quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Macacos com melhores smartphones nunca deixarão de ser macacos

Vou contar uma história: a princesa do Reino Unido foi sequestrada. O criminoso, em vídeo divulgado pelo Youtube, fez as suas exigências. Não queria dinheiro. Não queria a libertação de prisioneiros. Não queria o fim das hostilidades em algum lugar do Oriente Médio.
Ele apenas exigiu que o premiê britânico fosse transportado até o centro de Londres para ter sexo com um porco em frente das câmeras. Caso contrário, bye bye princesa.
O premiê ficou atônito com a exigência. Intolerável. Impensável. A população apoiou o premiê e ficou tão atônita quanto ele. Sexo com miss Piggy? Melhor chamar a polícia.
O premiê chamou a polícia. A polícia tentou capturar o bandido em tempo útil. Sem sucesso. O bandido, como medida de retaliação, enviou um dedo cortado da princesa.

Horror no reino! O povo, que apoiava o premiê, começou a criticá-lo. Novas pesquisas mostravam que a maioria da população já apoiava o "rendez-vous" suíno. O que é mais importante: a vida da princesa ou a dignidade de um premiê?
A rainha telefonou para Downing Street. Não exigiu nada –explicitamente. Apenas pediu que tudo fosse feito –tudo?– para salvar a princesa.
Os assessores do premiê concordaram. "Tudo" significa tudo. Será assim tão degradante fazer sexo com um porco para salvar a linhagem real?

Essa pergunta não nasceu da minha cabeça doente. Ela inaugura "Black Mirror", uma das séries mais perturbadoras dos últimos anos. Não é uma história de folhetim, dividida em episódios, como as séries habituais. Cada episódio é um pequeno filme sobre o futuro humano e tecnológico.
Atenção às palavras: "humano" e "tecnológico". Que o mesmo é dizer: que tipo de vida teremos nós com as alterações promovidas pela tecnologia?
O caso do porco –uma óbvia evocação de um rumor sobre o comportamento de David Cameron quando era estudante em Oxford– é apenas um exemplo: hoje, a política "moderna" já se faz ao ritmo das exigências da turba. A tirania das enquetes; as discussões no "bas-fond" das redes sociais; a promoção da "vox populi" pela mídia tradicional –os bárbaros mandam.

O líder, em rigor, já não lidera; ele é liderado pelas massas. E, se assim é, haverá ainda lugar para conceitos arcaicos como "dignidade", "independência intelectual" ou "coragem" para ser impopular?
"Black Mirror" é feito dessas perguntas. E de outras, que já podemos intuir em 2017. Devemos ter direito ao esquecimento e à privacidade das nossas memórias? Ou será preferível ter acesso permanente ao passado –acesso visual, detalhado, partilhável, como se a existência fosse um filme facilmente rebobinável?
E a morte? Sim, nenhuma civilização temeu tanto a morte como a nossa. Mas será desejável que os nossos mortos possam ser "ressuscitados" pela tecnologia em simulacros de voz e corpo que nos poupam as dores do luto?

E se um dia a forma como somos avaliados no Facebook transbordar para a vida cotidiana? Até onde estaremos dispostos a ir para receber mais "likes" e subir na hierarquia social?
Todas essas demandas convidam a uma reflexão inversa. Um político que é escravo da opinião popular pode facilmente transformar-se em simples marionete dos piores instintos da maioria.
O esquecimento e a privacidade são a última barreira que nos protege da destruição e da autodestruição.
O luto não é apenas feito de dor e sofrimento; é uma pausa necessária para reencontrar sentido e reconciliação depois do naufrágio.

E a obrigação de sermos permanentemente alegres e felizes para subir na hierarquia dos "likes" é uma forma de tortura. Não por excluir a infelicidade (isso é impossível); mas apenas a expressão pública dessa infelicidade. Como acontece em regimes totalitários.

