e branco, mas em registros modernos da Ucrânia.
"Ao olhar imagens atuais
do Donbass, veem-se grandes paralelos", diz Jessen.
Em Verdun, a insistência de
alemães e franceses na vitória foi uma aposta levada às últimas consequências
porque cada lado acreditava precisar dela para "compensar as perdas
horrendas" em seus exércitos, enquanto apostava no "colapso
psicológico e político do adversário".
"Isso lembra muito a
situação na Ucrânia e na Rússia. Também ali, no momento, não vejo como romper
[o impasse]", compara o historiador.
Antes inimigos mortais,
Alemanha e França são hoje bons amigos. Jessen diz esperar que as pessoas
aprendam com a história.
Fonte: DW- sábado, 21 de
fevereiro de 2026


