sábado, 14 de janeiro de 2023

Covid-19: quase 69 milhões estão com a dose de reforço atrasada

 Cerca de 69 milhões de brasileiros ainda não receberam a dose de reforço da vacina contra a covid-19. A Rede Nacional de Dados em Saúde mostra ainda que mais de 30 milhões de pessoas não receberam a segunda dose do reforço, enquanto 19 milhões de pessoas não buscaram sequer a segunda dose do esquema vacinal primário.
Esta semana, a recém-empossada ministra da Saúde, Nísia Trindade, lembrou que a pandemia não acabou e reforçou a importância de se completar o esquema vacinal contra a doença.
“A pandemia mostrou a nossa vulnerabilidade. O rei está nu. Precisamos afirmar, sem nenhuma tergiversação, e superar essa condição”, disse, ao destacar que o país responde por 11% das mortes por covid-19 no mundo, apesar de representar 2,7% da população global.
Segundo a pasta, estudos científicos revelam que a proteção vacinal desenvolvida contra a covid-19 é mais alta nos primeiros meses, mas pode apresentar redução. Com a dose de reforço, a proteção contra o vírus volta a ficar elevada. Por isso, a proteção adicional é considerada indispensável.
“Neste cenário, o Ministério da Saúde ressalta que é fundamental buscar uma unidade de saúde mais próxima para atualizar a caderneta de vacinação contra a covid-19 e outras doenças.”
Cobertura vacinal
Até o momento, 163 milhões de pessoas tomaram a segunda dose ou a dose única da vacina contra a covid-19, o que representa 79% da população. Quanto à primeira dose de reforço, 102,5 milhões foram aplicadas. Já a segunda dose de reforço - ou dose adicional - soma 45,2 milhões de aplicações. Fonte: Agência Brasil – Brasília - 04/01/2023

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Carta aos pentacampeões: Pelé esteve presente em cada jogo da seleção


Pelé é o único que foi três vezes campeão do mundo

Caros pentacampeões,

Certa vez, num discurso de despedida de um burocrata de plantão aqui na ONU, o embaixador do Vietnã pediu a palavra para fazer uma homenagem à pessoa que estava deixando o cargo. Entre anedotas e agradecimentos, ele lembrou de um provérbio vietnamita:

Quando você for comer uma fruta, nunca se esqueça de quem a plantou".

Pelé morreu e, em sua despedida, nenhum de vocês conseguiu chegar até Santos. Alguns trouxeram argumentos logísticos. Outros, apenas o silêncio.

Fizeram falta.

Os ritos de passagem dão significado, inclusive para o incompreensível. Eles conservam o sentido coletivo daquela vida. Ritos, em si, não geram a coesão de uma sociedade. Mas o sentimento produzido naquele ato pode ajudar a desenhar a silhueta daquele povo. O luto não é sobre a morte. Mas sobre a vida.

Não escrevo essa carta a vocês para cobrar nenhuma postura moral e muito menos uma explicação. Quem sou eu para julgar a forma pela qual vocês decidem viver, quais os destinos das viagens de seus jatos particulares ou se devem ou não cobrar cachê por cada vez que são fotografados em um batizado, casamento ou churrasco.

Essa carta é apenas uma reflexão sobre uma poderosa palavra: gratidão, um conceito que estou convencido de que pode ter um papel transformador num país que precisa se encontrar.

Eu tenho certeza que vocês sabem que Pelé foi quem abriu as portas para suas carreiras brilhantes. Não estou aqui desmerecendo o esforço e o suor de cada um de vocês. Alguns saíram de condições precárias e venceram, desafiando o destino que parecia querer se impor sobre suas famílias.

Ainda assim, não há como ignorar que, em cada chute de vocês, cada drible e cada vez que usaram a camisa amarela,

Pelé estava presente. Seja na expectativa que o mundo tinha sobre vocês, moldada a partir das cenas que o eterno camisa 10 nos deixou. Seja na esperança de empresários de que cada um de vocês fosse o novo Pelé.

Mas onde estavam vocês?

Vejo a ausência de tantos jogadores e de tantos outros que se beneficiaram das conquistas do Rei do Futebol em seu funeral como um sintoma do mal-estar de uma sociedade que tem sérias dificuldades para se reconhecer como um coletivo, de assumir o passado como parte de nosso presente.

Na encruzilhada em que vivemos, acredito que é fundamental recuperar esse significado e rejeitar a disseminação de lemas como "não sou coveiro". Vocês tiveram uma linda ocasião para mostrar ao mundo e aos nossos filhos que nós, sim, somos mais que o nosso presente e a nossa individualidade.

Vejo como meu filho promove uma verdadeira cerimônia em casa para pendurar no local mais nobre de seu quarto - que é o resumo de seu mundo - um quadro com o autógrafo de vocês. Nesse autógrafo, portanto, não vem apenas a imagem do gol. Confesso que tive vontade de convencê-lo a retirar da parede aqueles quadros. Mas decidi que ele tem direito a sonhar. E sei que ele logo irá torcer com consciência.

 Neste momento crítico na história de nosso país, não estou pedindo para erguermos e construirmos heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis, já diria o dramaturgo. Mas precisamos dar significado à nossa existência.

E, para isso, precisamos reconhecer aqueles que são referências de nossa identidade, o que representamos como valores e de que modo queremos desenhar o futuro onde nossos filhos crescerão.

Somos, como disse Max Weber, um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu. Mas se não tecermos, quem somos?

Precisamos resgatar o ato do agradecimento e da homenagem, desmontado por quatro anos de profanação da alma. Precisamos agradecer a Pelé e seus gols, a João Gilberto e Aldir Blanc e seus acordes, a Marielle e sua coragem, a Isabel Salgado e sua indignação, a Gal Costa e sua insurreição.

Na reconstrução do Brasil, os tijolos que precisamos usar terão de ser feitos de afeto, gratidão e humildade. Caso contrário, estaremos cultivando apenas mitos com pés de barro.

Viva Pelé!

UOL - 08/01/2023 - Colunista Jamil Chade