A maior proeza de "Black Mirror" está na forma como mostra duas realidades contrastantes, que os fanáticos da tecnologia são incapazes de vislumbrar: de um lado, a fluidez amoral da criação tecnológica; do outro, a permanência da natureza humana.
Podemos imaginar um mundo de mil possibilidades técnicas; mas o "software" de que somos feitos –sentimentos primitivos como o medo, a inveja, o ciúme, a vergonha– não se altera com uma simples mudança de cenário.
Macacos com melhores smartphones nunca deixarão de ser macacos. Apenas se tornam mais patéticos ou mais perigosos.Fonte: Folha de São Paulo - 03/01/2017 -João Pereira Coutinho-escritor português

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ministério da Saúde confirma 25 mortes por febre amarela

Óbitos ocorreram em Minas Gerais, estado com mais de 270 casos suspeitos da doença. Após apenas sete registros de infecções em 2016, país enfrenta surto do vírus desde janeiro.
Vírus da febre amarela          

O Ministério da Saúde confirmou nesta sexta-feira (20/01) 25 mortes por febre amarela no estado de Minas Gerais, outros 71 óbitos podem estar relacionados com o vírus. O ministério anunciou ainda que, desde o início de janeiro, foram registrados 272 casos suspeitos da doença somente neste estado.

Além de Minas Gerais, o Espírito Santo registrou 11 casos suspeitos de febre amarela. Uma explosão no número de infectados pelo vírus ocorreu no início deste ano. Em 2016, foram confirmados somente sete casos da doença, sendo três em Goiás, dois em São Paulo e dois no Amazonas. Do total, cinco resultaram em morte.

Na semana passada, o governo de Minas Gerais decretou situação de emergência em saúde pública em regiões atingidas pelo surto de febre amarela no estado.

A febre amarela tem vacina e é causada pelo vírus da família flaviviridae. A doença infecciosa febril aguda pode levar à morte em cerca de uma semana se não for tratada rapidamente. Ela é transmitida por mosquitos, entre eles o Aedes aegypti – o mesmo da dengue, zika e febre chikungunya –  e é comum em macacos, que são os principais hospedeiros do vírus.

A doença é considerada endêmica em regiões rurais e de florestas do país. De acordo com o Ministério da Saúde, não há registros da transmissão da febre amarela em áreas urbanas no Brasil desde 1942. Fonte: Deutsche Welle – 21.01.2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

O sexo da esquerda

À custa de insistir nos direitos de alguns grupos, ela deixou de ser vista como representante da sociedade em seu conjunto

Diferentemente dos anjos e dos partidos de direita, a esquerda tem um sexo. Declara-se feminista, como o PSOE espanhol desde a liderança de José Luis Zapatero; ou quer feminizar a política, como o Podemos, partido fundado na Espanha em 2014. A esquerda ganhou rótulos. Além de socialista, é ecologista, feminista e defensora das minorias. Essa diversidade oferece oportunidades, mas também riscos.

Por um lado, a esquerda se adaptou às mudanças sociais que dizimaram seu eleitorado clássico, os trabalhadores homens. Não se pode viver da nostalgia e, no século XXI, a defesa da igualdade deve incorporar considerações culturais, de gênero e de orientação sexual. A esquerda faz bem em propor medidas contra a discriminação de qualquer grupo em qualquer frente: escola, trabalho ou esfera privada.

Mas tudo o que há de bom nessas políticas integradoras há de mau no discurso político que as acompanha. Esse é o tendão de Aquiles da esquerda contemporânea. À custa de insistir nos direitos de alguns grupos, a esquerda deixou de ser vista como representante da sociedade em seu conjunto. Caiu no que Bo Rothstein, em relação à Europa, e Mark Lilla, em relação aos Estados Unidos, denunciam como a política da identidade. A esquerda enfatiza mais as diferenças entre os distintos grupos sociais do que as semelhanças entre todos os cidadãos.

A falida campanha de Hillary Clinton é uma séria advertência para os progressistas de todo o mundo. Hillary substituiu uma visão geral para o país por menções a grupos concretos: afro-americanos, latinos, LGTBI e, sobretudo, mulheres. Em princípio, parecia ser um bom marketing político. Particularize seu produto. Coloque nome e sobrenome, sexo e etnia em seus potenciais clientes. Mas a política não é como a moda. Quando você tenta atrair um grupo concreto, aliena outro. Nesse caso, o homem branco.

A esquerda em muitos países corre o perigo de escorregar na mesma ladeira: quando a defesa de políticas para os mais desfavorecidos desemboca em um conflito de identidade. Para evitar isso, os progressistas têm que ser como os anjos: inteligentes e assexuados. Fonte: El País - 2 JAN 2017

Discurso da posse de Donald Trump

Donald Trump tomou posse nesta sexta-feira (20) como 45º presidente dos Estados Unidos. Em um discurso de pouco menos de 20 minutos, o novo presidente prometeu transferir o poder político do país de Washington para os americanos e disse que o povo não será ignorado pelo governo. Trump ainda ressaltou a necessidade de priorizar o país, e criticou os políticos tradicionais.

Leia abaixo a íntegra do discurso de posse de Trump, com comentários de Raul Juste Lores.

Juiz presidente do Supremo Roberts, presidente Carter, presidente Clinton, presidente Bush, presidente Obama, meus concidadãos americanos e povos do mundo: obrigado.

Nós, os cidadãos da América, nos unimos agora em um grande esforço nacional para reconstruir nosso país e restaurar sua promessa para toda nossa população.

Juntos, vamos determinar o rumo da América e do mundo por anos pela frente.
Vamos enfrentar desafios. Vamos encarar dificuldades. Mas daremos conta do recado.

A cada quatro anos nós nos reunimos nestes degraus para realizar a transferência de poder ordeira e pacífica, e somos gratos ao presidente Obama e à primeira-dama Michelle Obama por sua ajuda gentil nesta transição. Eles foram magníficos.

Agradecimentos ao antecessor são uma civilizada praxe.

A cerimônia de hoje, contudo, encerra um significado muito especial. Porque hoje não estamos apenas transferindo o poder de uma administração a outra, ou de um partido a outro –estamos transferindo o poder de Washington e devolvendo-o a vocês, o povo americano.

Durante tempo demais, um grupo pequeno na capital de nosso país auferiu os benefícios do governo, enquanto o povo arcou com os custos.

Antipolítico e anti-establishment, a retórica que o elegeu.
Washington prosperou –mas o povo não compartilhou sua riqueza.
A região metropolitana é das mais ricas do país, incólume à crise de 2008.
Os políticos prosperaram –mas os empregos partiram, e as fábricas foram fechadas.
O establishment se protegeu, mas não protegeu os cidadãos de nosso país.

As vitórias dos políticos não têm sido as vitórias de vocês; os triunfos deles não têm sido os seus triunfos; e, enquanto eles festejavam na capital de nossa nação, as famílias em todo nosso país que passavam por dificuldades tinham pouco o que festejar.

Isso tudo vai mudar –começando aqui mesmo, e agora mesmo, porque este é o momento de vocês: ele pertence a vocês.

Ele pertence a todos os que estão reunidos aqui hoje e todos que estão assistindo em toda a América.

Este é o dia de vocês. É a festa de vocês.
E este país, os Estados Unidos da América, é o seu país.

O que importa verdadeiramente não é qual partido controla nosso governo, mas se nosso governo é controlado pelo povo.

O dia 20 de janeiro de 2017 será recordado como o dia em que o povo tornou-se governante deste país outra vez.

Os homens e mulheres esquecidos de nosso país não serão mais esquecidos.

Todos os estão ouvindo agora.

Vocês vieram às dezenas de milhões para tornarem-se parte de um movimento histórico que o mundo nunca antes viu.
Ao centro desse movimento está uma convicção crucial: que uma nação existe para servir a seus cidadãos.
Os americanos querem ótimas escolas para seus filhos, bairros seguros para suas famílias e bons empregos para eles mesmos.

São as reivindicações justas e razoáveis de um público que está com a razão.

Mas, para uma parte grande demais de nossos cidadãos, a realidade que existe é diferente: mães e crianças presos na armadilha da pobreza nos centros pobres de nossas zonas centrais; fábricas desativadas e corroídas, espalhadas pela paisagem de nosso país como túmulos; um sistema de ensino rico em dinheiro, mas que deixa nossos estudantes jovens e belos privados de conhecimento; e criminalidade, gangues e drogas que já roubaram vidas demais e roubaram nosso país de tanto potencial não realizado.

"Inner cities", zonas centrais, virou sinônimo de áreas de maioria negra dos anos 1960 aos 2000; ele foi acusado de racismo na campanha por usar esse termo.

Essa carnificina americana para aqui e para agora mesmo.

Somos uma só nação –e a dor deles é a nossa dor. Seus sonhos são nossos sonhos; seu sucesso será nosso sucesso. Compartilhamos um só coração, um lar e um destino glorioso.

O juramento de posso que faço hoje é um juramento de lealdade a todos os americanos.
Durante muitas décadas enriquecemos a indústria estrangeira às custas da indústria americana;
Ainda que as empresas americanas tenham liderado a fuga para "o estrangeiro".

Subsidiamos os exércitos de outros países, ao mesmo tempo em que permitimos o lamentável esgotamento de nossas próprias forças armadas;

Defendemos as fronteiras de outros países, ao mesmo tempo em que nos recusamos a defender as nossas;

O orçamento de US$ 600 bilhões (R$ 1,9 bilhão) é superior aos dos outros seis maiores exércitos do mundo somados, mas sofreu cortes sob Obama.

E gastamos trilhões de dólares no exterior, enquanto a infraestrutura da América se deteriorou.

Enriquecemos outros países, enquanto a riqueza, a força e a confiança de nosso país desapareceram no horizonte.

Nacionalista, projeta a ideia de que o país "enriquece" outros países, sem interesse

Uma a uma, as fábricas fecharam suas portas e deixaram nosso território, sem sequer pensar nos milhões e milhões de trabalhadores americanos deixados para trás.

A produção industrial americana tem obtido recordes nos últimos anos, mas boa parte é montada por robôs.
A riqueza de nossa classe média foi arrancada de suas casas e então redistribuída pelo mundo inteiro.
Mas isso é o passado. E agora estamos voltados apenas para o futuro.
Nós aqui reunidos hoje estamos lançando um novo decreto a ser ouvido em todas as cidades, em todas as capitais estrangeiras e em todos os salões do poder.
Deste dia em diante, uma nova visão vai reger nossa terra.
Deste momento em diante, será a América em Primeiro Lugar.

Cada decisão sobre comércio, sobre impostos, sobre imigração, sobre política externa, será tomada para beneficiar os trabalhadores americanos e as famílias americanas.

Precisamos proteger nossas fronteiras dos estragos causados por outros países que fabricam nossos produtos, roubam de nossas empresas e destroem nossos empregos. A proteção levará a maior prosperidade e força.

Mistura protecionismo com segurança, temas fortes na campanha, mas não cita os imigrantes ilegais, nem o muro com o México.

Eu lutarei por vocês com cada respiração minha –e nunca, jamais os decepcionarei.
A América vai começar a ganhar outra vez, a ganhar como nunca antes.
Traremos nossos empregos de volta. Traremos nossas fronteiras de volta.
Traremos nossa riqueza de volta. E traremos nossos sonhos de volta.

Vamos construir novas estradas, rodovias, pontes, aeroportos, túneis e ferrovias em toda parte deste nosso país maravilhoso.

Ele prometeu investimentos de até US$ 1 trilhão (R$ 3,2 bilhões) em obras públicas.

Vamos tirar nosso povo da dependência da seguridade social e lhe dar trabalho outra vez –reconstruindo nosso país com mãos americanas e mão-de-obra americana.

Republicanos acusam há anos de muita gente não procurar emprego por receber "seguridade social".

Vamos nos pautar por duas regras simples: compre o que é americano e contrate quem é americano.

Buscaremos a amizade e a boa vontade com as nações do mundo –mas o faremos com o entendimento de que é direito de todas as nações priorizar seus próprios interesses.

Não queremos impor nosso modo de vida a ninguém, mas sim deixar que ele brilhe como exemplo para todos o seguirem.

Trump criticou duramente o intervencionismo do seu antecessor republicano George W. Bush.

Vamos reforçar alianças antigas e formar alianças novas –e unir o mundo civilizado contra o terrorismo islâmico radical, que vamos erradicar completamente da face da Terra.

Obama não usava o termo porque temia que soasse como a era das Cruzadas. Trump quis marcar a diferença.

E o alicerce fundamental de nossa política será uma lealdade total aos Estados Unidos da América, e, através de nossa lealdade a nosso país, vamos redescobrir nossa lealdade uns aos outros.

Quando você abre seu coração ao patriotismo, não há lugar para o preconceito.

A Bíblia nos diz "como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união".

Precisamos dizer abertamente o que pensamos, debater nossas divergências com franqueza, mas sempre buscar a solidariedade.

Quando a América está unida, ela é totalmente invencível.

Não deve haver nenhum medo –estamos protegidos e sempre estaremos.

Seremos protegidos pelos grandes homens e mulheres de nossas forças armadas, por nossa polícia, e, o que é mais importante, somos protegidos por Deus.

Mescla paternalismo à proteção divina. Faz sucesso com o eleitorado mais religioso.

Finalmente, precisamos pensar grande e sonhar ainda maior.

Na América, entendemos que uma nação só vive enquanto estiver se esforçando.

Não vamos mais aceitar políticos que falam muito e fazem pouco –que reclamam constantemente, mas nunca fazem nada a respeito dos problemas.

A hora do discurso da boca para fora acabou.

Agora é chegada a hora da ação.

Não permitam que ninguém lhes diga que isso não pode ser feito. Nenhum desafio é capaz de derrotar o coração, a garra e o espírito da América.

Discurso direto, sem firulas, mas quase de auto-ajuda. O presidente escreveu vários livros motivacionais.

Não vamos fracassar. Nosso país vai vicejar e prosperar novamente.

Estamos na aurora de um novo milênio, preparados para decifrar os mistérios do espaço, para libertar a Terra do sofrimento das doenças e para atrelar as energias, indústrias e tecnologias do amanhã.

Um novo orgulho nacional vai inspirar nossas almas, animar nossas visões e sanar nossas divisões.

Tenta endereçar a polarização crescente no país.

É hora de lembrar aquelas palavras de sabedoria antiga que nossos soldados nunca esquecem: que, quer sejamos negros, morenos ou brancos, todos sangramos o mesmo sangue vermelho dos patriotas, todos desfrutamos das mesmas liberdades gloriosas e todos saudamos a mesma e grandiosa bandeira americana.

E a divisão racial –apenas 8% dos eleitores negros votaram nele; raro momento em que não se dirige apenas à sua base.

Quer uma criança nasça no alastramento urbano de Detroit ou nas planícies do Nebraska, varridas pelos ventos, ela olhará para o mesmo céu noturno, encherá seu coração com os mesmos sonhos e recebeu o sopro de vida do mesmo Criador todo-poderoso.

Assim, a todos os americanos, em cada cidade próxima ou distante, pequena ou grande, de montanha a montanha e de oceano a oceano, ouçam estas palavras:

Vocês nunca mais serão ignorados.

Sua voz, suas esperanças e seus sonhos vão definir nosso destino americano. E sua coragem, sua bondade e seu amor nos guiarão para sempre neste caminho.

Juntos, Tornaremos a América Grande Outra Vez.

Tornaremos a América Rica Outra Vez.

Faremos a América Sentir Orgulho Outra Vez.

E Tornaremos a América Segura Outra Vez.

E, Sim, Juntos, Tornaremos a América Grande Outra Vez.

O slogan de sua campanha

Obrigado, Deus Os Abençoe e Deus Abençoe a América.
Fonte: Folha de São Paulo - 20/01/2017

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A boa e velha corrupção

Uma pesquisa da University College, de Londres, publicada na revista "Nature Neuroscience", descobriu que o cérebro humano se habitua a mentir. O trabalho envolveu dezenas de pessoas, a quem se ofereceram opções que testavam sua honestidade. Diante de situações em que se dariam bem se mentissem, elas não falharam —mentiram e se deram bem. Ficou demonstrado que, se praticadas com regularidade, pequenas mentiras levam a uma desonestidade compulsiva, que o cérebro não vê como condenável.

Não é uma novidade para nós, no Brasil, e sem necessidade de pesquisa. E com uma variante: nossos governantes mentem, roubam e apagam as pistas, e nós é que nos habituamos a isso.

É verdade que, de tempos em tempos, o país acorda para o esculacho e se deixa seduzir por um moralista, que promete varrer a sujeira, caçar os marajás ou acabar com os 300 picaretas do Congresso. Daí Jânio Quadros (1960), Fernando Collor (1989) e Lula (2002). Eleitos esses elementos, o que acontece? A vassoura toma um porre, o caçador de marajás revela-se o marajá‑açu e o outro resolve governar justamente com os 300 picaretas, ampliados para 400.

No decorrer dos séculos, conformamo-nos com o uso do poder para fins lucrativos, por governantes em busca de vantagens particulares, como fazendas, casas de praia, canais de TV, jatinhos, viagens à Europa, joias, vinhos, festas. Era a velha corrupção, tal como praticada pelo PMDB, PSDB e que tais. Com o PT, parecíamos diante de uma nova corrupção —a do poder pelo poder, a da tomada do Estado para a execução de um projeto ideológico.

Mas os partidos políticos são formados por seres humanos. E estes, por mais ideológicos, ao descobrir que se dão bem mentindo, passam a mentir também em causa própria —rumo à boa e velha corrupção. Fonte: Folha de São Paulo - 04/01/2017  02h00 – Ruy Castro

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Será crime um branco não ter amigos negros para mostrar?

Ah, a experiência! Os colunistas são como certos cachorros de caça. A presa ainda não apareceu no horizonte. Mas os nossos caninos já estão espumando de excitação.

Exemplo: dias atrás, li uma excelente entrevista de Jonathan Franzen à "Slate". Gosto de Franzen. Conheci-o pela primeira vez em 2002, talvez 2003, em livro de ensaios que recomendo ("Como Ficar Sozinho", Companhia das Letras). Depois, provei os romances. Também recomendo, embora "As Correções" (Companhia das Letras) me pareça bem melhor que os seguintes.

Mas regresso à entrevista. E aos meus caninos. A certa altura, o entrevistador pergunta a Franzen se ele nunca pensou em escrever um romance sobre os conflitos raciais que correm pelos Estados Unidos. A pergunta é absurda: um escritor não tem que escrever sobre os temas que interessam ao entrevistador –e isso revela a decadência cultural do jornalismo contemporâneo.

Franzen escutou a pergunta, meditou e finalmente respondeu, embaraçado: "Não tenho muitos amigos negros", um eufemismo para dizer que não tem nenhum. E depois, com honestidade, concluiu: só devemos escrever sobre realidades que conhecemos bem.

Terminei essa parte da entrevista com duas perguntas a balançar no trapézio.

A primeira foi questionar se também eu tenho amigos negros. Não tenho. Existem conhecidos, colegas, amigos de amigos. Mas não tenho no portfólio um exemplar para mostrar. Razões?

Nenhuma em especial. Nunca aconteceu. O destino, nessas matérias, tem uma palavra importante. E, além disso, eu ainda respeito o significado profundo da palavra "amigo". São três ou quatro e ponto final. Por acaso, todos brancos.

Mas a segunda pergunta é mais relevante que a primeira e foi ela que despertou o meu faro: depois da confissão de Franzen, esperei pelas críticas das brigadas. Que logo surgiram, para confirmarem o meu instinto.

No inglês "The Guardian", a escritora Lindy West resumiu o estado da arte: Franzen faz parte da esmagadora maioria de americanos brancos (75%, segundo um estudo do Public Religion Research Institute) que não tem amigos de outras raças. Franzen seria, na linguagem erudita de West, um caso de "auto-segregação": um escritor que se esconde na sua bolha de privilégio e que nunca mostrou interesse em ter amigos negros.

Ponto prévio: se a cifra está correta (75% de brancos sem amigos de outras raças), é óbvio que existem dois planetas distintos nos Estados Unidos quando os negros representam 12% da população (estimativa conservadora).

A pobreza tem aqui a palavra central, admito: nas nossas vidas cotidianas, tendemos a cultivar "relações de classe". Se os brancos são mais afluentes que os negros, é normal que os brancos tenham amigos brancos.

Por outro lado, já não será tão normal viver em grandes cidades –como Nova York, Chicago ou Los Angeles– sem amigos negros que habitam a mesma classe média. Mas será que isso constitui um crime? Ou, pelo menos, uma falha de caráter?

A escritora acredita que sim. E, na sua cabeça pequena, não lhe ocorre a possibilidade singela de Franzen não ter amigos negros porque nunca os encontrou.

Para Lindy West, a raiz do desencontro está na pigmentação da pele; mas como excluir, com dogmatismo infantil, a importância das afinidades culturais, dos interesses comuns ou até dos acasos biográficos ou geográficos?

Finalmente, e em verdadeira paródia ao conceito de "amizade", Lindy West questiona por que motivo Franzen não faz um esforço para procurar amigos negros. "Amizade", para ela, é uma espécie de jardim zoológico privado onde temos o amigo negro na jaula 1; o asiático na jaula 2; o hispânico na jaula 3; o samoano na jaula 4; e, já agora, o índio na jaula 5. Parafraseando os existencialistas, a aparência precede a essência.

É um caminho. Claro que esse conceito de amizade também pode ser problemático: se a ONU tem 193 Estados membros, uma amizade verdadeiramente inclusiva deve transcender as fronteiras do país e abraçar o mundo inteiro. Ou somos cosmopolitas, ou não somos nada.

Prometo que vou fazer um esforço: amanhã começo na letra A – com um amigo afegão– e só descanso quando chegar ao Zimbábue. Fonte: Folha de São Paulo - 09/08/2016 - João Pereira Coutinho, escritor português